quarta-feira, 7 de abril de 2010

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR


“São mitos do calendário / Tanto o ontem como o agora / E o teu aniversário / É um nascer toda hora” (Carlos Drummond de Andrade)Esses dias ouvi uma expressão, também drummondiana, que me chamou muito a atenção: Fixação sentimental. Acredito que isso resume perfeitamente todo esse oitentismo e saudosismo que eu sempre sinto. Imagino que quem convive comigo deve estar farto dessa minha mania de ficar remexendo o que já foi, mas dessa vez vou tentar não aborrecer ninguém, mas sim fazer uma pequena homenagem a um lugar que marcou bastante um bom pedaço dessa minha curta vida de 30 anos: a loja A Eletrônica, que um dia foi do meu avô Antônio Sganzela (e também, por um tempo, do seu amigo e sócio Nelson Kerges), e depois do meu tio Carlão. Um pouco diferente das recordações precisas e históricas da minha mãe, o que eu tenho são lembranças de criança, são momentos que me remetem ás tais fixações sentimentais.Eu nunca levei aquela loja a sério. No bom sentido. Quando criança, eu nunca a vi como uma casa de comércio, muito menos como um local de trabalho. Eu a via realmente como um grande quarto de brincar, com suas prateleiras lotadas de bonecas, bibelôs, panelas, potes, potinhos, potões, ferramentas, talheres, vasos, jarras, porta-isso, porta-aquilo... Para mim tudo era brinquedo. Talvez as coisas com as quais eu nunca tenha brincado foram com os violões, porque eu era pequena demais para segura-los, porque eles ficavam pendurados lá no alto ou porque meu tio sabia que violão em mão de criança arteira não prestava. Mas confesso que “testei” muita coisa daquela loja – desde aqueles jipinhos com pedais até aquela pistolinha de acender o fogão, o Magiclick. Aliás, era só botar um Magiclick na minha mão e eu tinha diversão garantida durante boa parte da tarde. Como aquilo tinha mesmo forma de pistola, eu me sentia “a justiceira” atirando nos homens maus.E antes que a minha prima Evelyn diga que eu me esqueci dela, não tinha como esquecer, pois bastava a gente se encontrar na casa da minha avó para que ela viesse com essa: “Vamos brincar de lojinha?”. Aí as duas pirralhas ficavam transitando pela Eletrônica fingindo que uma era a atendente e outra era a “madame” que comprava. Mexíamos na caixa registradora para darmos nossos trocos imaginários, usávamos retalhos de papel de presente para fazermos as notinhas e acabávamos com as fitas, daquela quase secular, máquina de escrever (Remington? Royal? Não tenho certeza). E tudo isso em meio ao entra e sai dos fregueses de verdade. Eu não sei como o meu tio tinha paciência. Eu não teria! Mas o meu nonno já não era tão tolerante, porém até das suas broncas achávamos graça.
A gente só dava um tempo de atazanar na loja quando era hora de tomar café na casa da dona Valentina – a loja e a casa da minha avó eram literalmente grudadas, o que aumentava ainda mais as possibilidades para inventar brincadeiras. Creio que eu só não bagunçava com as imagens dos santos, talvez por medo de ser castigada, porque de resto, em tudo eu mexia, em tudo eu fuçava. Eu me sentia dentro de um outro mundinho, tudo eu queria ver, em tudo eu queria botar a mão. E cada brincadeira, cada tilintar daquela velha e bela caixa registradora, cada vez que a loja funcionava à noite nas semanas que antecediam o Natal, cada passa-fora do meu avô, cada piadinha do meu tio, cada reencontro com os primos, tudo isso traz à minha memória, não apenas a imagem empreendedora de uma família, um estabelecimento respeitado ou um nome que foi se consolidando através dos anos, mas especialmente me leva de volta à minha “Disneylândia” – a melhor e única que eu poderia querer.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CORRESPONDÊNCIAS ENTRE AMIGOS – Parte 3
DAS ARTES AO FIM DO MUNDO

Em mais um texto da série “conversas orkutianas, porém relevantes”, Fagner e eu divagamos sobre o fim do mundo, passando pelas artes e pelo cinema, e percebendo como esse assunto tem se tornado ao mesmo tempo fascinante e cansativo. Nos tempos da minha avó, o fim do mundo despertava nas pessoas curiosidade e medo. Hoje, como quase tudo, isso está tomando ares de modismo. O fim dos tempos vem se anunciando desde que o mundo é mundo. Os homens das cavernas já olhavam para o céu vislumbrando o poder de algo que eles nem conheciam, mas que poderia acabar com a sua existência quando bem entendesse. O hinduísmo desde sempre falou sobre a destruição do mundo e sua reconstrução pelas mãos de Shiva. Os índios americanos, as civilizações da América Central, os egípcios, todos já sabiam que a humanidade nasceu com os dias contados porque somos imperfeitos, porque estamos sempre metendo os pés pelas mãos, porque somos algozes da natureza, somos egoístas, materialistas e merecemos uma lição. Mas à medida que 2012 chega, o espetáculo em cima desse assunto vai crescendo:

[Fagner] - Agora vou ver se escrevo sobre o filme 2012, tinha falado que não iria assistir, mas uma amiga emprestou...

[Eu] - 2012 eu queria muito assistir, gosto dessas coisas meio apocalípticas, se bem que esse assunto já deu o que tinha dar. Estou acompanhando a série documental O Efeito Nostradamus no The History Channel. É sobre fim do mundo também, mas cada episódio trata de um tema. Eles buscaram fim do mundo até nas obras do Da Vinci! O episódio sobre os Sete Selos me impressionou um bocado. Se tiver a chance de ver, "veje" hahaha

[Fagner] - Então, é por isso que eu não assisto esses filmes de fim do mundo, é alguma coisa tão batida. Mas esse do History Channel parece interessante. Apocalipse no Leonardo da Vinci... Então, isso cheira até coisa do Código Da Vinci.


[Eu] – Sim, sim, esse do History Channel é bem interessante. Isso sobre o Da Vinci, eles foram fuçar em três obras dele que - dizem - ele previu a revolta da natureza sob a forma de muitas chuvas, enchentes e um novo dilúvio. Isso aparece na Madona das Rochas, na Monalisa e no São João Batista. Fora as inúmeras gravuras dele - inclusive as Cabeças Grotescas! Pois é... Tem hora que eu acho que eles viajam demais, mas muita coisa ali até que faz sentido.

[Fagner] - Puxa, que leitura disso tudo, tenho reproduções da Madona das Rochas, da Monalisa daquelas da Caras, que é só colocar uma moldura, e livros com os outros quadros... Adoro as cabeças grotescas, parecem as bisavós das caricaturas. Mas nunca tive essa leitura. Até na crônica de hoje do Cony, na Ilustrada da Folha, ele cita a Ceia, daquela leitura que fizeram que João Batista era na verdade Maria Madalena e que na parte da junção dos dois formam um cálice. Sei lá. Eu acho que nós vamos acabar com o mundo antes do Apocalipse. Aí Deus irá dizer: Mas eu preparei tudo e os caras acabaram antes!


[Eu] - Essas cabeças grotescas eu fiquei conhecendo por causa da capa do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs. Achei medonhas, mas muito interessantes. Prendem a atenção, dão uma sensação muito esquisita. Não recordo exatamente o que disseram dessas cabeças quanto ao dilúvio, mas é como se elas fossem uma antecipação do que estaria estampado no rosto das pessoas nessa época de destruição. Era a angústia que Da Vinci sentia quando tinha essas "visões". Já em S. João Batista, os cabelos representam as ondas do mar invadindo a terra (muito resumidamente falando) e o dedo em riste é algo como "olhe para cima (procure por Deus), ainda há salvação".


[Fagner] - Sabia que o S. João Batista de Da Vinci na verdade é Baco? Repara bem quando você for ver novamente a imagem, a semelhança. Pensei que você ia dizer que as cabeças grotescas são aquela imagem da Bíblia que aos perdidos (os f***) só restará o choro e o ranger dos dentes... Aquelas cabeças me lembram essa passagem.


[Eu] - Pois então, antes eu confundia esse São João Batista com o Baco mesmo. Afinal ele está muito mais com cara de "profano" do que de santo. Nunca tinha associado as cabeças grotescas com essa passagem da Bíblia! Mas combina. A primeira vez que eu vi, eu me lembrei daquela gente eternamente doente e mal nutrida dos tempos medievais, aí depois me lembrava dos orks do Senhor dos Anéis. Do fim do mundo para as artes... (...) É ou não é uma coisa perturbadora? Dá até pra imaginar o tormento se passando pela cabeça dessas criaturas. Da Vinci era terrível - no bom sentido (...) Hoje eu estava revendo o Efeito Nostradamus - O Armagedom de Da Vinci. Esse tipo de coisa é bom a gente assistir mais de uma vez, pois tem muito detalhe! (...) O próprio Da Vinci fazia algumas previsões, deixou várias e várias frases escritas em forma de "charadas" sobre o fim do mundo. Medonho. (...) Finalmente consegui assistir a 2012 Tirando os clichês, algumas coisas ali ficaram meio estranhas, você percebeu? Americanos sem rumo dependendo da ajuda de russos e chineses! Isso sim é apocalíptico! E no fim das contas todo aquele carnaval da Diocese do Rio para censurar as cenas em que o Cristo desmorona, não deu em nada? Pra mim esse piti foi totalmente desnecessário, afinal a cena não durou nem 10 segundos. Pior foi a Capela Sistina rachando e os afrescos do Michelangelo virando pó.


[Fagner] - Viu o 2012? O que me irrita é essa coisa que tudo os EUA tem que resolver... Parece que o mundo é quintal: "Olha lá pai, tão mexendo na laranjeira lá no fundo do quintal." "Peraí, fio, vou jogar uma bomba nesses malditos!" Mas sei lá, não é o meu estilo de filme preferido. Leonardo da Vinci fazer previsões é coisa de gênio, o cara escrevia ao contrário para ninguém ficar lendo. Mas sei não quanto a prever o fim do mundo, acho que vamos acabar com ele antes do Apocalipse, e quando Deus chegar para acabar com tudo vai dar com os burros n' água: "Puxa, essa racinha acabou com a minha diversão!"


[Eu] - Estados Unidos... tudo tem que acontecer primeiro lá, inclusive o fim do mundo! Agora peguei para assistir outro desses seriados amedrontadores do History Channel: Deus Versus Satanás. É também sobre isso do final dos dias, da última e decisiva luta do bem e do mal, que dizem, tem até lugar certo para acontecer: Megido. Mas como você disse, do jeito que as coisas estão indo, o fim pode estar mais perto do que a gente imagina. Quando Deus descer para dar na cara do Satã, não vai ter mais Megido, nem Jerusalém, nem Oriente Médio, nem continente nenhum. Vão ter que brigar em outra freguesia.


[Fagner] Aí, escreve sobre o fim do mundo! Estava conversando ontem com o Leleco e ele me passou uma dica de um texto do Leonardo Boff. Além disso, tinha falado pra ele que se a nossa raça acabasse, segundo algumas leituras, entre elas a do nosso véinho querido, o Mark Twain, seria uma boa para o mundo. Sabe como é: não fazemos falta. E, se não existirmos mais, o mundo voltaria a ser o que era, lindo e limpo. Seria bom se isso acontecesse, o que eu acho que vai, porque somos frágeis, deixa mudar o tempo, ter uma catástrofe climática pra ver quem vai primeiro...


[Eu] Pois é, isso que você disse sobre a gente sumir e o mundo voltar a ficar limpo e bonitinho, teve também no THC uma série de documentários chamada O Mundo sem Ninguém, e falava exatamente disso. Se de repente todo mundo desaparecesse (por um motivo qualquer), o que seria do mundo? O que seria das cidades, dos monumentos, dos documentos, dos livros, dos nossos animais domésticos, dos prédios, das fábricas, das estradas? Muito interessante. A natureza simplesmente não sentiria a nossa falta, os animais reinariam sobre a terra e tudo TUDO MESMO sumiria em algumas centenas de anos, desde os livros e arquivos digitais, até os carros, usinas, museus, torre Eiffel, Estátua da Liberdade, Monte Rushmore (só para citar algumas das criações mais monumentais do homem), grandes rodovias. A natureza ia engolir tudo!


[Fagner] Tem até um filme assim. É no Planeta dos Macacos que eles aparecem do lado da cabeça da Estátua da Liberdade. É tudo seria perdido, coisas de valor inestimável. Mas e se viesse também alguma coisa do céu e acabasse com tudo, como aconteceu com os dinossauros? Outros seres iriam sobreviver, não nós e começariam tudo de novo. Em cima das nossas coisas, iriam evoluir e depois, quem sabe, até escavariam nossas coisas como fazemos com os dinossauros. (...) E, quem sabe, quando encontrarem algumas coisas, farão suposições de nossos costumes, como fazemos com bichos que nem sabemos direito como eram. Assim:
O Supremo Castigo
Mário Quintana
Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe - quem é que não viu? - aquele cartaz... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio - até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos - estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!” - (In: Caderno H) p. 273


[Eu] Agora esse trecho do Quintana me lembrou aquele outro filme Os Deuses devem estar loucos, em que o aborígene acha uma garrafa de Coca-Cola e imagina ser isso um sinal dos deuses. Mas vai ser bem por aí mesmo. De repente uma coisa bem banal como uma garrafa ou um tênis Nike daqueles bem horríveis, possam ser interpretados como coisas divinais, vai saber... Só sei que isso de fim do mundo está ultrapassando os limites da curiosidade e já está virando moda. Os documentários da TV a cabo só falam disso: catástrofes, apocalipse, os exércitos de Satã, a vingança da natureza, os escritos maias, as profecias de Nostradamus... vou voltar a ver Tom & Jerry que eu ganho mais.


[Fagner] Nostradamus... Ainda acreditam nele? O cara tem quantas profecias do fim do mundo? Desde pequeno ouço algumas e até agora nada... Pra você ver que estamos sob um efeito retardado, isso porque teorias apocalípticas deveriam ser feitas no fim do século, quando as luzes estão se apagando. Isso me lembrou o Antônio Conselheiro no final do século 19. Lembra do "sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão"? Já leu essa profecia? Lembro de uns caras (no fim do século que nascemos - estamos velhos, somos do século passado!) que se mataram quando o cometa Halle Boop ia passar porque teve um maluco que falou que seria o fim do mundo e que na cauda do cometa tinha uma espaçonave que iria pegar aqueles que se matassem numa data certa. Agora com isso eu me lembrei do Chaves entregando jornal: "Cinqüenta pessoas enganadas!"

Quem quiser aderir a uma seita bizarra e se matar, que se mate. Enquanto Deus não passa uma vassoura em tudo, o melhor a fazer é tentar ver as coisas por um lado mais espiritualizado e menos especulativo. Vou continuar lendo, escrevendo, adorando gatos, vendo os vexames do Palmeiras, fazendo palavras cruzadas, assistindo a desenhos e desfrutando da companhia das pessoas que amo do mesmo jeito de sempre. O final é algo certo para todos. Para uns mais cedo, para outros mais tarde. Mas mais importante do que escarafunchar sobre qual tragédia se abaterá sobre nós um dia, é aprendermos a tirar o melhor de nós todos os dias. E fim de papo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


Bruno, Fagner,
LyLove e Das Schweigen:
muito obrigada pelas visitas e pelas palavras.
Sinto que ganhei a semana!
\o/

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

HERÓIS DE ONTEM.
HERÓIS DE HOJE.

Fui muito pichada pelo meu último texto, sobre a Colheita Feliz, pois creio, muitas pessoas não entenderam o espírito da coisa, mas tudo bem. Sei que dessa vez a receptividade vai ser a mesma já que vou pisar o calo de mais gente. Quem gosta de Big Brother aí, levante a mão. Mesmo aqueles que fingem que não gostam, mas que sempre dão suas espiadelas, conforme convida o Bial. Eu admito que assisti lá nos primórdios, quando a coisa ainda era novidade. Mas aí fui percebendo que circo inútil isso era e me curei. Mas respeito quem gosta. Só pergunto se essa mania de chamar os brother e sisters de “guerreiros” e “heróis” não é exagero. Eles mesmos se intitulam guerreiros. Guerreiros por quê? Cadê o heroísmo? Onde há bravura? Cadê a valentia? Ali só se vêem músculos, bundas, cabelos tingidos, silicones, cabeças ocas, conversas fiadas, piadas gratuitas, comentários sem nexo, modismo e uma pseudo-militância. E há quem pague para ver! Para mim ali não há, nunca houve e jamais haverá guerreiro algum, herói algum. Ali só existem oportunistas e preguiçosos. Mas eles estão crentes que são guerreiros! E com isso passam a idéia de que guerreiro ou herói é somente aquele que vence, é aquele que esmaga a cabeça de seus inimigos, é quem triunfa a preço for. Não. Os sábios gregos antigos já ensinavam que o verdadeiro herói é aquele que dá a sua vida por alguém ou por uma causa sem pensar em recompensas, sem almejar homenagens, sem esperar por aplausos. Os maiores heróis da antiguidade perderam suas vidas em nome daquilo em que acreditavam e nem sempre saíram vitoriosos, mas seus nomes ficaram imortalizados e alguns vencedores se perderam na História. Isso me lembra o caso de quando Fernando Pessoa, ainda engatinhando na literatura, ficou em segundo lugar numa espécie de concurso de textos. O segundo colocado foi o grande Pessoa, mas quem foi o primeiro? Ninguém sabe. O vencedor nem sempre é digno.

Antes de chamar esses situacionistas de heróis, Pedro Bial deveria botar a mão na consciência e se lembrar de quem realmente são nossos paladinos. E para aqueles que adoram um BBB, aí vai uma listinha, para que percebam o crime que se comete quando se nivela esses “famosos-quem?” com esses bravos homens e mulheres, guerreiros de fato:

1 - As antigas civilizações da América que se defenderam como puderam de seus algozes colonizadores.
2 - As centenas de mulheres queimadas pela Inquisição, acusadas de bruxaria (juntamente com seus gatos) simplesmente porque a Igreja via no sexo feminino a própria tradução do pecado.
3 - Jesus, que somente com suas palavras, arrebatou milhares de corações e sem derramar o sangue de ninguém, incomodou profundamente o Império Romano e mudou indelevelmente a História do mundo
4 - Siddhartha Gautama, o Buda, que se libertou dos ricos muros que o impediam de ver as mazelas do mundo, abdicou de tudo e alcançou a iluminação na intenção de abrir as mentes das pessoas e levá-las ao conhecimento.
5 - Sócrates que sob a acusação de corromper seus jovens discípulos, foi obrigado a beber cicuta, mas não retirou nenhuma palavra que disse, mantendo sua honra até o final.
6 - Francisco de Assis, que depois de uma revelação, se despojou de tudo que tinha e casou-se com a senhora pobreza, cantava as palavras do Cristo, espalhava sua alegria e contemplava a natureza.
7 - Lao-Tsé, grande pensador chinês que deu origem ao Taoísmo; entristecido com o pouco caso da sociedade de sua época recolheu-se nas montanhas do Tibet, porém seu único intuito era pregar a bondade.
8 - Gandhi que, disseminando o pacifismo, foi o grande responsável pela conquista da independência da Índia.
9 - Joana D´Arc, que ainda menina ouvia vozes santas, foi ridicularizada, acusada de louca, mas que reuniu um exército e levou os franceses à vitória sobre os ingleses em 1429. Quando capturada, foi também mandada à fogueira. Porém sua audácia e coragem nunca foram esquecidas.
10 - Maria Quitéria, valente baiana que, disfarçando-se de homem, lutou contra a coroa portuguesa pela independência do Brasil.
11 - As 103 tecelãs que morreram carbonizadas em uma fábrica em Nova Iorque em 08 de março de 1857, reivindicando melhores condições de trabalho.
12 - Anita Garibaldi, que combateu bravamente na Revolução Farroupilha e pela libertação e unificação da Itália.
13 - Machado de Assis, que tinha vários ingredientes para dar em nada, venceu preconceitos e ainda é (e será sempre) um dos maiores escritores da Língua Portuguesa.
14 - Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que mesmo pobre e doente, produziu as mais belas obras do nosso barroco, deixando-nos um legado artístico ímpar.
15 - Sêneca (um dos meus filósofos favoritos) defendia o desapego dos bens materiais e uma vida feliz longe das ostentações. Foi conselheiro do imperador Nero e tentou orientá-lo no caminho do estoicismo, mas assim como Aristóteles com seus discursos, foi injustamente acusado e condenado a cometer suicídio.
16 - Anne Frank, a adolescente alemã que viveu 25 meses escondida num porão com sua família fugindo das ameaças nazistas. Privada de qualquer conforto e liberdade, ela escrevia em seu diário seus medos e esperanças. Porém eles foram dedurados e levados a Auchwitz. Somente seu pai, Otto, sobreviveu ao campo de concentração. Hoje seus escritos são uns dos mais conhecidos registros sobre as barbáries dessa época.
17 - Madre Teresa, ganhadora do Nobel da Paz em 1975, fundadora da ordem das Missionárias da Caridade, disse ter recebido um chamado de Deus quando abandonou a docência de Geografia para se dedicar integralmente aos pobres, preocupando-se e dando atenção especialmente às crianças, velhos, cegos, leprosos e mulheres. Era também conhecida por "Santa das sarjetas".
18 - Nossos antepassados que desembarcaram no Brasil com uma mão na frente e outra atrás, mas que, com muito trabalho, conseguiram ter seu pedaço de chão, seu teto, seu pequeno negócio, e sem prejudicar ninguém (e nem se valer de esmolas do governo), constituíram, honestamente, família e patrimônio.

E os bravos de hoje, quem são? Big Brothers acéfalos? Uma bunda imensa que se sacode no carnaval? Jogadores de futebol que ao invés de honrarem seus salários, promovem orgias na Europa? Quem foi que os colocou num pedestal? Não venham só culpar a mídia por essa inversão de valores, pois se os veículos de comunicação vendem, é porque existe quem compre. Os heróis que o povo quer têm que passar pelo crivo da mídia para ter significância. Isso é deprimente. O povo deixa passar batidos os guerreiros de hoje de verdade como os ativistas e voluntários do Greenpeace, WWF, S.O.S Mata Atlântica, Projeto Tamar, que fazem uso do tempo que têm e da ajuda que quase não têm para tentar resgatar animais e plantas ameaçados de desaparecer, de recolher bichinhos maltratados, de alertar as pessoas e de fazê-las enxergar que a natureza pede socorro. Médicos sem fronteiras que se desdobram para atender pacientes nos confins mais pobres do mundo. Professores, especialmente os dos grandes centros como São Paulo, que são mal pagos, destratados, ofendidos e até agredidos, mas que ainda assim honram a profissão; ou os dos lugarejos mais miseráveis dos sertões, onde não há condição alguma de trabalho, mas eles estão lá para seus alunos. Hoje quem realmente tem bravura e coragem não tem cara, não tem nome. Talvez na Grécia antiga eles fossem lembrados em belas odes. E, no entanto, adoradores dos Big Brothers, tão burros quanto os próprios, os divinizam, os tomam como exemplos e serão igualmente efêmeros. Cada um tem o herói que merece.
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São Francisco de Assis: o homem do milênio

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

COLHEITA SEMPRE FELIZ

Sinto que há pessoas (além do blog) que não entenderam muito bem a proposta do meu texto sobre a Colheita Feliz. Ah, pelamordedeus! Será que não notaram que o texto não é para ser levado tão ao pé da letra? Quando criança eu roubava pitangas em algumas casas daqui de Garça. Hoje roubo as hortas virtuais da Colheita. Eu também jogo! Por isso me achei no direito de brincar com esse assunto.
Respeito o pensamento de todo mundo, mas só achei engraçado tantas pessoas se manifestarem irritadiças levantando a bandeira da Colheita Feliz sendo que nesse mundo há tantas outras causas mais importantes para se defender, enfim... Essa gente que leva tudo tão a sério o tempo todo tem que se cuidar: Isso dá úlcera!

OHM...


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A colheita maldita

A COLHEITA MALDITA


Antes que eu fique com algum bloqueio mental por causa desse jogo, vou logo escrever o texto que alguns amigos meus me recomendaram e pediram. Na verdade o jogo em questão não se chama Colheita Maldita, mas Colheita Feliz (a versão brasileira do Happy Harvest). O “Maldita” é por minha conta, pois o que parece ser um inocente joguinho on line, na verdade é um terrível vício que desperta o que há de pior no ser humano: ganância, inveja, ostentação.
Para aqueles que ainda não conhecem o Colheita Feliz, em resumo se trata de uma brincadeirinha do Orkut, falsamente inofensiva, onde as pessoas mantém suas fazendinhas plantando, colhendo e criando animais – e ganhando algum dinheiro com isso. Dinheiro de mentirinha, claro. Só mesmo o Silvio Santos e o Lula para darem dinheiro à toa. O visual do jogo é bonitinho, quase infantilizado; as vaquinhas, ovelhinhas, galinhas, burrinhos e porquinhos são todos “fofinhos”. As plantinhas não fazem muito sentido, pois um pé de morango tem o mesmo tamanho de um pé de manga, mas tudo bem, o que interessa é a emoção do jogo. E não exagero quando uso a palavra “emoção”, pois como eu disse, esse passatempo tão inocente é capaz de nos transformar em verdadeiros Mr. Hyde. Para começar, ganhamos dinheiro roubando nossos amigos. Ficamos à espreita em suas hortas para colher os frutos maduros e os produtos dos animais e depois vendemos as mercadorias furtadas. Mas sempre tomando cuidado para não sermos nós os roubados. Roubar pode. Ser roubado, não! Aí começa o mais fiel retrato da vida real: tornamos-nos egoístas e trapaceiros.
Depois vem a raiva por termos sido furtados, a frustração por não termos tomado a devida conta de nossas plantas e bichos. Resulta daí que passamos a ver nossos amigos como rivais e traíras em potencial. No mundo real chamamos isso de competir de forma desleal. Em seguida vem a opção de infestarmos de pragas as hortas “inimigas”. Vingança, claro. Ele vem e me rouba, se eu não posso roubá-lo, então vou prejudicá-lo. Inveja. Rancor. Sadismo.
Ainda podemos regar e limpar as plantações, usando pesticidas para matar as tiriricas e os vermes. Mas não fazemos isso porque somos bonzinhos, mas sim porque também rende algum trocado. Ou seja: não existe nenhuma boa ação desinteressada.
Quando eu entrei nesse jogo, eu imaginava que isso era coisa de criancinha. Mas a Colheita Feliz é a mais cínica tradução da máxima que diz que “o homem é o lobo do homem”. Dramas à parte, quem joga, comece a reparar nisso: você já teve inveja da plantação de algum amigo, cheia de pêssegos, limões, uvas, kiwis, pitayas e flores que você nunca conseguiu? Enquanto ele planta coisas caras e exóticas você ainda está no estágio daqueles reles nabos e cenourinhas. Você já se pegou cobiçando o curral alheio cheio de animaizinhos lindinhos que produzem uma pancada de leite, ovos, lã e mel? Enquanto isso o seu terreno está tão vazio que se o jogo tivesse som, você só teria o som do silêncio. Você já se pegou meio desbundado quando viu os cenários bacanas dos outros, com paisagens diferentes e casinhas estilosas? Ao passo que você demorou uma vida em juntar grana e se mudar daquela casa sem-graça e trocar aquele jardim zoado. Ambição total. Humildade zero.
Para quem não joga a Colheita Maldita acha que isso é puro devaneio meu, mas tenho certeza que alguma idéia assim já deve ter incomodado algum “fazendeiro”. É natural, o sentimento de competitividade é inerente no ser humano. E tem sido assim cada dia na vida, seja em algo sério como brigar por uma vaga de trabalho ou em algo mais ameno como uma pelada de fim de semana e até numa bobeira como essa Colheita Feliz.
O que eu quis mostrar com esse texto é que até mesmo nas menores coisas, diante da “ameaça do outro” e da competição, nossos instintos mais primitivos afloram. Talvez um psicólogo ou um antropólogo explique bem melhor esse fenômeno de pessoas trancadas em seus mundinhos, se roubando entre si, cobiçando, querendo que o outro se dane, ainda que esse “se dane” não seja um desejo do fundo do coração. Mas é engraçado ver que até numa brincadeirinha assim, quem pratica ilegalidades é quem mais se dá bem. Semelhança total com o mundo exterior.
Semelhança maior ainda eu senti quando, dia desses, eu invadi um laranjal alheio e não senti um pingo de culpa. Invasão em laranjal sem culpa... Já vi isso em algum lugar.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ai, que saudades daquelas garoas...

AI, QUE SAUDADES DAQUELAS GAROAS
Acompanhem esses fragmentos de mensagens orkutianas, que o meu texto vem já já:

[Eu] Como é que você conseguiu tirar fotos na sala da OSESP? Me diga! Eu levei um esporrinho da segurança só porque eu tirei uma fotinho de nada e sem flash! Ou eles estão relaxando com essa regra ou você é muito do descarado (segunda opção?)
Muito lindo lá, né? Momento Comentário-Maldoso: Nem parece que estamos no Brasil (isso me lembra Lula sobre a África) (...) Eu não me perdôo por não ter ido ao Museu da Independência, MASP, Casa das Rosas... fiquei um ano morando em Sampa, mas não dava pra ver tudo :/ Deve ser porque eu não saía da Liberdade =) (...) Quando eu fui à Osesp, acredita que eu dormi durante quase toda a apresentação? Ai que vergonha! É que eu tinha tomado uma dose cavalar de Dramin. Acordei com todo mundo batendo palmas.
[Fagner] Pra você ver como que as pessoas atrevidas vão longe... ou são expulsas da sala de concerto! Tirei mesmo!!! Só falaram que não podia quando o maestro iria entrar. Nem parece que é o Brasil mesmo, mas olha a foto que eu tirei da parte de fora, do entorno da Júlio Prestes, uma menina fumando droga e com uma boneca na mão... Há tanta desgraça lá, mas é uma cidade bonita, há alguns lugares bonitos que valem a pena. Achei pitoresco que mesmo sendo poluída (não agüentava de dor de cabeça por causa disso), de ter um trânsito louco, lixo espalhado pra tudo quanto é canto, as pessoas saem para caminhar, fazer exercícios, jogar futebol, passear. É uma cidade cheia de contrastes. Estranho, né? No domingo eles saem, vão muito longe se divertir... E nós, daqui do interior, às vezes nem saímos de casa. Quanto mais pra ir em museu, galeria, sala de concerto. Ou também pra caminhar, jogar futebol... (...) A sala São Paulo foi o lugar mais chique que você cochilou e o lugar mais chique que eu escrevi um soneto (...) Da próxima vou no Museu do Futebol... Você falou de "velharias", gosto de colecionar as minhas.[Eu] Mas no do Futebol eu fui! eeee \o/ Quando você tiver a oportunidade, vá sim! É bem moderno, mas tem uma parte de fotos antigas que é linda! E no do Imigrante também. Pra quem curte "velharia" como a gente, é uma diversão só! Ai que saudades de Sampa - eu achei que eu jamais fosse dizer isso!!! (...) Tanta gente diz que SP é a terra das disparidades e tal, mas a gente só comprova isso quando está lá. Morei num pedaço do Brás - antes redutos de italianos, portugueses e espanhóis. Lá se vêem muitos predinhos que no passado devem ter sido lindos: casarios com sacadas graciosas, colunas, portas altas de madeira com fechaduras de ferro todas trabalhadas, anjinhos e outras figuras esculpidas na fachada... um cenário até romântico. Hoje isso não passa de cortiço, lixo e pichação pra todo lado. É de dar dó e raiva ao mesmo tempo. Daí, uns minutos de metrô mais adiante, você desembarca na Paulista e dá de cara com aqueles bancos chiquérrimos com cara de Wall Street - alguns instalados em casarões dos barões do café - restaurantes e cafés que dá até vergonha de entrar, tudo limpo (quando não tem obras), um ar nova-iorquino... como pode?[Fagner] Pra você ver que a terra da realização de sonhos não é o paraíso.
Tinha visto isso, voltando do Ipiranga, passamos de frente com o Mercado Municipal e ali perto havia algo assim, casinhas antigas que deveriam ser lindas no passado e que hoje não passam de um cortiço. Parece que acertamos, mesmo com esse vácuo de cultura que há y otras cositas más, em termos nascido no interior. A vida aqui aparenta ser mais digna...

Nesse instante (11/11/09, 12:30) acabo de ter uma daquelas conversas um pouco “cabeça”, um pouco “nerd”, um tanto filosófica e outro tanto saudosista, com meu amigo Fagner. E na maioria das vezes sinto que essas conversas podem render um texto – vivo falando isso para ele. Só que dessa vez não deixei passar e o que parlamos, rendeu um texto sim! É que eu já estava incomodada com essas saudades me rondando e resolvi fazer uma espécie de declaração de paixão por São Paulo. Ainda não é declaração de amor, mas um dia quem sabe...
Sempre ouvia as pessoas falando de São Paulo, de suas belezas e perigos, terra das oportunidades, onde o dinheiro corre, lugar onde as diferenças sociais saltam aos olhos, cidade violenta, enchentes, seqüestros, sujeira. Tudo aquilo que todo mundo sabe. Então como pode alguém se apaixonar por uma cidade assim? Porque em meio a tanta desgraceira, existe uma São Paulo linda, convidativa, charmosa, inteligente, engraçada, pluralista. Não posso dizer que eu tenha incorporado uma “paulistanidade”- no meio daquela gentarada toda eu era apenas mais uma criatura vinda de algum lugarzinho tentando entender aquela confusão. E ainda não entendi, mas tentei tirar o melhor que pude de lá. Minha prima Lílian que o diga – como eu cheguei lá toda medrosa. E hoje, como sinto saudades daquele lugar com seu clima “4 em 1” (as quatro estações do ano num só dia) quando eu saía do Brás cheia de calor, chegava na República com o tempo fresco, voltava com aquele ventinho frio e ia dormir com o ar gelado.
Eu que vivi a minha vida toda entrando e saindo de casa com tanta facilidade, demorei um pouco a me habituar a sair e entrar no prédio depois de ser reconhecida pelo porteiro; ou disputar alguns centímetros dentro do metrô para ir ao centro, sendo que aqui isso se faz caminhando algumas quadras respirando um ar limpo e sem correr o risco de algum pivete nos encostar um estilete, ou fazer o sinal da cruz antes de atravessar uma rua, porque lá os motoristas não têm o mesmo sossego e tolerância que os daqui. Mas ainda assim, tenho saudades. Coisas da paixão, não tento mais entender. Sampa me ganhou justamente por esses pequenos desafios diários, que servem pra nos deixar mais alertas, mais espertos.

E Sampa também nos faz pensar. Como disse o Fagner, no mesmo espaço em que temos um lugar encantador como a Estação Júlio Prestes e a belíssima Sala São Paulo, vemos crianças se rendendo às drogas. Isso me lembra das vezes que fui ao elegante Teatro Abril e ao pitoresco Largo do Arouche, onde, ainda que veladamente, jovens se vendem em portas de casas noturnas. Ou na Praça da República, onde durante o dia artistas exibem e comercializam suas telas, esculturas e artesanatos, mas durante a noite, os mendigos “reinam”. Vi famílias desabrigadas montando barracas sob as pilastras do metrô, soube de um sujeito que se matou ao se atirar de lá e seu corpo ficou ali, estendido, esperando horas até que as autoridades competentes viessem levá-lo (e acabar com o espetáculo gratuito dos passantes), e logo ao lado as crianças de uma escolinha ficavam espiando a cena. Me habituei a ouvir sirenes da polícia e do Resgate – em Garça isso ainda gera curiosidade, mas lá isso é só mais um barulho. Aprendi a dizer NÃO às crianças mendicantes, às mães pedintes, às pesquisas de rua, aos distribuidores de panfletos e até aos perdidos em busca de informação. São Paulo nos faz indiferentes e mais duros, ainda que lutemos contra isso, mas o medo do desconhecido grita mais alto. Lá o medo e a vontade de ousar sempre andam juntos.
E aquele sentimento de contemplação sempre nos cutuca quando olhamos os prédios ora modernos, ora antigos; as praças ou lindas ou abandonadas, pensando “quem será que foi esse fulano homenageado com esse busto tão mal cuidado?”; os casarões preservados da Avenida Paulista e Higienópolis, a Catedral da Sé, a Estação da Luz (onde minha prima e eu fomos confundidas com gringas) e o maravilhoso Museu da Língua Portuguesa, os charmosíssimos cafés ao redor da Bolsa de Valores, o Pátio do Colégio, o Largo São Bento, o Mercado Municipal com suas cores, cheiros e sabores; o adorável Museu do Imigrante na Mooca, o apaixonante Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu, os milhares de programas culturais gratuitos, os diferentes estilos arquitetônicos, as livrarias, os sebos, os grafites, os monumentos, as luzes. E é claro, o meu xodó: o bairro da Liberdade. Apesar de eu não ter nenhum pingo de sangue oriental nas minhas veias, lá eu me sinto em casa. Como diz minha mãe: isso deve ser coisa de vidas passadas.
Tantas belezas, tantos contrastes, tantas experiências, aprendizados, impressões, medos, alegrias, expectativas, surpresas boas e ruins. Sampa é uma mistura de tudo e, no entanto, como bem lembrou o Fagner, somos afortunados por termos nascido em Garça onde tudo é tão comum, tão igual, tão uniforme, tão parado, mas não há no mundo o que pague tanto sossego. Viver lá é para quem tem o sangue frio, que se anestesia diante de tantos “tudos”. Viver aqui é para quem tem sangue quente, que consegue fazer de Garça a sua própria terra de realização de sonhos. Sou garcense por amor, mas aspirante a paulistana por paixão.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Baleiros, recreios e outras saudades

BALEIROS, RECREIOS
E OUTRAS SAUDADES

Dessa vez o texto teve origem numa “polêmica” saudosista debatida entre meu namorado e eu acerca de algumas guloseimas oitentistas – claro. Qual era melhor: o Azedinho Doce ou os Minichicletes Adams? Ele defendia os chicletes compridinhos, fininhos e achatados que, como o nome já diz, eram azedos e me desgostavam. Eu tomei o partido dos Minichicletes que eram mais bonitinhos justamente por serem miniaturizados. Mas aí me lembrei do meu “campeão de vendas”, o Ploc Monsters, aquele chiclete duro pra caramba, que não fazia bola e que grudava em tudo, mas que vinha com figurinhas de monstros com nome de gente. Esse sim era o mais legal porque tinha aquele “desafio” de completar o álbum logo e achar algum monstro xará de algum amigo. Guardo até hoje o álbum – incompleto, para a minha frustração – assim como os do chocolate Surpresa. Minha mãe sempre me dava um Surpresa, aquele do tigre no papel, e eu ficava louca tentando fechar a coleção de cartões de vários animais.
Outra coleção impossível de se terminar era do Ping Pong Pantanal. Tenho certeza que muitos se lembram da mania que era aquilo e de toda molecadinha batendo bafo na hora do recreio. A maior raridade de todas era uma ave chamada “noivinha”, quase ninguém tinha e quem tinha tentava vender para os mais bobinhos. E falando em recreios, isso parece uma frase dita pelo Chaves, mas uma das maiores lembranças que eu guardo da minha infância na escola são os intervalos no Hilmar Machado, justamente por causa das merendas e outros acepipes. Tinha dia que não dava para resistir e eu entrava na fila do refeitório atrás das sopas de feijão, das canjicas, dos sagus e das macarronadas – que eram servidos aqueles pratinhos de plástico azul.
Ou então comprava tranqueirinhas na cantina da Elza: aqueles pirulitos de caramelo em forma de chupeta, que demoravam hoooras para acabar; chup-chup de doce-de-leite e pipoca doce. Super nutritivo. Então, para dar um reforço no lanche, minha mãe embrulhava uns pãezinhos Seven Boys com geléia pra eu levar. Aliás, esses agrados gastronômicos nunca faltaram: geléia de Mocotó Colombo, o saudoso BrownCow, aqueles suquinhos sem nome que vinham em embalagens no formato de revólver, cacho de uva, carrinho etc, e Danfrut, aquele iogurte que vinha com pedaços de frutas no fundo. Fora meu pai que era intimado a me comprar algodão-doce toda vez que íamos ver a banda no coreto nas noites de domingo. Mas tinha que ser do branco! O rosa ele dizia que tinha muita tinta.
Eu e meus primos também consumíamos muitas outras bobagens deliciosas no bar do seu Nelson, ali bem no centro. Ainda lembro perfeitamente daquele baleiro que girava – e chiava – em cima do balcão, das tirinhas de balas Klep´s, do refrigerador cheio de Brahma Guaraná e Malt 90 e das vitrines lotadas de doces, especialmente de suspiros e marias-moles que vinham com uns brinquedinhos bem mixurucas. Certa vez pedi uma que trazia um relógio de plástico bem vagabundo e sem ponteiros do Coisa (do Quarteto Fantástico), era simplesmente horroroso, mas eu o coloquei no pulso e o exibia como se estivesse usando um legítimo Cartier.
Mas a gente se contentava com pouco e com coisas simples como fazer limonada e comer uma panelada de pipoca salpicada com Aji-no-Moto (na época, a maior novidade em termos de tempero), na calçada, como minhas primas e eu fazíamos de tarde nos fins de semana, ou fazer favores para o meu primo Fernando em troca de Suflair, assaltar o baleiro da minha vó, que vivia lotado de balas Soft (que parecia ser feita de vidro), toffee (que grudavam no papel e no dente) e as clássicas Jane e Chita, de menta e abacaxi, da Ogawa. As mesmas que ganhávamos dos Papais Noéis de porta de loja quando o comércio abria a noite na época do Natal. Mas seria uma injustiça não citar aqui as balas Banda, 7 Belo, Juquinha e Xaxá – a do gatinho. Tinha também a Mentex, que minha mãe sempre tinha na bolsa e eu pensava que era remédio.

Do popular para o “chique”, quando eu era criança, a coisa mais espetacular do mundo, quando o assunto era porcarias mastigáveis, eram os chicletes importados dos Estados Unidos e do Japão. Cada vez que algum parente de algum amigo trazia isso de fora era a maior novidade e a gente ficava todo feliz quando ganhava um mísero chicletinho de lembrança, só porque era importado! Dava status! Tínhamos até dó de mascar e guardávamos as embalagens no meio do caderno como troféus. Até hoje tenho os papéis daqueles chicletes americanos que pareciam band-aids e que vinham numa latinha e aqueles japas que vinham numa caixinha quadradinha com estampas de frutas. Hoje isso tem em todo lugar, mas naquele tempo quem levava chicletes gringos na escola, a gente falava que era riquinho. Depois apareceram aqueles do Paraguai que estouravam na boca, mas o glamour já não era mais o mesmo. Mas doces de riquinho eram mesmos as balas de leite e as Línguas de Gato da Kopenhagen. Para nós do interior, isso era coisa de outro mundo! Artigo de luxo! Atualmente isso ainda não me foge muito à regra – só ganho no meu aniversário ou no Natal.
Por outro lado tínhamos os “carne-de-vaca”: uma vez na 4ª série inventamos de fazer um amigo-secreto só de chocolates. A maioria – sem exagero! – deu e ganhou a mesma clássica caixa amarela de bombons Garoto. Que falta de imaginação. E o pior é que aquela caixa sempre tinha aqueles bombons ruinzinhos de figo e ameixa que ninguém queria e ficava empurrando para os outros. Os outros mesmos-de-sempre que não podiam faltar eram os docinhos da Dizioli que o Fofão anunciava no programa dele – como o irrecusável Dadinho, os pirulitos de caramelo do Zorro (básicos em todo aniversário), os guarda-chuvinhas da Evelyn, os cigarrinhos e as moedinhas de chocolate da Pan e as maiores vítimas de lendas urbanas sobre envenenamento: o Dipn´Lik (o dos pozinhos coloridos) e as balas Van Melle, que deixavam as mães apavoradas, pois diziam que vinham com drogas injetadas no meio.

Ainda sobre anúncios, quem é que não se lembra da memorável propaganda do Cornetto? A molecadinha cantava tentando fazer voz de tenor: “Da-me um Cornetto/muito crocante/ é più cremoso/ é da Gelato/ Cornetto sei própria Italia/ Io voglio tanto/ Corneeeto mio!”. Ainda tinham os Trapalhões fazendo merchandising do Taffman-E (a bebida do Rei Pelé), o picolé Frutilly que vinha com algum brinde impresso no palito, o Danoninho que valia por um bifinho, a bala de leite Kids – “a melhor bala que há”, o Super Nescau “energia que dá gosto”...
Acho que nem preciso mencionar como sinto falta daqueles tempos em que não havia a gulodice que há hoje, não contávamos as calorias das coisas, nossos pais sabiam a hora certa de dosar essas tranqueirinhas pra gente, quase não se ouvia falar em criança diabética ou obesa, a gente ficava contente com qualquer balinha. Era uma época em que não se usava embalagens PET. Quem queria ter refrigerante na mesa no almoço de domingo, tinha que trocar os cascos no bar ou no mercado. E não havia frasco maior que o litro “tamanho-família”, que realmente satisfazia a família! – algo inconcebível hoje em dia. Acho que sou quadrada até nesse assunto.
Enfim, sou do tempo em que Kuat era Taí, Sprite era Fanta Limão, Milkybar era Lollo, Crunch era Kri; do tempo em que se ainda sabia o que era Yopa e Chambourcy, de quando as coisas não estavam tão à vontade e ao alcance da mão, de quando não se escancarava a geladeira sem ter fome, de quando doces eram recompensas e não mimos obrigatórios e do tempo em que quando a criança não tinha cão, caçava com gato, ou seja, quando não tinha bala, comia AAS infantil!
Creio que estou com “velhice precoce”, pois é incrível como até essas coisas me dão saudades. Saudades dos sabores dos anos 80.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CLÁSSICOS DA SESSÃO DA TARDE


Ontem minha amiga Flávia me deu um mimo que foi muito mais que um presente. Foi um “passado”. Explico. Ganhei um bottom do Karatê Kid. Há coisa mais oitentista que bottom e Karatê Kid? Na verdade há, mas bastou esse pequeno agrado para que eu logo depois me visse relembrando de vários clássicos da minha infância.

A começar pelo próprio Karatê Kid. Que Van Damme que nada! Quem a gente queria ver lutando era o Daniel-San. Eu tenho certeza que muitos meninos já tentaram fazer aquela posição que ele fazia na praia – e não conseguiam. Aliás, eu acho aquela cena muito bonita (ainda que alguns achem brega): Daniel-San treinando seus golpes, sozinho na praia ao por-do-sol – fora a música-tema Glory of Love, de Peter Cetera & Chicago. E quanto às meninas, bom, só queríamos mesmo ver o rostinho lindo do Ralph Macchio. Até hoje ele conserva aquele rosto adolescente.

Assim como Matthew Broderick, que ainda exibe aquele sorriso de eterno Ferris Bueller, de Curtindo a vida adoidado – um filme que pode passar quantas vezes for que eu dou um jeito de assistir. Acho que todo adolescente (especialmente os saudosistas) já quiseram ser um pouco Ferris: acordar um dia e surtar, driblar o diretor carrasco da escola, juntar os melhores amigos, explorar as melhores coisas da vida e da cidade, quebrar a rotina, ter um dia memorável sendo apenar feliz.

Eu também já tive vontade de morar em Astoria, a bucólica cidade onde viviam os Goonies. Apesar de ser um grupo meio estereotipado, eles eram, e são até hoje, a melhor turma dos filmes. Quem nunca teve um amigo sensível, tímido e introspectivo como o Mikey, um patife como o Bocão ou o gordinho engraçado como o Bolão ou o japinha CDF como o Dado? Cada vez que escuto Goonies are good enough (da Cindy Lauper) me dá um desejo doido de fazer parte daquele grupo, sair caçando tesouros, decifrando charadas, achar um navio pirata e até fugir de mafiosos italianos super burros.

Ou então viver aventuras mais ousadas como Marty McFly que ia e vinha do futuro dentro do DeLorean, do Doc Brown. Dizem que originalmente a máquina do tempo do De volta para o futuro seria uma geladeira, mas mudaram de idéia com medo de influenciar as crianças a se fecharem nelas depois.

Bom, mas se as crianças não imitaram Marty entrando numa geladeira, certamente imitaram o Superman ao tentar voar. Pelo menos um primo meu fez isso de cima de uma antena. E não tem nada desses Clarks moderninhos não! O único Clark Kent que eu reconheço (e que muitos dizem que é um canastrão) sempre será o Christopher Reeves. Esse vai ser eternamente o melhor e mais bonito Superman.

Aliás, naquela época, as meninas ficavam naquela deliciosa dúvida platônica: quem vou namorar: Ferris, Marty McFly, Clark Kent ou Daniel-San? Podem caçoar, mas esses eram os bonitões do nosso tempo, e para mim, de todos os tempos. Os bonitões do cinema de hoje são todos iguais, não têm um pingo de graça, são fabricados para serem perfeitos e ultrapassam os limites da superficialidade. Ao contrário de um outro galã cheio de “poréns”, mas que até hoje me encanta: professor de História, Henry Jones. Ou melhor, Indiana Jones, o caçador de relíquias que enche a cara, briga com o pai, é mulherengo, tem pavor de ratos e leva muitas surras até que tudo acabe bem.

E falando em Harrison Ford, até hoje nunca consegui assistir a toda a saga de Star Wars – os geeks que me perdoem (porém tenho guardada uma recordação que, creio, poucos nerds têm: aquela famosa máscara do Darth Vader que vinha nas embalagens de Nescau!). E somente esses dias é que consegui assistir a Blade Runner. Ainda bem que foi só agora, pois se eu tivesse visto isso quando criança, com certeza eu teria ficado perturbada com aqueles replicantes e com aquela trilha sonora. Por outro lado, eu me perturbei com o Brinquedo Assassino (passei a acreditar nas lendas urbanas de bonecos amaldiçoados), a Mosca, Freddy Krueger e até os Gremlins!

Nada de filmes-cabeça! O que a gente queria era dar risada com lixinhos como Corra que a Polícia vem aí, Loucademia de Polícia ou Um tira da pesada – é impressão minha ou americanos gostam de zoar a polícia? Também queríamos ver namoricos adolescentes dando certo depois de muitos desencontros como em Namorada de aluguel, A garota de rosa schoking (com o lindinho Andrew McCarty), Gatinhas e gatões, Tuff Turf, Alguém muito especial ou O Clube dos Cinco. A gente também viu que seres de outros mundos não precisam ser necessariamente aterrorizantes: alguns eram ridículos como em Os Caça-Fantasmas e outros eram fascinantes como em História sem Fim.

Há ainda os filmes que nos faziam ter vontade de – assim que eles acabassem – colocarmos nossos collants e polainas e procurarmos uma academia de dança, como Dirty Dancing e Flashdance.

E antes que me perguntem dos filmes nacionais, eu já digo – sem culpa – que eu não assisti a muitos, pois quando eu era criança tinha na cabeça de que filme brasileiro era só sem-vergonhice, então me limitava a ver somente aqueles duzentos-e-não-sei-quantos filmes dos Trapalhões – ou “Os Tapaiões”, como minha tia conta que eu falava quando parávamos para ver os cartazes no hall do Cine São Miguel.

Que saudades dessas pequenas coisas: ver os cartazes no cinema (aquilo sim era um senhor cinema), ver a Sessão da Tarde esperando pelo café na casa da vó, achar que sabia dançar (I´ve had) the time of my life, morrer de dó do Ritchie Valens (de Lou Diamond Phillips, em La Bamba), temer um amanhã amedrontador como o de O vingador do Futuro, rir com a vigarista Oda Mae Brown, de Whoppi Goldberg em Ghost; querer viver num mundo de desenhos igual ao de Uma cilada para Roger Rabbit, aprender com tudo isso o que há de mais clichê: que no final tudo dá certo.

Como eu disse, não se tratam de filmes intelectualóides ou com mensagens altamente filosóficas. Na verdade são produtos descaradamente comerciais feitos para vender tudo quanto é tipo de tranqueira, mas que estão guardados com o maior carinho nos corações de uma geração – a geração Coca-Cola – e que mexem com nossas lembranças e que chamam de volta os nossos pirralhos interiores.

E do jeito que sou viciada em oitentismo, meu lado balzaquiana é sempre sufocado pela minha pirralhice que vive fazendo hora-extra. E viva Ferris Bueller!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

60 PÉROLAS DE UM CERTO MOLUSCO
parte 1

Todas as vezes que eu invento de publicar alguma coisa a respeito do nosso mais ilustre cefalópode, eu ouço tanto elogios quanto reclamações. Os elogios, é claro, são um estímulo para que eu continue a escrever – não somente sobre essa criatura, afinal, tenho mais em que pensar – mas as reclamações me deixam pensativa. Será que mesmo depois de tantas vergonhas alheias e de tanta varreção de sujeira pra debaixo do tapete, há ainda quem o defenda? Cada vez que eu pergunto isso a essa gente, eles sempre me dão as mesmas respostas evasivas de que ele veio do nada e hoje é o que é, de que ele não estudou, que de é gente simples e outras balelas. Vir do nada e se tornar alguém, isso muita gente fez – temos “N” exemplos, desde Machado de Assis (um dos meus exemplos favoritos) até o senhorzinho dono das Casas Bahia. Até aí, sem novidades.
Ele não ter estudado e estar ocupando o cargo mais importante da nação, apesar de soar muito bonito na teoria, na prática nos causa alguns constrangimentos, uns pequenos e até pitorescos, outros grandes que nos fazem ter vontade de mudar de país. A meu ver, não há nada que justifique a defesa de alguém que faz a ignorância parecer algo bonito e até engraçado. Isso sem falar no machismo, na falta de finesse, discrição, sensibilidade e setocol. Foi pensando nisso que reuni 60, das inúmeras baboseiras que esse presidente – que não é meu – tem proferido ao longo desses últimos anos. Se nada pode ser feito para que as coisas mudem, então que pelo menos aprendamos a rir dessa desgraceira toda. Não é esse o espírito de bobo-alegre que o brasileiro adora ostentar?
Aos que, como eu, não o vêem como autoridade de coisa alguma, vamos lamentar ou rir – ainda não sei. Aos que ainda o idolatram: varram isso pra debaixo de seus capachos.

[1] Estou vendo aqui companheiros portadores de deficiência física. Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, mas ele não pode me olhar porque ele é cego. Estou aqui à tua esquerda, viu Arnaldo? Agora você está olhando pra mim” (27/06/03)
[2] “Não adianta ter um bando de generais e soldados” (no Clube do Exército Brasileiro – 15/12/03)
[3] “Há males que vêm para o bem” (agradecendo o presidente da Rússia pelo apoio às investigações do acidente de Alcântara)
[4] “Tem lei que pega, tem lei que não pega. Essa do Primeiro Emprego não pegou”
[5] “Por que em vez de perguntar, você não enche a boca de castanha” (a uma repórter, sobre a saída de Henrique Meirelles do BC – 05/02/04)
[6] “Se fosse fácil resolver o problema da fome, não teríamos fome” (Expo Fome Zero – 10/02/04)
[7] “Será o maior programa social já visto na face da Terra” (Pará – 26/02/04)
[8] Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta” (08/03/04)
[9] “Estou com uma dor no pé, mas não posso nem mancar pra imprensa não dizer que estou mancando porque estou num encontro com os companheiros portadores de deficiência” (encontro de atletas paraolímpicos – dez/03)
[10] “Um brinde à felicidade do presidente Al Assad” (o presidente sírio não brindou porque muçulmanos não ingerem álcool)
[11] “Quando Napoleão foi à China” (01/05/04)
[12] “... a galega (primeira-dama) engravidou logo no primeiro dia, porque pernambucano não deixa por menos” (Pelotas – 17/06/03)
[13] “Estou surpreso porque quem chega a Windhoek não parece que está num país africano” (na capital da Namíbia – 08/11/03)
[14] “Constatei apenas o óbvio” (comentando o mal estar causado pelo seu comentário sobre Windhoek ser tão limpa e bonita que nem parece africana)
[15] “Um país que constrói um monumento daquela magnitude em tudo para ser mais desenvolvido do que é atualmente” (referindo-se ao Taj Mahal, na Índia – 29/01/04)
[16] “Em qualquer lugar do mundo que eu vou, eu tenho que levar flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem” (durante a campanha O Melhor do Brasil é o brasileiro – 19/07/04)
[17] “O governo tenta fazer o simples, porque o difícil é difícil” (17/06/04)
[18] “O Atlântico é apenas um rio caudaloso, de praias de areias brancas que une os dois países” (sobre a “proximidade” entre Brasil e Gabão – 27/07/04)
[19] “Vocês fazem parte de uma minoria de 8 milhões que pagam imposto de renda. São privilegiados os que ganham para pagar o IR” (sob vaias, aos metalúrgicos do ABC que pediam correção de tabela do IR – 26/04/04)
[20] “Cumprimento o presidente da Mercedes-Benz (...) Pois quero dizer na frente do presidente da Mercedes-Benz...” (Palácio do Planalto, em 06/02/04, ao presidente mundial da General Motors)
[21] “Conheço o Panamá só de dormir. Até recentemente quando eu ia a Cuba, tinha que dormir uma noite lá” (16/05/03 – ao embaixador do Panamá)
[22] “Na Amazônia vivem 20 milhões de cidadãos que têm mulheres e filhos. Mulheres e filhos são apêndices do cidadão” (01/05/04)
[23] “O continente sul-americano e o continente árabe (?) não podem mais, no século XXI, ficarem à espera de serem descobertos” (na Síria – 04/04/04)
[24] “O Brasil só não faz fronteira com o Chile, Equador e Bolívia” (em Nova Iorque, 23/06/04. A saber: temos 3 mil quilômetros de fronteira com a Bolívia)
[25] “Não pensem que você fizeram pouca coisa na história da humanidade, não. Possivelmente o cidadão que votou em mim não tem consciência do gesto dele num país importante como o Brasil” (em Osasco – 03/09/04)
[26] “Todo brasileiro tem motivos para ser otimista. As perspectivas só são ruins para os desempregados” (Brasília – 02/06/04)
[27] “Só um doido aceita um segundo mandato se as condições estão desfavoráveis” (discursando num encontro de educadores)
[28] “Política é olho no olho” (Nigéria – 2005 – defendendo suas constantes viagens internacionais)
[29] “Espero que vocês não sejam desaforadas e não comecem a pensar na Presidência da República” (Rio Grande do Norte, 08/03/2005, “elogiando” as conquistas das mulheres)
[30] “Tinha muita gente que estava desempregada e eu agora faz um biquinho. É assim que nosso querido Brasil vai se desenvolver” (2005 – sobre a oscilação do emprego)

(continua – porque bobagem pouca é bobagem)
60 PÉROLAS DE UM CERTO MOLUSCO
parte 2

Das parvoíces ditas recentemente pelo presidente – que repito, não é o meu – acho que todos lembram. Bom mesmo é poder recordar daquelas que nos constrangeram há alguns anos ou meses, notar como além de tudo, ele é incoerente e contraditório. Gostaria que algum advogado de defesa dessa pessoa me dissesse se é ou não no mínimo estranho e vexatório que o mesmo homem que um dia caiu matando em cima do Collor, hoje fique cheio de abracinhos com ele. Ou se pode ter caráter uma pessoa que já pichou o Sarney, e hoje, o coloca no colo e joga a culpa de todo esse circo na imprensa. Ou então que desculpa existe para alguém que defende a honra de Orestes Quércia – um sujeito que não fez cerimônia em afirmar que quebrou o Banespa? Isso sem falar em seus cupinchas José Dirceu, Palocci, Genoíno.
Mas eu sei que escrever, falar e relembrar tudo isso não adianta nada. Uma vez ouvi de alguém: “por que é que você não manda os seus textos lá pro Lula?”. Vontade não falta a nenhum cronista ou jornalista que meta o dedo nessa ferida, mas todos sabemos que nenhum tomate podre vai chegar até ele. Além de todas as razões práticas, há a mais lógica e conhecida: ele não lê! Ainda se fosse um texto sobre o Corínthians, ele até lesse, no máximo a manchete e o título. Depois disso ele cairia no sono.
Como bem comparou o jornalista Gaudêncio Torquato, Lula é um Zeus. Nada o atinge. Nada o derruba. Só mesmo ele próprio pode acabar consigo. Por enquanto estamos somente de mãos atadas. Mas do jeito que ele anda todo implicante com a imprensa e flerta com o jeito Fidel de governar, pode ser que ainda fiquemos de boca fechada. Enquanto isso não acontece, degustemos um pouco mais esses petiscos de sabedoria.

[31] “Nós sofremos muito em 2003 porque pegamos a Casa depois de um vendaval como aquele que deu na Ásia” (gafe em 2005, confundindo vendaval com maremoto)
[32] “Eu não quero que você seja mais otimista do que eu. Se for igual e mim já está ótimo” (2005 – Programa Café com o Presidente)
que era a relação de respeito criado em torno da minha mãe. Temos que fazer isso para que nossas noites fiquem mais gostosas” (2005 – Campanha de Auto-Estima, do Governo Federal)
[34] “É difícil arrumar um emprego sem dente” (2004, em inauguração de um centro odontológico em São Paulo)
[35] “Essa gente tem café no bule” (2004 – sobre o crime organizado)
[36] “Ontem eu estava assistindo ao filme do Cazuza e pensando: não é apenas a questão financeira que leva o jovem a fazer isso ou aquilo. Acho que as coisas estão mais ligadas à família, ao meio ambiente em que a pessoa vive” (2004)
[37] “A gente não reage contra isso com precipitação nem com o fígado” (2004 – expulsando do país o correspondente do New York Times que publicou que o presidente bebe demais)
[38] “Nós, que somos do sul do país, temos que aprender que não dá pra ficar dizendo que a Amazônia tem de ser um santuário (...) Aqui moram quase 20 milhões de seres humanos que têm o direito de viver dignamente como qualquer outro ser humano” (2004 – anunciando a construção de um gasoduto de 240km que cortará a selva amazônica)
[39] “Se não dá pra fazer dez coisas de uma vez, vamos fazer uma. Porque, se a cada ano a gente fizer uma, no final de quatro anos você terá quatro coisas feitas” (Goiás – 2004)
[40] “O Serra não será candidato porque sabe que perde” (2004 – Eleições a Prefeitura de São Paulo)
[41] “A verdade nua e crua é que ninguém gosta de viver de favores” (2003 – sobre seus programas assistencialistas)
[42] “Quem especular contra o Palocci, vai perder” (2003)
[43] “Já devo ter tirado umas 200 fotos com chapéu do MST na cabeça: vou continuar pondo” (Portugal – 2003)
[44] “Este episódio reforça a decisão do governo em dar combate à violência” (2003 – após saber que o segurança do seu filho foi morto)
[45] “Espero vê-lo e, breve, no jantar com os embaixadores da União Européia” (2003 – para o embaixador da Noruega – país que não faz parte da U.E)
[46] “Vem cá, me dê um abraço, você derrotou o Collor” (2002, para Ronaldo Lessa, que venceu as eleições de Alagoas)
[47] “Vou trabalhar 24 horas todos os dias enquanto houver gente passando hambre” (2002 – esbanjando seu espanhol, na Argentina)
[48] “O PMDB só não participará do governo se não quiser” (2002)
[49] “A lua está linda, olha só. Eu dedico essa lua a todos os homens e mulheres apaixonados do Tocantins e do Brasil” (Palmas – 2002)
[50] “Para resolver o problema da universidade, preciso eleger uma pessoa sem diploma” (2002 – discurso a reitores de Universidades públicas)
[51] “A elite que tem preconceito contra nós hoje, fez isso com Jesus Cristo” (eleições 2002)
[52] “Esse negócio de experiência sabe o que me lembra? Me lembra o Mandela. Sabe qual era a experiência do Mandela? 27 anos de cadeia” (2002)
[53] “Não houve acusação concretizada contra Quércia” (2002)
[54] “Gostaria que a Bíblia fosse obrigatória em todas as escolas públicas” (2002, para uma platéia de evangélicos)
[55] “Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico”
[56] “O Holocausto foi um período obsceno na História da nossa nação. Quero dizer, na História deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século”
[57] “O ser humano vê a vida com os olhos de onde pisa” (08/06/08)
[58] “Lá a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha que não dá nem pra esquiar” (04/10/08)
[59] “Você (como médico) diria ao paciente: meu, si fu” (04/12/08 – discurso para artistas no Rio de Janeiro)
[60] “A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis” (27/03/09)

Essas são apenas pequenas amostras de como uma urna pode ser confundida com uma latrina.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

UMA CASA.
UM TEMPLO.
UMA ESCOLA.

“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”
(Immanuel Kant)

Já tem tempo que eu fico ensaiando escrever esse texto, mas sempre ficava adiando porque buscava as palavras perfeitas para definir aquilo que faz parte da minha história e que até hoje povoa meus pensamentos. Porém, por receio de parecer piegas, tais palavras nunca saíram do campo das idéias. Só que eu estava começando a me sentir devedora – e de algo tão simples. E ainda que tudo pareça muito brega, eu sinto que DEVO fazê-lo.
Aproveitando que nesse ano a escola Monsenhor Antônio Magliano completa 50 anos, achei que seria no mínimo decente que eu fizesse, não uma homenagem, mas um agradecimento a todos os profissionais que por lá passaram e que marcaram os “anos incríveis” de vários jovens. Jovens pivetes que se sentiam tão amadurecidos por estudarem entre os grandões do colegial. Entre 1991 e 1993 éramos as duas únicas classes de primeiro grau na escola; pirralhos de 11, 12, 13 anos circulando entre os “adultos” de 16, 17, 18. E queríamos ser tratados como iguais, mas éramos esnobados pelo pessoal do colegial (e eu não os culpo). Por outro lado éramos mimados pela escola, tínhamos aulas que os grandões não tinham como datilografia, eletricidade (não era eletrônica não, era eletricidade mesmo), mecânica (para os meninos) e corte e costura (para as meninas). Às vezes eu me sentia num daqueles filmes americanos que mostram aquelas escolas cheias de atividades extra-curriculares.
Eu nunca me dava muito bem em corte e costura, assim como em educação física – minhas maiores diferenças na época, mas havia algumas compensações, como os trabalhos de educação artística do professor Nicola e os jograis e teatrinhos das aulas de Português da D. Vera (minha mãe, aliás); além da hora da merenda, quando todo mundo entrava bonitinho na fila para pegar o seu pãozinho com manteiga e seu leitinho com groselha.
Ainda lembrando o estilo “escola americana”, uma vez inventaram de fazer uma espécie de “show de talentos” conosco, pondo a 5ªA competindo com a 5ªB. Na época o sertanejo estava muito na moda, então a maioria competiu cantando “bálsamos” como Pense em mim e É o amor. Havia outra coisa de gosto muito duvidoso que também estava em alta: o noticiário bizarro Aqui e Agora. Então me fizeram imitar o Gil Gomes. Até hoje eu não sei onde eu arrumei tanta cara-de-pau para fazer aquilo. Mas com aquela idade, timidez era o de menos. Ao longo desses anos encenamos Os Músicos de Bremen, História de uma gata, o quadro da velha surda da Praça é Nossa, Não se vá (de Jane e Herondi), Soy loco por ti America e o Charleston, sem um pingo de constrangimento. Tudo o que fazíamos naquela escola era sinônimo de diversão. Até nas mais sisudas aulas de matemática da professora Vandermara, víamos graça.
Ainda tinha a clássica rivalidade entre as turmas – e eu tinha que agüentar as provocaçõezinhas por ser a filhinha da professora – os meninos encapetados que atormentavam as meninas, os livrinhos de literatura (A pata da gazela era “A pata da Sganzela” para os engraçadinhos), os incontáveis mapas de Geografia da professora Lula – que todo começo de ano pedia pra gente levar o saudoso estêncil Pelicano para mimeografar os exercícios – e as aulas de História da professora Cleuza. Aliás, para que decorássemos os nomes de todos os nossos presidentes cronologicamente, cada aluno, ao responder a chamada, dizia um, desde o Marechal Deodoro. Eu, como sendo a última da lista, era o Fernando Collor de Mello. Escutei vaias o ano inteiro por conta disso.
E não podia me esquecer das broncas do Clóvis, mandando a gente parar de correr e entrar logo na classe. Quando retornei ao Monsenhor, em 1995, o Clóvis continuava dando seus pitos, só que agora era para regular o vestuário dos adolescentes: “bermuda só com um palmo acima do joelho!”, ou “vai pra sua casa trocar de roupa!”, quando via alguém de regata. Os bons costumes ainda tentavam prevalecer naquela década.
Quando chegou a nossa vez de sermos do colegial, o ensino era técnico e eu tenho que confessar que nunca fui muito chegada em informática, programação e afins. Só quis prestar o vestibulinho e voltar ao Magliano por paixão àquele lugar. Eu não conseguia me ver em outra escola senão naquela onde eu tinha passado anos tão alegres. Foi no “Cei” que conheci o Rafael Pioto – meu melhor amigo até hoje e sempre – foi nessa época que eu parei de fugir da educação física e aprendi a jogar futebol com os meninos (para quem duvida, há fotos que provam isso!), foi lá que escrevi minhas primeiras redações para participar de concursos literários; foi no Monsenhor que conheci o Shiro – o japonês mais pirado do mundo, que me passava muitas colas de Física (isso não é bonito) e que, ao ir embora para o Japão, me deixou toda a sua coleção de CDs do Michael Jackson.
Foi durante a Expotec de 1996 que uma aluna anunciou no microfone a morte do Renato Russo. Nem preciso mencionar que fiquei chateadíssima. Aliás, a Expotec era uma das coisas mais aguardadas pela gente. Apesar de toda a correria de ter que aprontar os trabalhos, tomar conta das classes com exposições, ciceronear as turmas infantis que nos visitavam de manhã e de tarde, jogar, nos apresentar no coral, dançar e até interpretar (!), quando tudo terminava, ficava aquela sensação de “como passou depressa”. Naqueles tempos parecia que estudar era algo tão legal (e de fato é) que fazíamos isso nos divertindo.
Antes do professor entrar na classe, na segunda-feira, minha prima Verenna, eu e a Fer (a Shaquille O´Neal) e outras meninas, tínhamos que nos juntar para tecer comentários sobre como tinha sido o fim de semana: o berimbau do Grêmio no sábado e a sorveteria depois da missa no domingo. Por vezes aquela escola tinha ares de clube – aparecia gente quem nem era aluno, ia atrás dos amigos e acabava ficando, só pelo prazer de estar lá. Fazíamos qualquer negócio para permanecermos ali o maior tempo possível: éramos parte do coral da professora (de Inglês) Eliana – não me sai da memória uma das músicas mais executadas pela gente, o “I Just call to say I Love you” – e entre uma aula e outra da professora Clery, dividíamos o espaço das quadras – quem jogava vôlei atrapalhava quem jogava basquete que por sua vez atrapalhava quem jogava futebol, mas ninguém ligava pra isso.
Sinto saudades das aulas de informática, principalmente da parte em que, quando o professor não estava de olho, o Rafa, o Shiro e eu desenhávamos coisas engraçadas no Paint; do jeito tranqüilo do professor Koshi, dos ensaios com a Eliana, das provas de Literatura da professora Vera (já citei que ela é minha mãe?), da paciência de Jó do professor Jackson, da biblioteca, da sala de vídeo – onde assistimos O Guarani, Vidas Secas, Inocência, O primo Basílio, A Moreninha. Sinto saudades das quadras, de como era tragicômico ver que o Rafa e aquele japa aloprado eram presenças constantes na sala da (minha tia) diretora Mariza; das Expotecs, de comprar paçoca na hora do intervalo, das risadas, das amizades, de sair para comer pastel na rua de cima, de cada pedaço daquele lugar...
Pode soar meio estranho, mas agora, nas raras vezes que entro no Cei, parece que vejo os nossos “fantasmas adolescentes” perambulando por lá, rindo, subindo e descendo as escadas, falando de alguma paquera, fazendo hora na cantina, comentando como tal prova tinha sido difícil ou levando outra chamada do Clóvis. Falar do Monsenhor Antônio Magliano, pra mim, é ao mesmo tempo fácil e complicado, pois me vem uma mistura de felicidade com melancolia, saudade boa e a certeza de que nada daquilo jamais se repetirá. Porém, o principal e o que me faz ser hoje o que sou, eu adquiri entre aquelas paredes, naquelas carteiras, naqueles laboratórios, naqueles corredores, naquela deliciosa década de 90 e são coisas que ninguém pode me roubar: sabedoria, experiências, educação, conhecimento e grandes amizades.
Por isso, Monsenhor Antônio Magliano me é também sinônimo de gratidão. E não tenho vergonha de dizer que amo aquela escola. Ela é uma prova concreta de que Educação não se faz só com intelecto, mas também com o coração.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

UM SUJEITO QUE NÃO LÊ ATRAPALHANDO A VIDA DE QUEM ESCREVE
“Aquele a quem a palavra não educar, também o pau não educará”
(Sócrates)
Definitivamente esse governo não me surpreende mais. E não é de hoje que eu espero sempre o pior do presidente. A idéia que saiu dessa vez daquele cabeção foi a de criar um novo imposto, mas agora sobre os livros. Através do Ministério da Cultura, planeja-se instituir o que eles batizaram de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) – uma alíquota cobrada sobre o faturamento das editoras, que pode tingir até 2,1%. É um plano infeliz que afetará não somente as próprias editoras, mas também as livrarias e os autores. Aliás, eu tenho a leve impressão de que autor de livro nesse país não é levado muito a sério. Livros e escritores são considerados “coisas menores” no Brasil, e agora, para ajudar, o presidente, rei dos indolentes, tem a intenção de encarecer ainda mais os livros.
As livrarias de pequeno e médio porte, que já sofrem com a concorrência das mega stores e das vendas pela internet, sofrerão ainda mais com essa carga, já que qualquer aumento no preço dos livros significa o sumiço dos consumidores. A justificativa fantasiosa é a de que, ao criar essa taxa, o governo almeja estimular a leitura no país, além de democratizar o acesso aos livros e provocar o desenvolvimento do mercado editorial. Como assim? Não é possível que o presidente ache de verdade que somos tão idiotas a esse ponto para acreditar em tamanha “bondade”. Não faz um pingo de sentido, afinal além do risco evidente da queda das vendas de livros, da dificuldade de publicação e do aperto pelo qual passarão as pequenas livrarias, as editoras já avisaram que provavelmente terão de suspender seus patrocínios aos fóruns de debates e projetos de espaços de leitura para crianças e jovens.
Calma que ainda tem mais: como se não bastasse essa demonstração clara de incoerência, o ignorante-mor quer criar os postos de “mediadores da leitura” – ou seja, pessoas indicadas sabe-se lá por quem, como e por que, que promoverão o hábito da leitura para o povo. Engraçado, eu sempre pensei que os professores tivessem esse papel. Nossa, com o governo é bonzinho, além de querer que leiamos mais, ele ainda nos envia pessoas que nos indicarão as melhores leituras. E quem serão essas pessoas? Que autoridade elas terão para serem transmissores de cultura? Provavelmente será um bando de chegados do presidente que precisam dar uma mamadinha no governo e que ganharão esses cargos inventados.
Eu e meus colegas de APEG sabemos exatamente a dificuldade que se tem em tentar publicar um livro, não é nada barato – por isso, às vezes, recorremos às publicações “artesanais”, em gráficas, sem selo de editora alguma. São muitos meandros, são muitos Reais. Precisávamos de estímulos de verdade e não de mais barreiras. Meus colegas e eu também somos apaixonados por livros, mas nem sempre podemos comprar nossos objetos de desejo por causa do preço – e não colocamos a culpa nas livrarias, elas também devem amargar com a debandada dos compradores à internet. Enfim, esse é o tipo de notícia que consegue acabar com o meu humor, mas como eu disse, isso não me espanta mais, sabendo-se que o intento partiu de alguém que já deixou muitas vezes bem claro que não gosta de livros e que não lê porque dá sono.
Talvez eu esteja fazendo um grande drama e profetizando o improvável ao dizer que os livros estarão, em alguma era, fadados ao esquecimento, mas antes deste “reinado” as coisas nesse sentido já não iam bem. Agora, parece que tendem a piorar.
Certa vez li um poema de Manuel Bandeira chamado Versos escritos n´água, e talvez o finalzinho até se encaixe com a questão: “... Meus pobre versos comovidos / Por isso fiquem esquecidos / Onde o mau vento os atirou”.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

120 maneiras de me irritar

120 MANEIRAS DE ME IRRITAR


O escritor norte-americano Mark Twain (um adorável rabugento) gostava de fazer listas. Guardando as devidas proporções, muito humildemente aproveito sua idéia para listar coisas que me são altamente irritantes.

[1] Gente que dá risada alta.
[2] Quem conta piada (sobretudo sem-graça e repetida) e fica explicando depois.
[3] TV com chuviscos.
[4] Rádio mal sintonizada.
[5] Locutor que não manja nécas de inglês e erra os nomes das músicas.
[6] Gente que tem mania de narrar filmes.
[7] Quando falam que rock é coisa do diabo (heavy metal então, nem se fala...)
[8] Quem inventa de acompanhar a música, mas não sabe a letra.
[9] Quem acha que poesia TEM que rimar.
[10] Os mesmos que forçam rimas desnecessárias e abusam do infinitivo, diminutivo, etc.
[11] Programa Silvio Santos.
[12] Quem caçoa quando eu conto que fui a um museu.
[13] Gente que fica cobrando satisfações: “E aí, já está trabalhando?”
[14] Gente que cutuca enquanto conversa.
[15] Motorista que não dá seta.
[16] Ciclista que anda na contra-mão e na calçada.
[17] Quem anda devagar no meio da calçada e não dá passagem.
[18] Gente que nem pergunta se pode e já vai acendendo um cigarro no meio dos outros.
[19] Forminha de gelo vazia.
[20] Caixa eletrônico travado.
[21] Os “lindos” que pensam que estão abafando com o escapamento furado da moto.
[22] Cantadas pé-de-chinelo.
[23] Mães que levam crianças birrentas ao supermercado.
[24] Caminhões gigantescos circulando no centro.
[25] Quem ainda faz brincadeirinhas manjadas como afrouxar a tampa do saleiro ou apertar a campainha e sair correndo.
[26] Corintiano insistindo que é campeão mundial.
[27] Banheiro encharcado.
[28] Estudantes de Humanas do primeiro ano que, já na primeira aula de Sociologia, pensam que descobriram o mundo, que só o Socialismo salva e que todos deveriam apoiar o MST.
[29] Discursos improvisados do Lula.
[30] Propagandas indecentes no Orkut.
[31] Correntes ameaçadoras do tipo “se você não passar essa oração para 30 pessoas dentro de 10 minutos, você vai morrer duro e seco”.
[32] Gente miserável que tem 10 filhos – e continua fazendo mais.
[33] Aquele discursinho de sempre: “A culpa é da sociedade”.
[34] Modismos.
[35] Gírias cariocas (com sotaque): “sinistro”, “coé”, “tô bolado”, “mermão”
[36] Gente que vai a Bahia e volta falando óxente.
[37] Quem anda arrastando o chinelo.
[38] Lojas cheias de papel picado no chão em dia de promoção.
[39] Metidos a engraçadões que fazem rodinha de samba no saguão do aeroporto.
[40] Mini gênios.
[41] Atores mirins.
[42] Concurso de Miss.
[43] Discurso de Miss (Qual o seu maior sonho? – A paz no mundo.)
[44] “Pra mim fazer”, “Menas gente”, “Eu tinha chego”, “Prefiro mais”
[45] Piadas óbvias.
[46] Músicas que apelam para o duplo sentido –como “se eu cozinho eu não lavo” – totalmente sem-graça.
[47] Playboyzinhos que nunca montaram um cavalo mas se vestem de cowboys para fazer tipo.
[48] Esses mesmos seres que acham que todo mundo é obrigado a ouvir as “músicas” que eles ouvem e cantam (muito mal, aliás).
[49] Adesivos de carros com mensagens absolutamente dispensáveis: “Propriedade de Jesus”, “A inveja é uma merda”, “Rastreado por linguarudos”, “Fui”.
[50] Quem inventa de batucar em mesa de restaurante – sempre tem uns tontos para acompanhar.
[51] Mulheres que se tratam por “querida”, “fofa” e “amiga”. É de uma falsidade...
[52] Quem aparece na casa da gente sem avisar.
[53] Gente sem personalidade: num dia se fantasia de gótica e no outro está na roda de pagode.
[54] Atendente de loja de roupa que fica colada na porta do provador perguntando: “e aí, ficou bom? Deixa eu ver?”. E ainda tem a cara-de-pau de dizer “nossa, mas ficou linda!”.
[55] Quem faz hang loose gritando “U-hu!”
[56] Uso abusivo do gerúndio.
[57] Uso indiscriminado de reticências – tem gente que acha vai dar uma certa carga dramática na frase (vejo muito em Orkut): “Eu.......te liguei........hoje........você saiu?........” – reparem que as reticências dessa gente tem bem mais que três pontinhos.
[58] Quem come salgadinho fedorento no ônibus.
[59] Festa de Peão.
[60] Tomar choque no registro do chuveiro.
[61] Meia molhada.
[62] Sônia Abrão.
[63] Merchandising em novela.
[64] Gente que segura o elevador.
[65] Propaganda solta dentro do jornal.
[66] Gente que se acha engraçada acordando os outros com susto.
[67] Pessoas que cortam nossa linha de raciocínio para fazer adendos idiotas.
[68] Criança chorando na Igreja.
[69] Carrinho de supermercado com a rodinha torta.
[70] Pessoas viciadas em “né” e “tipo assim”.
[71] Gente que se faz de surda e fica toda hora: “hã?”, “o que foi?”, sendo que entendeu muito bem a pergunta.
[72] Peruas que balançam as pulseiras para fazer barulhinho.
[73] Apelidos melosos de namorados: “guti-guti”, “buzunguinho”, “meu bebê”. ARGH!
[74] Aliança de compromisso.
[75] Interneteiros preguiçosos: “vo te add”, “kd vc?”, “vc eh d +”
[78] Gente insistindo para vender rifa.
[79] Criancinha vendendo votos de Rei e Rainha da quermesse.
[80] Aqueles que fingem que vão tirar foto, aí todo mundo fica paradinho fazendo pose e na verdade os babacões estão filmando.
[81] Propaganda partidária a cada 2 minutos.
[82] Repórter que faz pergunta imbecil, como “é muita tristeza, né?”, para um parente num velório. Ou quando alguém perde uma casa por causa da enchente: “como é que o senhor está se sentindo?”. Ou para um jogador que acaba de ganhar um campeonato; “e aí, tá feliz?”. Eu sinto vergonha.
[83] Pré-julgamento. A pessoa nem conhece o fulano e já comenta “hum, esse aí, pelo jeito, não vale nada”.
[84] Espertinhos que vêem um amigo no começo da fila do banco e pedem “você pode pagar isso aqui pra mim?”, e entrega uma pilha de boletos.
[85] Gente viciada em tecnologia e não fala de outra coisa.
[86] Homem debochado de bermuda, regata e chinelo em eventos solenes.
[87] Mini-adulta: menina que mal saiu da pré-escola e já passa batom, esmalte, quer andar de salto e faz chapinha.
[88] Gente bêbada debruçando no seu ombro e dizendo que você é o melhor amigo do mundo.
[89] Mulherada que fica conversando no banheiro do restaurante, ocupando espaço, entupindo a entrada e tirando nossa privacidade.
[90] Quando você não domina determinado assunto e vem um “gênio” e te diz: “nossa, mas como é que você não sabe uma coisa tão simples?”.
[91] Jornal molhado.
[92] Gente que está vendo que tem fila no posto de gasolina, e ainda assim estaciona na frente da bomba e desce para comprar coisinhas na loja de conveniência.
[93] Quando você está aguardando um telefonema importante e alguém te liga ensebando a conversa: “aaaaadiviiiinha que tá falaaaaaando?!”
[94] Preços quebrados: 4,99 ou 29,99. Nenhum caixa te volta 1 centavo. No máximo te dá uma balinha. E ruim.
[95] Gente que dança ou gesticula com um copo de cerveja na mão e respinga nos outros.
[96] Gracinhas idiotas: dedo na lente dos outros, peteleco na orelha, colar bilhetinhos nas costas do tipo “me chute”, pisar no tênis novo de alguém.
[97] Toques ridículos e manjados de celular, como o “tem pobre ligando pra mim”.
[98] Avós que ficam contando as façanhas dos netos.
[99] Quem puxa música em excursão: “Se a canoa não virar, olê, olê, olá... Eu chego lá!”, “O fulano roubou pão na casa do João...”, “Motorista, motorista, olha o poste, olha o poste. Não é de borracha, não é de borracha! Vai bater, vai bater!”.
[100] Gente que pega CD emprestado e devolve riscado.
[101] Quem pede caneta emprestada e não devolve – acha que é brinde.
[102] Pessoas que ficam te segurando numa conversa – e tem consciência disso: “ai, deixa eu falar logo porque você tá com pressa, né?”.
[103] Gente que não entende piadas espirituosas e fica questionando. Acaba a graça.
[104] Palitos de dente na areia da praia.
[105] Quando chamam o garçom de “ô amigô!”
[106] Impressora que mastiga o papel.
[107] Quando me vêem com uma camisa do Palmeiras e ainda perguntam: “Você é palmeirense?”. Não, sou são-paulina masoquista.
[108] Gente que pensa que fala outro idioma e fica inserindo palavras estrangeiras no meio das frases, só que totalmente fora de contexto.
[109] Programas de debates que pedem opinião de ex-Big Brother.
[110] Piadinhas machistas e homens que depreciam a mulher.
[111] Quem vê uma pessoa que está desempregada e ainda tem a insensibilidade de dizer “ê vida boa heim”.
[112] Gente que fica se fazendo de coitadinho do tipo “ninguém me ama, ninguém me quer”.
[113] Criança chata que faz de tudo para ser o centro das atenções.
[114] Quem acha engraçado maltratar animais.
[115] Gente que fica se metendo em conversas literárias e dando palpites sendo que nunca leu um livro inteiro.
[116] Pessoas que ficam fazendo baterias imaginárias.
[117] Gente que inventa de cantar dando um agudo, mas vê que não vai conseguir e já muda para o grave. Além de irritante é vergonhoso.
[118] Quem coloca meu nome numa lista sem me consultar.
[119] Aqueles que perdem o timing da piada, mas insistem em continuar contando.
[120] Tentar acabar uma lista que parecia que não ia ter fim.