quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Não é só porque é lindo. Mas porque é real...

SONETO DE SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

HIATO
Se ele, sendo quem foi, tinha seus intervalos de idéias, por que eu, sendo assim tão parva, também não os posso ter? Então, em "homenagem" aos meus lapsos (nada) criativos:

"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio
e a verdade me é revelada".
(Einstein)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

LIVRO DE SETEMBRO (embora já seja Outubro)
LATIDOS E MIADOS
Confesso que assim que vi a capa do livro pela primeira vez (na Feira de Leitura que houve no CSA), me interessei logo pelos contos de gatos. E foi basicamente por isso que o comprei. Claro que o que me deu ainda mais certeza de estar levando para casa um ótimo livro foi a lista de autores selecionada e organizada pelo jornalista, tradutor e escritor Flávio Moreira da Costa: Homero, Mark Twain, La Fontaine, O. Henry, Machado de Assis, Balzac, Artur Azevedo. Enfim, a lista é grande. Sinceramente eu não imaginava que houvesse tantos textos lindos, densos, profundos e apaixonantes sobre cães e gatos. E no fim das contas, acabei por me render aos contos caninos (inclusive há um textinho muito simpático de Leonardo da Vinci). Não que eu não goste de cachorros, pelo contrário, mas às vezes, por mais alegres que esses bichinhos pareçam, eles me passam um pouco de melancolia. Só que isso não faz com que eu goste menos deles. E no caso dos contos, alguns autores conseguiram traduzir exatamente esse sentimento, narrando histórias de cães companheiros, servis e obedientes aos seus donos, mesmo que estes não merecessem.

Mark Twain, mais uma vez, me prendeu. Agora foi com seu conto A História de um Cão, em que, já em sua época (entre 1835 e 1910) chamava a atenção para a crueldade das experiências com animais. A frieza e ingratidão de um homem cujo filho ainda bebê foi salvo pela cachorrinha da família parece não diferir muito do se passa hoje. Tão tocante quanto o famoso conto russo Mumu, de Ivan Turgueniêv (1818 – 1883), em que um empregado solitário de uma senhora muito rica e amarga se vê obrigado a se desfazer de sua companheirinha. Chega um ponto em que não se sabe se quem é mais servil é o cão ou o homem.

E como não podia deixar de ser, os contos felinos são bem mais alegres e engraçados. Expõem a natureza dos gatos e sua personalidade: espertos, curiosos, corajosos, desconfiados, farristas, mimados, contemplativos. Destaque para o hilário conto do americano Damon Runyon (1884 – 1946), Lillian: uma gatinha abandonada nas ruas frias de Nova Iorque, encontrada e adotada por um ator bêbado e decadente que perambula pela Broadway vivendo de pequenas apresentações. Ambos vivem de modo quase insalubre num hotel vagabundo, mas não se desgrudam. Um dia, o hotel pega fogo, e ambos se metem no meio do incêndio e “sem querer” salvam uma criança. Mas o verdadeiro motivo desse ato heróico é o que fecha de modo cômico a história – que contrasta drasticamente com o conto de Edgar Allan Poe (1809 – 1849), O gato preto, perturbador e com grande densidade psicológica, e com o romântico O gato marinheiro, de John Coleman Adams (1849 – 1922).

Mesmo para quem não cria um cão ou um gato, o livro vale muito para despertar para a importância de se ter um bichinho por perto, de que animais não são meros enfeites dentro de casa. Eles têm sentimentos quase humanos (ou mais humanos que nós), se comunicam a seu modo doce, são desinteressados, amam seu dono pelo simples prazer de amar e não se questionam o por que. Cães e gatos têm suas diferenças, mas rendem ótimas histórias – não necessariamente historinhas para crianças, mas contos com mensagens que penetram na alma. Pelo menos foi essa a sensação que tive.

Os Melhores Contos de Cães & Gatos
Organização: Flávio Moreira da Costa
Páginas: 367
Editora: Ediouro

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte III – Da Lei do Silêncio
“Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles o resto de nós não seria bem-sucedido”
(Mark Twain)

Se não me falha a memória, a adolescência é uma época ótima, muito boa mesmo. Eu não tenho do que reclamar da minha, mas às vezes paro para observar grupos de adolescentes e me pego perguntando: “será que eu era tão idiota assim?”. Provavelmente eu tive meus momentos idiotas, mas não pelos mesmos motivos desse grupinho que achei nas inesgotáveis fontes de pérolas orkutianas. Dessa vez o centro das discussões era a Lei do Silêncio. E não estou aqui para julga-la, nem discuti-la e nem trazer à luz maiores explicações sobre isso. Mas o caso é que nosso bom e velho Lago já não é mais o mesmo.

Quando eu beirava a adolescência, as pessoas que queriam ouvir música em torno do lago ligavam o som de seus carros num volume que só elas mesmas ouviam. Não importava se era um casal de namorados, se fosse um solitário qualquer ou um grupo de amigos, todo mundo respeitava o espaço e os ouvidos alheios. Hoje, o que se vê – e só se vê, pois não se ouve nada em meio a um caos de barulhos – são competições fúteis e quase primitivas para provar quem tem o som mais potente, quem consegue chamar mais a atenção, quem consegue atrapalhar o passeio dos outros, quem tem mais mau gosto. Foram-se os fins de semana em que dizíamos para os amigos: “vamos para o lago, para conversar?”. Tudo bem, hoje ainda podemos conversar, mas ou a gente aprende a fazer leitura labial, ou aprende LIBRAS ou a comunicação não vai sair do “o quê?”, “como é?”, “o que você falou?”. Parece exagero? Talvez, mas os reis dos exageros, da intolerância e da pura ignorância são os autores dessas frases:

“éssa lei só foi criada p tirar dinheiro desse povo trabalhador. o cara junta uma graninha p coloca um sonzim p faze moral , dai os homi vai lá multa o cara !!!! e esse negocio de atrapalha kem mora lá não tm nada a ver não , só atrapalha velho !!!!”

“Absordo.
Eu acho um absordo essa lei do Silêncio, tudo bem depois das 22:00hs é proibido, mas sou contra, pois nem a tarde de domingo no lago naum pode escutar som, a cidade esta parecendo cidade de velhos, deveriam cercar a cidade e colocar na entrada "ACILO DOS VELHOS NÃO PERTUBE" ate minha tia com 60 anos gosta de ouvir um som no lago isso é impetuoso, não concordo, com a proibição, quem tem casa perto do lago e gosta de silêncio, muda... naum estrada a festa de milhares de pessoas para ficar vendo Tv, ou Dormindo, trabalho com Som e todos os salão de festa estaum com aviso de som baixo por causa dessas poessoas que quer tranquilidade. Pode contar comigo pra ser contra essa lei do silêncio!!!”

“eles saum uns tontos q só faltam calar o passarinhu q canta de manhã coitado do galo q acorda as 5 e canta...eles naum qrem q ninguém se divirta sem ser eles...muito tontos...nunca vi...eles só naum reclamam do sapato deles q faz barulho hahahaha...lokura...”

Definitivamente nossos jovens andam cada vez mais dramáticos. Eu quase me comovi. Eu não sabia que a Lei do Silêncio é o ÚNICO jeito de um trabalhador perder seu dinheiro. E se perde nesse caso, é muito bem feito. Quem dá tanta prioridade a um carro ou a um equipamento de som, merece ter prejuízo. Infeliz de quem cultiva essa mentalidade desde tão cedo. Espanta-me que um sujeito morra de dó de dar seu rico dinheirinho numa multa – que no fim das contas resulta em benefícios ao município – e seja tão mão aberta com tamanhas futilidades, como comprar mil tranqueirinhas para o som e fazer do passeio dos outros um inferno. E não querer um som insuportável na orelha não é coisa de velho, mas de gente de bom senso.

Além disso, o egoísmo desse pessoalzinho chega à estratosfera: sugerir que os moradores da região do lado se mudem, é o fim da picada! Eu, que nem moro tão perto do lago assim, não me sinto na obrigação de ouvir sertanejo, pagode, funk e axé o tempo todo e com tantos decibéis. Também não estou pondo em juízo as (infelizes) preferências musicais dessas pessoas. Querer que eles ouçam um Bach, MPB ou Rock Clássico é o mesmo que esperar por um milagre. Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas, mas promover uma verdadeira competição de som automotivo no lago, é muito egoísmo.

Alguém questionou por que as pessoas que vivem perto do lago não se mudam. Pois bem. E para onde iriam? Eis uma idéia: “essa lei e um c*** c vcs habitantes de garça querem silencio q vao todos pro cemiterio... a juventude ta ai gente nos q somos novos temos q curtir zuar e bagunçar e vcs velhos quuerem por limites nas nossas coisas vcs sao todos um c*** viu.... prende bandido ninguem vai atraz né...”. Vamos virar um bando de góticos e viver no cemitério! Enquanto isso, no NOSSO lago, no lago que é de todo mundo, um bando de acéfalos ouve as músicas mais podres do mundo. Além do que, eles insistem nessa infeliz mania de se referir aos mais velhos de forma pejorativa, em xingar a Lei do Silêncio (por isso usei asteriscos de novo) e em exaltar a beleza e a filosofia do som alto:

“se vc eh dakeles...q curtem...som automotivo...e naum apoiam essa p*** de lei que proibi som auto no seu carro...entrem nessa comu...e lute pelo nosso hobby...naum deixem isso de lado... queremos liberdade... queremos nosso hobby... lutemos pelo nosso unico ideal: curtindo um som e mandando ver...sem medoo de ser feliz. " cerveja gelada...e mulher bonita...eh o lema do som automotivo” todos nos sacudimos os pilares do paraíso”

Eu não sei como é que existe gente que espera sacudir os pilares de qualquer coisa tendo como lema “Cerveja gelada e mulher bonita”. Quanta pobreza de idéia. Quantas prioridades inúteis. Quanto dinheiro jogado no lixo. Quanto cérebro desperdiçado.
Diante disso tudo, não sei se fico indignada, se tenho dó ou se fico alarmada por constatar como anda a cabecinha de alguns dos nossos jovens garcenses. Evidente que não são todos, mas uma volta pelo lago num sábado ou domingo prova que também não são poucos. E a essa altura do texto, ainda estou forçando a memória na tentativa de responder a mim mesma se minha geração foi desse jeito, tão idiota. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não escrevíamos tão mal assim.
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Foto: Jerry Lewis, no filme "O otário"