quinta-feira, 26 de maio de 2011

MIL ANOS DE ARTE


Adriano Colangelo, italiano que vive há bastante tempo em São Paulo, tem algumas das ocupações dos meus sonhos, mas que nas quais, provavelmente nessa vida, eu não terei muito tempo de arriscar a me meter: artista plástico, músico, ensaísta, escritor, pesquisador e estudioso da obra artística de Leonardo Da Vinci e da História das civilizações orientais e ocidentais.
Passou anos viajando por grandes e pequenos lugares conhecendo e se encantando com paisagens, pessoas e culturas da América Latina, trocando ideias com antropólogos e xamans, formando dentro de si um mosaico riquíssimo de informações, percepções, mistérios e belezas.
Tomei conhecimento dele por acaso. Passeando por Campos do Jordão, parei para comprar um livro. Peguei-o, passei pelo caixa, meti-o na bolsa. Quase não o folheei, não foi preciso. O título já me bastou para saber que eu ia adorar a leitura. Já fiz muitas escolhas bobas na minha vida, mas quando a livros eu raramente me equivoco. Sem falsa modéstia, tenho um faro apurado para isso e com Mil anos de arte vi que acertei mais uma vez.
A obra trata basicamente de um resumo sobre a história da arte ocidental, levantando-se os períodos e movimentos, de acordo com os séculos, enquanto traça-se um paralelo com o nascimento e consolidação da música clássica. Diria que nesse Colangelo convida o leitor a conhecer, em rápidas pinceladas e em alguns poucos acordes, o encantador mundo das artes.
Ele não se aprofunda, não fica páginas e páginas num mesmo tema. Como eu disse, mais parece um convite ou uma degustação, é como alguém que nos mostra um lindo cartão postal e com isso aguça a nossa vontade de conhecer aquele lugar estampado ali. Afinal foi a partir de Mil anos de arte que eu passei a devorar livros sobre esse universo. E inevitavelmente caí de amores por vários de seus conterrâneos: Da Vinci, Michalangelo, Caravaggio, Rafael, Botticelli, Mantegna, Tintoretto, Cimabue, Buoninsegna, Canaletto, Bellini, Piero Della Francesca, Titian, Uccello, Veronese e até o extravagante Arcimboldo.
Isso só contanto os italianos! E homens. Pois entre os franceses, alemães, holandeses, britânicos, norte-americanos, espanhóis, hispano-americanos e brasileiros também há várias mulheres brilhantes.
O livro traz noções sobre a pintura na Idade Média, no Renascimento (meu período favorito), Barroco (inclusive o latino-americano, com destaque para as igrejas brasileiras), Rococó, Romantismo, Impressionismo, Art Nouveau, Expressionismo, Cubismo, Arte Abstrata, Futurismo, Surrealismo, Escola Bauhaus e Modernismo. Ao mesmo tempo fala sobre a música medieval, renascentista, barroca, ópera lírica, óperas francesa e russa, Beethoven, o cinema na década de 20 e o advento da música moderna.
Parece assunto demais para um livro só? Pois o delicioso mundo das artes não é nem um décimo disso. Adriano nos mostra o cartão postal. A viagem é por nossa conta.

Mil anos de arte
Autor: Adrinano Colangelo
Editora: Cultrix
Páginas: 117

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FLORBELA ESPANCA

Sonetos



- Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 21/04/11 -

Uma vez eu disse a uns amigos: “Eu queria ser como Florbela Espanca, menos na parte em que ela se mata no dia do aniversário”. Isso porque Florbela é um dos maiores nomes da literatura portuguesa, uma sonetista perfeita. E uma mulher muito apaixonada, passional, dramática, visceral – percebe-se pela escolha mórbida de se encher barbitúricos na madrugada de seu 36° aniversário, em 8 de dezembro de 1930, após outras duas tentativas de suicídio. Por isso que fique bem claro que eu queria ser Florbela só sob o aspecto literário!
Sua vida repleta de inquietude, tumultos, paixões e dilemas íntimos, reflete-se em suas obras nitidamente feminilizadas, erotizadas e panteístas. Casou-se e descasou-se várias vezes, ainda jovem perdeu a mãe, sofreu um aborto, teve complicações nos ovários e pulmões, apresentou crises de neurose, seu adorado irmão morreu em um trágico acidente de avião, agrava-se sua doença mental e, em meio a esse turbilhão de eventos, Florbela jamais interrompe seus estudos e sua produção.
Este compêndio resume suas mais afamadas obras, separadas em 4 livros e todas, de algum modo, revelam os sofrimentos de Florbela, suas paixões, a solidão, seu saudosismo. Mas ao contrário do que possa parecer, seus escritos não nos contaminam com suas angústias, mexem conosco de outro modo, eles nos encantam de tal modo que acabamos por devorar esse livro na mesma hora. É claro que esse é um testemunho muito pessoal de quem admira a arte do soneto e que ao ler Florbela, chega a imaginar e ouvir sua voz com o doce e inconfundível sotaque lusitano. Elegi, com muito custo, meus sonetos favoritos: Eu, Amiga e Tédio (Livro de Mágoas – 1919), O nosso livro, Fumo e Horas rubras (Livro de Sóror Saudade – 1923), Rústica, Se tu viesses ver-me..., Ser poeta, In Memoriam (uma homenagem ao irmão, a seu “morto querido”), Árvores do Alentejo e Teus olhos (do livro Charneca em Flor – 1930), À morte e O meu soneto (Reliquiae – 1931).
Alguns críticos apontam o fato de Florbela nunca ter abordado temas humanistas ou sociais em seus escritos (que não se resumem apenas em sonetos, mas contos, epístolas, diários e textos diversos), que giravam muito em torno de si e de seu mundinho pequeno burguês. Mas o que poderia fazer uma moça, no começo do século passado, em Portugal em meio a uma sociedade ainda tão patriarcal? Ela assumia-se conservadora e até um pouco egocêntrica, e creio que, mesmo com tantos “eus” e com tantos rompantes de paixão, que até podem beirar à pieguice, nada consegue tirar a beleza e a singularidade da obra de Florbela Espanca.

Sonetos – Florbela Espanca
Coleção A obra-prima de cada autor
Editora: Martin Claret
Páginas: 128
Brás, Bexiga e Barra Funda



 - Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 15/04/11 -

A obra de Antônio Alcântara Machado, escrita em 1928, assemelha-se muito a um jornal; seus contos soam, aos olhos e ouvidos mais sensíveis e saudosos, como crônicas “fanfullescas”, como se alguma nonna ou zia estivesse nos contando histórias de nossa família ou conhecidos. 
Em Brás, Bexiga e Barra Funda, o autor resgata a São Paulo do século retrasado, quando a cidade recebia os imigrantes italianos que vinham fazer a América e suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras. Alguns permaneceram nos campos, mas os que foram para a cidade marcaram indelevelmente a história da capital paulista.
Tenho um profundo carinho por esse livro por três motivos óbvios: a ascendência, a paixão por História e o fascínio por São Paulo.
Durante os meses em que vivi no Brás, em 2008, procurei por resquícios do que um dia foi um bairro genuinamente italiano. Mas o tempo passa, as coisas mudam e o que restou da italianice de outras décadas encontramos apenas nas festas paroquianas de São Vito, Nossa Senhora Achiropita e Nossa Senhora Casaluce, ou no que sobrou das fachadas do antigo casario e corticinhos que ainda resistem a tanta transformação em torno de si.
Alguns dizem que Alcântara Machado fez quase uma “homenagem ao contrário” à comunidade ítalo-brasileira ao retratar os imigrantes como gente grosseira, briguenta e ambiciosa. Mas não consegui enxergar isso. O que vi foi gente embrutecida pelos desafios da sobrevivência em uma cidade já muito competitiva, que entrava num acelerado processo de industrialização e que abrigava povos de várias partes do velho continente – e até do Oriente.
A gente retratada por Alcântara Machado é debochada sim, é grosseira, ambiciosa, escandalosa. Mas é provável que isso se deva ao sangue fervilhante dos italianos, que explodem a todo momento mas que adoram uma confraternização; gente passional e corajosa que transformou São Paulo nos dando gerações de literatos, políticos, esportistas, artistas e industriais.
Rua Oriente, Rua Barão de Itapetininga, Praça da República, Rua do Arouche, Santa Cecília, Jardim América, Rua Dona Veridiana, Praça do Patriarca, Rua da Liberdade, Avenida Paulista, Parque Antártica, Praça Buenos Aires, Rua do Gasômetro, Largo de São Francisco. Alguns desses lugares citados pelo autor eu cheguei a conhecer e eles me deixaram com uma espécie de saudosismo que eu nem sei que nome tem. Não vivi nesses lugares, meus ancestrais oriundi tampouco, mas é como se alguma coisa no DNA da gente se sentisse provocado, apaixonado, instigado. Personagens como a interesseira Carmela ou o menino (teimoso) Gaetaninho nos lembram aqueles parentes que, vez ou outra nos pegamos criticando, mas dos quais não conseguimos desgrudar.
Brás, Bexiga e Barra Funda nos envolve com uma linguagem diferente dos demais clássicos da literatura brasileira. É, ao mesmo tempo, simplória, moderna, criativa, rica, simpática, algo deliciosamente macarrônico. Enfim, fez com que eu me sentisse em casa. Na casa da nonna!

“Italiano grita.
Brasileiro fala.
Viva o Brasil.
E a bandeira da Itália!”
Brás, Bexiga e Barra Funda
Autor: Antônio Alcântara Machado
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 78

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Correspondência entre amigos – Parte 4
UMA PAUSA PARA OS RECLAMES


Já é sabido que a Internet, entre outras coisas, é um poço interminável de bobagens, sacanagens e afins. Mas também é uma ferramenta indispensável para os saudosistas oitentistas como Fagner e eu. Primeiro porque, mais uma vez, trocamos mensagens orkutianas sobre essa “charrete que perdeu o condutor”, como diria Raul Seixas. Segundo porque reviramos o YouTube em busca de propagandas, clipes e programas dos quais guardamos ótimas lembranças. Mensagem de lá, mensagem de cá, convenientemente, mais uma vez, eu noto que isso poderia render outro texto. Então, para quem é da época do creme rinse, dos tênis Iate e dos batons Boka-Loka, creio que essa nossa conversa vai fazer algum sentido:
[Fagner] - Viu os vídeos que eu adicionei sobre a década de 80? Ia colocar alguns de comerciais que eu estava vendo no YouTube que é da nossa época... Tinha até achado um que eu nem me lembrava mais que era dos Trapalhões fazendo a propaganda do Chester Perdigão... Lembra daquela do "Habemus Chester"? (...) Achei umas que parecem com aquelas que passam no Pica Pau, lembra? O episódio chama-se "Propaganda Super", aquele que tem a do "Dentifrício Alegria... quatro cores diferentes combinando com a pele!". (...) Na época devia ser uma sensação, o cara fala no final que "Toddy fortifica!" Tá? Nem tinham preocupação com calorias naquela época...

[Eu] - Essa do Toddy "é gostoso, fortifica e é econômico" tem de tudo! Até cara bombado! Hahaha. Mas você reparou numa das moças da propaganda? Era a Norma Bengell! Ela era linda né? Mas gostei mesmo da latinha do Toddy, que bonitinha. E sim, tem mesmo cara das propagandas que passavam naquele episódio do Pica-Pau em que ele assistia a um programa cheio de merchans! Além do Dentifrício Alegria, eu me lembro das "Pastilhas Fininho - tome uma e fique fininho mesmo!" – Agora essa propaganda dos cotonetes com esse homenzinho azul saindo do banho é clássica!
Quer outra? Camisas Pool "Bonita camisa, Fernandinho!" - eu achava esse tal Fernandinho um nerd, com cara de que era super explorado naquela empresa.


[Fagner] – (sobre uma propaganda secular da Coca Cola em que se falavam – demoradamente - nomes de vários instrumentos musicais) Agora diz se você compraria esse produto por causa dessa propaganda... “Este é o reco-reco!”... aiaiaiaiai Isso é bem parecido com o que é a do guaraná Dolly hoje... Levou tempo até chegarem no "Pipoca na panela...". Pior é que não inventaram outra melhor do que a do Guaraná Antártica.

[Eu] – O que é essa propaganda? Como a TV tinha tempo para jogar fora! Como as propagandas eram demoradas e nada objetivas! Nossa, que sossego! Para se chegar à Coca-Cola o cara apresentou tudo que era instrumento musical - tocados, aliás, por uns tiozinhos vestidos de “malandros”, mas com uma cara de canseira... sinal que a Coca-Cola não deixava as pessoas tão ligadonas naquela época haha (...) Vixe, as propagandas do Guaraná Antáctica eram ótimas mesmo. Pizza com guaraná, pipoca com guaraná... até banana com guaraná tinha, você lembra? Mostrava um mocinho lindo de rabo de cavalo na beira da estrada pedindo carona e ninguém dava. Aí ele fazia uma "banana" para as pessoas. Eu achava aquele mocinho lindo de morrer! Daí o tempo passou, passou... hoje esse "mocinho" é conhecido por Rodrigo Santoro! Acho que foi o primeiro trabalho dele na TV. Ai ai... isso me lembra demais a minha 6ª série (...) Agora quero ver se você se lembra dessa musiquinha: "Estrela brasileira no céu azul / Iluminando de norte a sul / Mensagem de amor e paz/ Nasceu Jesus, chegou o Natal / Papai Noel voando a jato pelo céu / trazendo um Natal de felicidade / E um Ano Novo cheio de prosperidade / Varig! Varig! Varig!" Será que é do seu tempo? Eu já estou com idade para admitir que voei de Varig. Vasp e Transbrasil também! Só não voei de Pan Am porque aí já ia ser demais!

[Passei para o Fagner um vídeo do YouTube, um dos inúmeros sobre a programação da TV na década de 80] Vê só essa seqüência de propagandas, de “um sábado à noite de 1987 na Globo”, na hora do Supercine. Um monte de coisas me chamou a atenção nisso:
1) A vinheta do Supercine não mudou desde 1987!
2) Na chamada do Fantástico, uma das reportagens era os cuidados com a proliferação da dengue. Outra coisa que também não mudou.
3) E os musicais do Fantástico? Ivan Lins e João Bosco. Quando que hoje isso acontece?
4) Você se lembra daquela motinho italiana, Vespa? Muito mais charmosinha que essas motos de hoje e já era vista como uma alternativa para fugir do tráfego intenso!
5) Propaganda da Pepsi com Tina Turner e Blitz! Que máximo isso! Adorei!
6) Taffman-E! Chegou a tomar isso? Eu tomei porque via essa propaganda no programa dos Trapalhões, mas nem sabia do que essa bebida se tratava direito. Mas se os Trapalhões recomendavam... Era bom, mas tinha um gostinho de remédio.
7) Essa é pra acabar: propaganda de livro! Tá certo que era um daqueles romances ultra comerciais, mas mesmo assim... LIVRO!

[Fagner] - Nossa, esse vídeo foi longe, hein?
Quando passou esse Supercine eu tinha 4 ou 5 anos... A vinheta não mudou mesmo. É, não mudou nada, ainda há dengue... Ô tempo em que a TV tinha programas que passavam os mestres da MPB... A Vespa é parte da alma italiana! Ainda tomo TaffMan-E, tem gosto de remédio mas tudo bem... Agora, propaganda de livro hoje só se for de auto-ajuda e olhe lá que tranqueira que estarão vendendo. Lembro de uma vez que falaram que fizeram propaganda nos ônibus franceses do livro do Paulo Coelho, o pessoal de lá achou tão deselegante (...) Pior é que eu gostei da propaganda antiga do Toddy... Viu só a latinha, que diferente, nada a ver com a de hoje. Estava mais para lata da manteiga Aviação do que para achocolatado Toddy...E no final quando o cara fala que Toddy é o único, impossível de se copiar... Agora qualquer fabriquinha tá fazendo chocolate em pó... Não igual ao Toddy, mas já quebra o galho...

O mais curioso é que quando éramos crianças, tudo o que nós menos queríamos era ver propagandas, porque aquilo interrompia os nossos programas favoritos. E, no entanto, hoje, ficamos caçando essas mesmas propagandas, cheios de nostalgia. E é bom deixar claro que não ganhamos um centavo sequer para mencionar os produtos que apareceram neste texto! Não nos venderíamos tão barato e nossas saudades não têm preço.

terça-feira, 6 de julho de 2010

DAS e Fagner!
Mais uma vez obrigada!
Esqueci de mencionar que eu serei uma dessas velhas loucas e solitárias que criam muitos gatos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

OS CLICHÊS QUE A GENTE ADORA

Quem é que nunca se deleitou com um desses filmes bem açucarados ou previsíveis de Sessão da Tarde? Quem é que não se lembra de, durante as férias, ter passado algumas horas na frente da TV assistindo a filmes nada dignos de Oscar, mas que independentes de serem uma obra-prima da sétima arte, nos prendiam e ficaram gravados na nossa memória?

[1] Ônibus escolar amarelo, que geralmente nunca espera pelo aluno retardatário.
[2] Acampamentos com marshmallow na fogueira e histórias de terror.
[3] Festa no ginásio da escola com ponche “batizado” e eleição de Rei e Rainha do Baile.
[4] Tirar fotocópias da bunda – que vão, acidentalmente, parar na mesa do chefe.
[5] Casa na árvore, onde “meninas não entram”.
[6] Xingamentos como “loser” e “ass hole”.
[7] Guerra de comida.
[8] Cachorros que falam, chimpanzés que solucionam crimes e bebês que são gênios.
[9] Trabalhadores que se humilham para ser promovidos.
[10] Crianças que vendem limonada .
[11] Liquidação de garagem.
[12] Perseguição que destrói metade da cidade.
[13] Bater em hidrantes .
[14] Pessoas que se engasgam e são salvas pela Manobra Heimlich.
[15] A tímida do colégio se apaixonar pelo capitão do time de futebol e o nerd gostar da líder de torcida.
[16] Clube de Xadrez, Clube de Espanhol, aulas de Economia do Lar, Marcenaria, Artes e demais atividades extracurriculares que os alunos usam só para conversar sobre seus dilemas adolescentes.
[17] Alunos de intercâmbio que causam o maior frisson na escola.
[18] Personagens hispânicos com sobrenome Gomez, Rodriguez, Sanchez.
[19] Todo japonês é geek, toda loira é idiota, todo mexicano tem subemprego, todo italiano é briguento.
[20] Receber os novos vizinhos com uma torta e xeretar a vida deles através da cerca do quintal.
[21] Ninguém nunca diz “tchau” ao terminar um conversa telefônica. Simplesmente desligam.
[22] Valentões da escola que trancam os nerds no armário.
[23] Treinadores estúpidos que pregam que o que importa é vencer.
[24] Adolescentes que querem ser “os mais populares”.
[25] Gente deprimida que assiste TV com um pote de sorvete no colo.
[26] Viagem em família num trailer.
[27] Algo “mágico” acontecendo numa noite de Natal.
[28] Cortar a grama da vizinhança para ganhar uns trocos.
[29] Máquina de guloseimas sempre enguiçada.
[30] Taxistas indianos.
[31] Enterro em dia de chuva.
[32] Xerifes gordinhos e/ou coroas que nunca concordam com os métodos dos jovens agentes do FBI
[33] Pescadores com chapéu cheio de iscas e caçadores com coletes vermelhos acolchoados.
[34] Livro do Ano.
[35] Baile da Primavera.
[36] Velha louca e solitária que cria muitos gatos.
[37] Catástrofes que só acontecem em Nova Iorque. Às vezes em Paris.
[38] Toda turma adolescente em filme de horror tem que ter um cara fortão, uma menina bonita, um sujeito inteligente e o rapaz piadista. Geralmente o engraçadinho morre primeiro.
[39] Discursos motivadores com a bandeira americana agitando ao fundo.
[40] Apostas para ver quem vai ficar com a feinha da escola.
[41] Baderneiros que arrebentam caixas de correio com taco de baseball.
[42] Cenas de dança em que rumba, salsa, samba e tchá-tchá-tchá são a mesma coisa.
continua...

sábado, 22 de maio de 2010

MOMENTO RETRÔ - PARTE 3
30 ANOS DE PAC MAN! \o/


Só não comemoro jogando porque meu Atari quebrou :(
Junto com Enduro, River Raid, Megamania e Super Dave, o Pac Man foi paixão à primeira vista. Que TV LCD que nada! Eu jogava numa Telefunken toda zuada e era ótimo! Puts, que saudades! :~)


quarta-feira, 7 de abril de 2010

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR


“São mitos do calendário / Tanto o ontem como o agora / E o teu aniversário / É um nascer toda hora” (Carlos Drummond de Andrade)Esses dias ouvi uma expressão, também drummondiana, que me chamou muito a atenção: Fixação sentimental. Acredito que isso resume perfeitamente todo esse oitentismo e saudosismo que eu sempre sinto. Imagino que quem convive comigo deve estar farto dessa minha mania de ficar remexendo o que já foi, mas dessa vez vou tentar não aborrecer ninguém, mas sim fazer uma pequena homenagem a um lugar que marcou bastante um bom pedaço dessa minha curta vida de 30 anos: a loja A Eletrônica, que um dia foi do meu avô Antônio Sganzela (e também, por um tempo, do seu amigo e sócio Nelson Kerges), e depois do meu tio Carlão. Um pouco diferente das recordações precisas e históricas da minha mãe, o que eu tenho são lembranças de criança, são momentos que me remetem ás tais fixações sentimentais.Eu nunca levei aquela loja a sério. No bom sentido. Quando criança, eu nunca a vi como uma casa de comércio, muito menos como um local de trabalho. Eu a via realmente como um grande quarto de brincar, com suas prateleiras lotadas de bonecas, bibelôs, panelas, potes, potinhos, potões, ferramentas, talheres, vasos, jarras, porta-isso, porta-aquilo... Para mim tudo era brinquedo. Talvez as coisas com as quais eu nunca tenha brincado foram com os violões, porque eu era pequena demais para segura-los, porque eles ficavam pendurados lá no alto ou porque meu tio sabia que violão em mão de criança arteira não prestava. Mas confesso que “testei” muita coisa daquela loja – desde aqueles jipinhos com pedais até aquela pistolinha de acender o fogão, o Magiclick. Aliás, era só botar um Magiclick na minha mão e eu tinha diversão garantida durante boa parte da tarde. Como aquilo tinha mesmo forma de pistola, eu me sentia “a justiceira” atirando nos homens maus.E antes que a minha prima Evelyn diga que eu me esqueci dela, não tinha como esquecer, pois bastava a gente se encontrar na casa da minha avó para que ela viesse com essa: “Vamos brincar de lojinha?”. Aí as duas pirralhas ficavam transitando pela Eletrônica fingindo que uma era a atendente e outra era a “madame” que comprava. Mexíamos na caixa registradora para darmos nossos trocos imaginários, usávamos retalhos de papel de presente para fazermos as notinhas e acabávamos com as fitas, daquela quase secular, máquina de escrever (Remington? Royal? Não tenho certeza). E tudo isso em meio ao entra e sai dos fregueses de verdade. Eu não sei como o meu tio tinha paciência. Eu não teria! Mas o meu nonno já não era tão tolerante, porém até das suas broncas achávamos graça.
A gente só dava um tempo de atazanar na loja quando era hora de tomar café na casa da dona Valentina – a loja e a casa da minha avó eram literalmente grudadas, o que aumentava ainda mais as possibilidades para inventar brincadeiras. Creio que eu só não bagunçava com as imagens dos santos, talvez por medo de ser castigada, porque de resto, em tudo eu mexia, em tudo eu fuçava. Eu me sentia dentro de um outro mundinho, tudo eu queria ver, em tudo eu queria botar a mão. E cada brincadeira, cada tilintar daquela velha e bela caixa registradora, cada vez que a loja funcionava à noite nas semanas que antecediam o Natal, cada passa-fora do meu avô, cada piadinha do meu tio, cada reencontro com os primos, tudo isso traz à minha memória, não apenas a imagem empreendedora de uma família, um estabelecimento respeitado ou um nome que foi se consolidando através dos anos, mas especialmente me leva de volta à minha “Disneylândia” – a melhor e única que eu poderia querer.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CORRESPONDÊNCIAS ENTRE AMIGOS – Parte 3
DAS ARTES AO FIM DO MUNDO

Em mais um texto da série “conversas orkutianas, porém relevantes”, Fagner e eu divagamos sobre o fim do mundo, passando pelas artes e pelo cinema, e percebendo como esse assunto tem se tornado ao mesmo tempo fascinante e cansativo. Nos tempos da minha avó, o fim do mundo despertava nas pessoas curiosidade e medo. Hoje, como quase tudo, isso está tomando ares de modismo. O fim dos tempos vem se anunciando desde que o mundo é mundo. Os homens das cavernas já olhavam para o céu vislumbrando o poder de algo que eles nem conheciam, mas que poderia acabar com a sua existência quando bem entendesse. O hinduísmo desde sempre falou sobre a destruição do mundo e sua reconstrução pelas mãos de Shiva. Os índios americanos, as civilizações da América Central, os egípcios, todos já sabiam que a humanidade nasceu com os dias contados porque somos imperfeitos, porque estamos sempre metendo os pés pelas mãos, porque somos algozes da natureza, somos egoístas, materialistas e merecemos uma lição. Mas à medida que 2012 chega, o espetáculo em cima desse assunto vai crescendo:

[Fagner] - Agora vou ver se escrevo sobre o filme 2012, tinha falado que não iria assistir, mas uma amiga emprestou...

[Eu] - 2012 eu queria muito assistir, gosto dessas coisas meio apocalípticas, se bem que esse assunto já deu o que tinha dar. Estou acompanhando a série documental O Efeito Nostradamus no The History Channel. É sobre fim do mundo também, mas cada episódio trata de um tema. Eles buscaram fim do mundo até nas obras do Da Vinci! O episódio sobre os Sete Selos me impressionou um bocado. Se tiver a chance de ver, "veje" hahaha

[Fagner] - Então, é por isso que eu não assisto esses filmes de fim do mundo, é alguma coisa tão batida. Mas esse do History Channel parece interessante. Apocalipse no Leonardo da Vinci... Então, isso cheira até coisa do Código Da Vinci.


[Eu] – Sim, sim, esse do History Channel é bem interessante. Isso sobre o Da Vinci, eles foram fuçar em três obras dele que - dizem - ele previu a revolta da natureza sob a forma de muitas chuvas, enchentes e um novo dilúvio. Isso aparece na Madona das Rochas, na Monalisa e no São João Batista. Fora as inúmeras gravuras dele - inclusive as Cabeças Grotescas! Pois é... Tem hora que eu acho que eles viajam demais, mas muita coisa ali até que faz sentido.

[Fagner] - Puxa, que leitura disso tudo, tenho reproduções da Madona das Rochas, da Monalisa daquelas da Caras, que é só colocar uma moldura, e livros com os outros quadros... Adoro as cabeças grotescas, parecem as bisavós das caricaturas. Mas nunca tive essa leitura. Até na crônica de hoje do Cony, na Ilustrada da Folha, ele cita a Ceia, daquela leitura que fizeram que João Batista era na verdade Maria Madalena e que na parte da junção dos dois formam um cálice. Sei lá. Eu acho que nós vamos acabar com o mundo antes do Apocalipse. Aí Deus irá dizer: Mas eu preparei tudo e os caras acabaram antes!


[Eu] - Essas cabeças grotescas eu fiquei conhecendo por causa da capa do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs. Achei medonhas, mas muito interessantes. Prendem a atenção, dão uma sensação muito esquisita. Não recordo exatamente o que disseram dessas cabeças quanto ao dilúvio, mas é como se elas fossem uma antecipação do que estaria estampado no rosto das pessoas nessa época de destruição. Era a angústia que Da Vinci sentia quando tinha essas "visões". Já em S. João Batista, os cabelos representam as ondas do mar invadindo a terra (muito resumidamente falando) e o dedo em riste é algo como "olhe para cima (procure por Deus), ainda há salvação".


[Fagner] - Sabia que o S. João Batista de Da Vinci na verdade é Baco? Repara bem quando você for ver novamente a imagem, a semelhança. Pensei que você ia dizer que as cabeças grotescas são aquela imagem da Bíblia que aos perdidos (os f***) só restará o choro e o ranger dos dentes... Aquelas cabeças me lembram essa passagem.


[Eu] - Pois então, antes eu confundia esse São João Batista com o Baco mesmo. Afinal ele está muito mais com cara de "profano" do que de santo. Nunca tinha associado as cabeças grotescas com essa passagem da Bíblia! Mas combina. A primeira vez que eu vi, eu me lembrei daquela gente eternamente doente e mal nutrida dos tempos medievais, aí depois me lembrava dos orks do Senhor dos Anéis. Do fim do mundo para as artes... (...) É ou não é uma coisa perturbadora? Dá até pra imaginar o tormento se passando pela cabeça dessas criaturas. Da Vinci era terrível - no bom sentido (...) Hoje eu estava revendo o Efeito Nostradamus - O Armagedom de Da Vinci. Esse tipo de coisa é bom a gente assistir mais de uma vez, pois tem muito detalhe! (...) O próprio Da Vinci fazia algumas previsões, deixou várias e várias frases escritas em forma de "charadas" sobre o fim do mundo. Medonho. (...) Finalmente consegui assistir a 2012 Tirando os clichês, algumas coisas ali ficaram meio estranhas, você percebeu? Americanos sem rumo dependendo da ajuda de russos e chineses! Isso sim é apocalíptico! E no fim das contas todo aquele carnaval da Diocese do Rio para censurar as cenas em que o Cristo desmorona, não deu em nada? Pra mim esse piti foi totalmente desnecessário, afinal a cena não durou nem 10 segundos. Pior foi a Capela Sistina rachando e os afrescos do Michelangelo virando pó.


[Fagner] - Viu o 2012? O que me irrita é essa coisa que tudo os EUA tem que resolver... Parece que o mundo é quintal: "Olha lá pai, tão mexendo na laranjeira lá no fundo do quintal." "Peraí, fio, vou jogar uma bomba nesses malditos!" Mas sei lá, não é o meu estilo de filme preferido. Leonardo da Vinci fazer previsões é coisa de gênio, o cara escrevia ao contrário para ninguém ficar lendo. Mas sei não quanto a prever o fim do mundo, acho que vamos acabar com ele antes do Apocalipse, e quando Deus chegar para acabar com tudo vai dar com os burros n' água: "Puxa, essa racinha acabou com a minha diversão!"


[Eu] - Estados Unidos... tudo tem que acontecer primeiro lá, inclusive o fim do mundo! Agora peguei para assistir outro desses seriados amedrontadores do History Channel: Deus Versus Satanás. É também sobre isso do final dos dias, da última e decisiva luta do bem e do mal, que dizem, tem até lugar certo para acontecer: Megido. Mas como você disse, do jeito que as coisas estão indo, o fim pode estar mais perto do que a gente imagina. Quando Deus descer para dar na cara do Satã, não vai ter mais Megido, nem Jerusalém, nem Oriente Médio, nem continente nenhum. Vão ter que brigar em outra freguesia.


[Fagner] Aí, escreve sobre o fim do mundo! Estava conversando ontem com o Leleco e ele me passou uma dica de um texto do Leonardo Boff. Além disso, tinha falado pra ele que se a nossa raça acabasse, segundo algumas leituras, entre elas a do nosso véinho querido, o Mark Twain, seria uma boa para o mundo. Sabe como é: não fazemos falta. E, se não existirmos mais, o mundo voltaria a ser o que era, lindo e limpo. Seria bom se isso acontecesse, o que eu acho que vai, porque somos frágeis, deixa mudar o tempo, ter uma catástrofe climática pra ver quem vai primeiro...


[Eu] Pois é, isso que você disse sobre a gente sumir e o mundo voltar a ficar limpo e bonitinho, teve também no THC uma série de documentários chamada O Mundo sem Ninguém, e falava exatamente disso. Se de repente todo mundo desaparecesse (por um motivo qualquer), o que seria do mundo? O que seria das cidades, dos monumentos, dos documentos, dos livros, dos nossos animais domésticos, dos prédios, das fábricas, das estradas? Muito interessante. A natureza simplesmente não sentiria a nossa falta, os animais reinariam sobre a terra e tudo TUDO MESMO sumiria em algumas centenas de anos, desde os livros e arquivos digitais, até os carros, usinas, museus, torre Eiffel, Estátua da Liberdade, Monte Rushmore (só para citar algumas das criações mais monumentais do homem), grandes rodovias. A natureza ia engolir tudo!


[Fagner] Tem até um filme assim. É no Planeta dos Macacos que eles aparecem do lado da cabeça da Estátua da Liberdade. É tudo seria perdido, coisas de valor inestimável. Mas e se viesse também alguma coisa do céu e acabasse com tudo, como aconteceu com os dinossauros? Outros seres iriam sobreviver, não nós e começariam tudo de novo. Em cima das nossas coisas, iriam evoluir e depois, quem sabe, até escavariam nossas coisas como fazemos com os dinossauros. (...) E, quem sabe, quando encontrarem algumas coisas, farão suposições de nossos costumes, como fazemos com bichos que nem sabemos direito como eram. Assim:
O Supremo Castigo
Mário Quintana
Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe - quem é que não viu? - aquele cartaz... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio - até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos - estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!” - (In: Caderno H) p. 273


[Eu] Agora esse trecho do Quintana me lembrou aquele outro filme Os Deuses devem estar loucos, em que o aborígene acha uma garrafa de Coca-Cola e imagina ser isso um sinal dos deuses. Mas vai ser bem por aí mesmo. De repente uma coisa bem banal como uma garrafa ou um tênis Nike daqueles bem horríveis, possam ser interpretados como coisas divinais, vai saber... Só sei que isso de fim do mundo está ultrapassando os limites da curiosidade e já está virando moda. Os documentários da TV a cabo só falam disso: catástrofes, apocalipse, os exércitos de Satã, a vingança da natureza, os escritos maias, as profecias de Nostradamus... vou voltar a ver Tom & Jerry que eu ganho mais.


[Fagner] Nostradamus... Ainda acreditam nele? O cara tem quantas profecias do fim do mundo? Desde pequeno ouço algumas e até agora nada... Pra você ver que estamos sob um efeito retardado, isso porque teorias apocalípticas deveriam ser feitas no fim do século, quando as luzes estão se apagando. Isso me lembrou o Antônio Conselheiro no final do século 19. Lembra do "sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão"? Já leu essa profecia? Lembro de uns caras (no fim do século que nascemos - estamos velhos, somos do século passado!) que se mataram quando o cometa Halle Boop ia passar porque teve um maluco que falou que seria o fim do mundo e que na cauda do cometa tinha uma espaçonave que iria pegar aqueles que se matassem numa data certa. Agora com isso eu me lembrei do Chaves entregando jornal: "Cinqüenta pessoas enganadas!"

Quem quiser aderir a uma seita bizarra e se matar, que se mate. Enquanto Deus não passa uma vassoura em tudo, o melhor a fazer é tentar ver as coisas por um lado mais espiritualizado e menos especulativo. Vou continuar lendo, escrevendo, adorando gatos, vendo os vexames do Palmeiras, fazendo palavras cruzadas, assistindo a desenhos e desfrutando da companhia das pessoas que amo do mesmo jeito de sempre. O final é algo certo para todos. Para uns mais cedo, para outros mais tarde. Mas mais importante do que escarafunchar sobre qual tragédia se abaterá sobre nós um dia, é aprendermos a tirar o melhor de nós todos os dias. E fim de papo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


Bruno, Fagner,
LyLove e Das Schweigen:
muito obrigada pelas visitas e pelas palavras.
Sinto que ganhei a semana!
\o/

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

HERÓIS DE ONTEM.
HERÓIS DE HOJE.

Fui muito pichada pelo meu último texto, sobre a Colheita Feliz, pois creio, muitas pessoas não entenderam o espírito da coisa, mas tudo bem. Sei que dessa vez a receptividade vai ser a mesma já que vou pisar o calo de mais gente. Quem gosta de Big Brother aí, levante a mão. Mesmo aqueles que fingem que não gostam, mas que sempre dão suas espiadelas, conforme convida o Bial. Eu admito que assisti lá nos primórdios, quando a coisa ainda era novidade. Mas aí fui percebendo que circo inútil isso era e me curei. Mas respeito quem gosta. Só pergunto se essa mania de chamar os brother e sisters de “guerreiros” e “heróis” não é exagero. Eles mesmos se intitulam guerreiros. Guerreiros por quê? Cadê o heroísmo? Onde há bravura? Cadê a valentia? Ali só se vêem músculos, bundas, cabelos tingidos, silicones, cabeças ocas, conversas fiadas, piadas gratuitas, comentários sem nexo, modismo e uma pseudo-militância. E há quem pague para ver! Para mim ali não há, nunca houve e jamais haverá guerreiro algum, herói algum. Ali só existem oportunistas e preguiçosos. Mas eles estão crentes que são guerreiros! E com isso passam a idéia de que guerreiro ou herói é somente aquele que vence, é aquele que esmaga a cabeça de seus inimigos, é quem triunfa a preço for. Não. Os sábios gregos antigos já ensinavam que o verdadeiro herói é aquele que dá a sua vida por alguém ou por uma causa sem pensar em recompensas, sem almejar homenagens, sem esperar por aplausos. Os maiores heróis da antiguidade perderam suas vidas em nome daquilo em que acreditavam e nem sempre saíram vitoriosos, mas seus nomes ficaram imortalizados e alguns vencedores se perderam na História. Isso me lembra o caso de quando Fernando Pessoa, ainda engatinhando na literatura, ficou em segundo lugar numa espécie de concurso de textos. O segundo colocado foi o grande Pessoa, mas quem foi o primeiro? Ninguém sabe. O vencedor nem sempre é digno.

Antes de chamar esses situacionistas de heróis, Pedro Bial deveria botar a mão na consciência e se lembrar de quem realmente são nossos paladinos. E para aqueles que adoram um BBB, aí vai uma listinha, para que percebam o crime que se comete quando se nivela esses “famosos-quem?” com esses bravos homens e mulheres, guerreiros de fato:

1 - As antigas civilizações da América que se defenderam como puderam de seus algozes colonizadores.
2 - As centenas de mulheres queimadas pela Inquisição, acusadas de bruxaria (juntamente com seus gatos) simplesmente porque a Igreja via no sexo feminino a própria tradução do pecado.
3 - Jesus, que somente com suas palavras, arrebatou milhares de corações e sem derramar o sangue de ninguém, incomodou profundamente o Império Romano e mudou indelevelmente a História do mundo
4 - Siddhartha Gautama, o Buda, que se libertou dos ricos muros que o impediam de ver as mazelas do mundo, abdicou de tudo e alcançou a iluminação na intenção de abrir as mentes das pessoas e levá-las ao conhecimento.
5 - Sócrates que sob a acusação de corromper seus jovens discípulos, foi obrigado a beber cicuta, mas não retirou nenhuma palavra que disse, mantendo sua honra até o final.
6 - Francisco de Assis, que depois de uma revelação, se despojou de tudo que tinha e casou-se com a senhora pobreza, cantava as palavras do Cristo, espalhava sua alegria e contemplava a natureza.
7 - Lao-Tsé, grande pensador chinês que deu origem ao Taoísmo; entristecido com o pouco caso da sociedade de sua época recolheu-se nas montanhas do Tibet, porém seu único intuito era pregar a bondade.
8 - Gandhi que, disseminando o pacifismo, foi o grande responsável pela conquista da independência da Índia.
9 - Joana D´Arc, que ainda menina ouvia vozes santas, foi ridicularizada, acusada de louca, mas que reuniu um exército e levou os franceses à vitória sobre os ingleses em 1429. Quando capturada, foi também mandada à fogueira. Porém sua audácia e coragem nunca foram esquecidas.
10 - Maria Quitéria, valente baiana que, disfarçando-se de homem, lutou contra a coroa portuguesa pela independência do Brasil.
11 - As 103 tecelãs que morreram carbonizadas em uma fábrica em Nova Iorque em 08 de março de 1857, reivindicando melhores condições de trabalho.
12 - Anita Garibaldi, que combateu bravamente na Revolução Farroupilha e pela libertação e unificação da Itália.
13 - Machado de Assis, que tinha vários ingredientes para dar em nada, venceu preconceitos e ainda é (e será sempre) um dos maiores escritores da Língua Portuguesa.
14 - Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que mesmo pobre e doente, produziu as mais belas obras do nosso barroco, deixando-nos um legado artístico ímpar.
15 - Sêneca (um dos meus filósofos favoritos) defendia o desapego dos bens materiais e uma vida feliz longe das ostentações. Foi conselheiro do imperador Nero e tentou orientá-lo no caminho do estoicismo, mas assim como Aristóteles com seus discursos, foi injustamente acusado e condenado a cometer suicídio.
16 - Anne Frank, a adolescente alemã que viveu 25 meses escondida num porão com sua família fugindo das ameaças nazistas. Privada de qualquer conforto e liberdade, ela escrevia em seu diário seus medos e esperanças. Porém eles foram dedurados e levados a Auchwitz. Somente seu pai, Otto, sobreviveu ao campo de concentração. Hoje seus escritos são uns dos mais conhecidos registros sobre as barbáries dessa época.
17 - Madre Teresa, ganhadora do Nobel da Paz em 1975, fundadora da ordem das Missionárias da Caridade, disse ter recebido um chamado de Deus quando abandonou a docência de Geografia para se dedicar integralmente aos pobres, preocupando-se e dando atenção especialmente às crianças, velhos, cegos, leprosos e mulheres. Era também conhecida por "Santa das sarjetas".
18 - Nossos antepassados que desembarcaram no Brasil com uma mão na frente e outra atrás, mas que, com muito trabalho, conseguiram ter seu pedaço de chão, seu teto, seu pequeno negócio, e sem prejudicar ninguém (e nem se valer de esmolas do governo), constituíram, honestamente, família e patrimônio.

E os bravos de hoje, quem são? Big Brothers acéfalos? Uma bunda imensa que se sacode no carnaval? Jogadores de futebol que ao invés de honrarem seus salários, promovem orgias na Europa? Quem foi que os colocou num pedestal? Não venham só culpar a mídia por essa inversão de valores, pois se os veículos de comunicação vendem, é porque existe quem compre. Os heróis que o povo quer têm que passar pelo crivo da mídia para ter significância. Isso é deprimente. O povo deixa passar batidos os guerreiros de hoje de verdade como os ativistas e voluntários do Greenpeace, WWF, S.O.S Mata Atlântica, Projeto Tamar, que fazem uso do tempo que têm e da ajuda que quase não têm para tentar resgatar animais e plantas ameaçados de desaparecer, de recolher bichinhos maltratados, de alertar as pessoas e de fazê-las enxergar que a natureza pede socorro. Médicos sem fronteiras que se desdobram para atender pacientes nos confins mais pobres do mundo. Professores, especialmente os dos grandes centros como São Paulo, que são mal pagos, destratados, ofendidos e até agredidos, mas que ainda assim honram a profissão; ou os dos lugarejos mais miseráveis dos sertões, onde não há condição alguma de trabalho, mas eles estão lá para seus alunos. Hoje quem realmente tem bravura e coragem não tem cara, não tem nome. Talvez na Grécia antiga eles fossem lembrados em belas odes. E, no entanto, adoradores dos Big Brothers, tão burros quanto os próprios, os divinizam, os tomam como exemplos e serão igualmente efêmeros. Cada um tem o herói que merece.
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São Francisco de Assis: o homem do milênio

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

COLHEITA SEMPRE FELIZ

Sinto que há pessoas (além do blog) que não entenderam muito bem a proposta do meu texto sobre a Colheita Feliz. Ah, pelamordedeus! Será que não notaram que o texto não é para ser levado tão ao pé da letra? Quando criança eu roubava pitangas em algumas casas daqui de Garça. Hoje roubo as hortas virtuais da Colheita. Eu também jogo! Por isso me achei no direito de brincar com esse assunto.
Respeito o pensamento de todo mundo, mas só achei engraçado tantas pessoas se manifestarem irritadiças levantando a bandeira da Colheita Feliz sendo que nesse mundo há tantas outras causas mais importantes para se defender, enfim... Essa gente que leva tudo tão a sério o tempo todo tem que se cuidar: Isso dá úlcera!

OHM...


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A colheita maldita

A COLHEITA MALDITA


Antes que eu fique com algum bloqueio mental por causa desse jogo, vou logo escrever o texto que alguns amigos meus me recomendaram e pediram. Na verdade o jogo em questão não se chama Colheita Maldita, mas Colheita Feliz (a versão brasileira do Happy Harvest). O “Maldita” é por minha conta, pois o que parece ser um inocente joguinho on line, na verdade é um terrível vício que desperta o que há de pior no ser humano: ganância, inveja, ostentação.
Para aqueles que ainda não conhecem o Colheita Feliz, em resumo se trata de uma brincadeirinha do Orkut, falsamente inofensiva, onde as pessoas mantém suas fazendinhas plantando, colhendo e criando animais – e ganhando algum dinheiro com isso. Dinheiro de mentirinha, claro. Só mesmo o Silvio Santos e o Lula para darem dinheiro à toa. O visual do jogo é bonitinho, quase infantilizado; as vaquinhas, ovelhinhas, galinhas, burrinhos e porquinhos são todos “fofinhos”. As plantinhas não fazem muito sentido, pois um pé de morango tem o mesmo tamanho de um pé de manga, mas tudo bem, o que interessa é a emoção do jogo. E não exagero quando uso a palavra “emoção”, pois como eu disse, esse passatempo tão inocente é capaz de nos transformar em verdadeiros Mr. Hyde. Para começar, ganhamos dinheiro roubando nossos amigos. Ficamos à espreita em suas hortas para colher os frutos maduros e os produtos dos animais e depois vendemos as mercadorias furtadas. Mas sempre tomando cuidado para não sermos nós os roubados. Roubar pode. Ser roubado, não! Aí começa o mais fiel retrato da vida real: tornamos-nos egoístas e trapaceiros.
Depois vem a raiva por termos sido furtados, a frustração por não termos tomado a devida conta de nossas plantas e bichos. Resulta daí que passamos a ver nossos amigos como rivais e traíras em potencial. No mundo real chamamos isso de competir de forma desleal. Em seguida vem a opção de infestarmos de pragas as hortas “inimigas”. Vingança, claro. Ele vem e me rouba, se eu não posso roubá-lo, então vou prejudicá-lo. Inveja. Rancor. Sadismo.
Ainda podemos regar e limpar as plantações, usando pesticidas para matar as tiriricas e os vermes. Mas não fazemos isso porque somos bonzinhos, mas sim porque também rende algum trocado. Ou seja: não existe nenhuma boa ação desinteressada.
Quando eu entrei nesse jogo, eu imaginava que isso era coisa de criancinha. Mas a Colheita Feliz é a mais cínica tradução da máxima que diz que “o homem é o lobo do homem”. Dramas à parte, quem joga, comece a reparar nisso: você já teve inveja da plantação de algum amigo, cheia de pêssegos, limões, uvas, kiwis, pitayas e flores que você nunca conseguiu? Enquanto ele planta coisas caras e exóticas você ainda está no estágio daqueles reles nabos e cenourinhas. Você já se pegou cobiçando o curral alheio cheio de animaizinhos lindinhos que produzem uma pancada de leite, ovos, lã e mel? Enquanto isso o seu terreno está tão vazio que se o jogo tivesse som, você só teria o som do silêncio. Você já se pegou meio desbundado quando viu os cenários bacanas dos outros, com paisagens diferentes e casinhas estilosas? Ao passo que você demorou uma vida em juntar grana e se mudar daquela casa sem-graça e trocar aquele jardim zoado. Ambição total. Humildade zero.
Para quem não joga a Colheita Maldita acha que isso é puro devaneio meu, mas tenho certeza que alguma idéia assim já deve ter incomodado algum “fazendeiro”. É natural, o sentimento de competitividade é inerente no ser humano. E tem sido assim cada dia na vida, seja em algo sério como brigar por uma vaga de trabalho ou em algo mais ameno como uma pelada de fim de semana e até numa bobeira como essa Colheita Feliz.
O que eu quis mostrar com esse texto é que até mesmo nas menores coisas, diante da “ameaça do outro” e da competição, nossos instintos mais primitivos afloram. Talvez um psicólogo ou um antropólogo explique bem melhor esse fenômeno de pessoas trancadas em seus mundinhos, se roubando entre si, cobiçando, querendo que o outro se dane, ainda que esse “se dane” não seja um desejo do fundo do coração. Mas é engraçado ver que até numa brincadeirinha assim, quem pratica ilegalidades é quem mais se dá bem. Semelhança total com o mundo exterior.
Semelhança maior ainda eu senti quando, dia desses, eu invadi um laranjal alheio e não senti um pingo de culpa. Invasão em laranjal sem culpa... Já vi isso em algum lugar.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ai, que saudades daquelas garoas...

AI, QUE SAUDADES DAQUELAS GAROAS
Acompanhem esses fragmentos de mensagens orkutianas, que o meu texto vem já já:

[Eu] Como é que você conseguiu tirar fotos na sala da OSESP? Me diga! Eu levei um esporrinho da segurança só porque eu tirei uma fotinho de nada e sem flash! Ou eles estão relaxando com essa regra ou você é muito do descarado (segunda opção?)
Muito lindo lá, né? Momento Comentário-Maldoso: Nem parece que estamos no Brasil (isso me lembra Lula sobre a África) (...) Eu não me perdôo por não ter ido ao Museu da Independência, MASP, Casa das Rosas... fiquei um ano morando em Sampa, mas não dava pra ver tudo :/ Deve ser porque eu não saía da Liberdade =) (...) Quando eu fui à Osesp, acredita que eu dormi durante quase toda a apresentação? Ai que vergonha! É que eu tinha tomado uma dose cavalar de Dramin. Acordei com todo mundo batendo palmas.
[Fagner] Pra você ver como que as pessoas atrevidas vão longe... ou são expulsas da sala de concerto! Tirei mesmo!!! Só falaram que não podia quando o maestro iria entrar. Nem parece que é o Brasil mesmo, mas olha a foto que eu tirei da parte de fora, do entorno da Júlio Prestes, uma menina fumando droga e com uma boneca na mão... Há tanta desgraça lá, mas é uma cidade bonita, há alguns lugares bonitos que valem a pena. Achei pitoresco que mesmo sendo poluída (não agüentava de dor de cabeça por causa disso), de ter um trânsito louco, lixo espalhado pra tudo quanto é canto, as pessoas saem para caminhar, fazer exercícios, jogar futebol, passear. É uma cidade cheia de contrastes. Estranho, né? No domingo eles saem, vão muito longe se divertir... E nós, daqui do interior, às vezes nem saímos de casa. Quanto mais pra ir em museu, galeria, sala de concerto. Ou também pra caminhar, jogar futebol... (...) A sala São Paulo foi o lugar mais chique que você cochilou e o lugar mais chique que eu escrevi um soneto (...) Da próxima vou no Museu do Futebol... Você falou de "velharias", gosto de colecionar as minhas.[Eu] Mas no do Futebol eu fui! eeee \o/ Quando você tiver a oportunidade, vá sim! É bem moderno, mas tem uma parte de fotos antigas que é linda! E no do Imigrante também. Pra quem curte "velharia" como a gente, é uma diversão só! Ai que saudades de Sampa - eu achei que eu jamais fosse dizer isso!!! (...) Tanta gente diz que SP é a terra das disparidades e tal, mas a gente só comprova isso quando está lá. Morei num pedaço do Brás - antes redutos de italianos, portugueses e espanhóis. Lá se vêem muitos predinhos que no passado devem ter sido lindos: casarios com sacadas graciosas, colunas, portas altas de madeira com fechaduras de ferro todas trabalhadas, anjinhos e outras figuras esculpidas na fachada... um cenário até romântico. Hoje isso não passa de cortiço, lixo e pichação pra todo lado. É de dar dó e raiva ao mesmo tempo. Daí, uns minutos de metrô mais adiante, você desembarca na Paulista e dá de cara com aqueles bancos chiquérrimos com cara de Wall Street - alguns instalados em casarões dos barões do café - restaurantes e cafés que dá até vergonha de entrar, tudo limpo (quando não tem obras), um ar nova-iorquino... como pode?[Fagner] Pra você ver que a terra da realização de sonhos não é o paraíso.
Tinha visto isso, voltando do Ipiranga, passamos de frente com o Mercado Municipal e ali perto havia algo assim, casinhas antigas que deveriam ser lindas no passado e que hoje não passam de um cortiço. Parece que acertamos, mesmo com esse vácuo de cultura que há y otras cositas más, em termos nascido no interior. A vida aqui aparenta ser mais digna...

Nesse instante (11/11/09, 12:30) acabo de ter uma daquelas conversas um pouco “cabeça”, um pouco “nerd”, um tanto filosófica e outro tanto saudosista, com meu amigo Fagner. E na maioria das vezes sinto que essas conversas podem render um texto – vivo falando isso para ele. Só que dessa vez não deixei passar e o que parlamos, rendeu um texto sim! É que eu já estava incomodada com essas saudades me rondando e resolvi fazer uma espécie de declaração de paixão por São Paulo. Ainda não é declaração de amor, mas um dia quem sabe...
Sempre ouvia as pessoas falando de São Paulo, de suas belezas e perigos, terra das oportunidades, onde o dinheiro corre, lugar onde as diferenças sociais saltam aos olhos, cidade violenta, enchentes, seqüestros, sujeira. Tudo aquilo que todo mundo sabe. Então como pode alguém se apaixonar por uma cidade assim? Porque em meio a tanta desgraceira, existe uma São Paulo linda, convidativa, charmosa, inteligente, engraçada, pluralista. Não posso dizer que eu tenha incorporado uma “paulistanidade”- no meio daquela gentarada toda eu era apenas mais uma criatura vinda de algum lugarzinho tentando entender aquela confusão. E ainda não entendi, mas tentei tirar o melhor que pude de lá. Minha prima Lílian que o diga – como eu cheguei lá toda medrosa. E hoje, como sinto saudades daquele lugar com seu clima “4 em 1” (as quatro estações do ano num só dia) quando eu saía do Brás cheia de calor, chegava na República com o tempo fresco, voltava com aquele ventinho frio e ia dormir com o ar gelado.
Eu que vivi a minha vida toda entrando e saindo de casa com tanta facilidade, demorei um pouco a me habituar a sair e entrar no prédio depois de ser reconhecida pelo porteiro; ou disputar alguns centímetros dentro do metrô para ir ao centro, sendo que aqui isso se faz caminhando algumas quadras respirando um ar limpo e sem correr o risco de algum pivete nos encostar um estilete, ou fazer o sinal da cruz antes de atravessar uma rua, porque lá os motoristas não têm o mesmo sossego e tolerância que os daqui. Mas ainda assim, tenho saudades. Coisas da paixão, não tento mais entender. Sampa me ganhou justamente por esses pequenos desafios diários, que servem pra nos deixar mais alertas, mais espertos.

E Sampa também nos faz pensar. Como disse o Fagner, no mesmo espaço em que temos um lugar encantador como a Estação Júlio Prestes e a belíssima Sala São Paulo, vemos crianças se rendendo às drogas. Isso me lembra das vezes que fui ao elegante Teatro Abril e ao pitoresco Largo do Arouche, onde, ainda que veladamente, jovens se vendem em portas de casas noturnas. Ou na Praça da República, onde durante o dia artistas exibem e comercializam suas telas, esculturas e artesanatos, mas durante a noite, os mendigos “reinam”. Vi famílias desabrigadas montando barracas sob as pilastras do metrô, soube de um sujeito que se matou ao se atirar de lá e seu corpo ficou ali, estendido, esperando horas até que as autoridades competentes viessem levá-lo (e acabar com o espetáculo gratuito dos passantes), e logo ao lado as crianças de uma escolinha ficavam espiando a cena. Me habituei a ouvir sirenes da polícia e do Resgate – em Garça isso ainda gera curiosidade, mas lá isso é só mais um barulho. Aprendi a dizer NÃO às crianças mendicantes, às mães pedintes, às pesquisas de rua, aos distribuidores de panfletos e até aos perdidos em busca de informação. São Paulo nos faz indiferentes e mais duros, ainda que lutemos contra isso, mas o medo do desconhecido grita mais alto. Lá o medo e a vontade de ousar sempre andam juntos.
E aquele sentimento de contemplação sempre nos cutuca quando olhamos os prédios ora modernos, ora antigos; as praças ou lindas ou abandonadas, pensando “quem será que foi esse fulano homenageado com esse busto tão mal cuidado?”; os casarões preservados da Avenida Paulista e Higienópolis, a Catedral da Sé, a Estação da Luz (onde minha prima e eu fomos confundidas com gringas) e o maravilhoso Museu da Língua Portuguesa, os charmosíssimos cafés ao redor da Bolsa de Valores, o Pátio do Colégio, o Largo São Bento, o Mercado Municipal com suas cores, cheiros e sabores; o adorável Museu do Imigrante na Mooca, o apaixonante Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu, os milhares de programas culturais gratuitos, os diferentes estilos arquitetônicos, as livrarias, os sebos, os grafites, os monumentos, as luzes. E é claro, o meu xodó: o bairro da Liberdade. Apesar de eu não ter nenhum pingo de sangue oriental nas minhas veias, lá eu me sinto em casa. Como diz minha mãe: isso deve ser coisa de vidas passadas.
Tantas belezas, tantos contrastes, tantas experiências, aprendizados, impressões, medos, alegrias, expectativas, surpresas boas e ruins. Sampa é uma mistura de tudo e, no entanto, como bem lembrou o Fagner, somos afortunados por termos nascido em Garça onde tudo é tão comum, tão igual, tão uniforme, tão parado, mas não há no mundo o que pague tanto sossego. Viver lá é para quem tem o sangue frio, que se anestesia diante de tantos “tudos”. Viver aqui é para quem tem sangue quente, que consegue fazer de Garça a sua própria terra de realização de sonhos. Sou garcense por amor, mas aspirante a paulistana por paixão.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Baleiros, recreios e outras saudades

BALEIROS, RECREIOS
E OUTRAS SAUDADES

Dessa vez o texto teve origem numa “polêmica” saudosista debatida entre meu namorado e eu acerca de algumas guloseimas oitentistas – claro. Qual era melhor: o Azedinho Doce ou os Minichicletes Adams? Ele defendia os chicletes compridinhos, fininhos e achatados que, como o nome já diz, eram azedos e me desgostavam. Eu tomei o partido dos Minichicletes que eram mais bonitinhos justamente por serem miniaturizados. Mas aí me lembrei do meu “campeão de vendas”, o Ploc Monsters, aquele chiclete duro pra caramba, que não fazia bola e que grudava em tudo, mas que vinha com figurinhas de monstros com nome de gente. Esse sim era o mais legal porque tinha aquele “desafio” de completar o álbum logo e achar algum monstro xará de algum amigo. Guardo até hoje o álbum – incompleto, para a minha frustração – assim como os do chocolate Surpresa. Minha mãe sempre me dava um Surpresa, aquele do tigre no papel, e eu ficava louca tentando fechar a coleção de cartões de vários animais.
Outra coleção impossível de se terminar era do Ping Pong Pantanal. Tenho certeza que muitos se lembram da mania que era aquilo e de toda molecadinha batendo bafo na hora do recreio. A maior raridade de todas era uma ave chamada “noivinha”, quase ninguém tinha e quem tinha tentava vender para os mais bobinhos. E falando em recreios, isso parece uma frase dita pelo Chaves, mas uma das maiores lembranças que eu guardo da minha infância na escola são os intervalos no Hilmar Machado, justamente por causa das merendas e outros acepipes. Tinha dia que não dava para resistir e eu entrava na fila do refeitório atrás das sopas de feijão, das canjicas, dos sagus e das macarronadas – que eram servidos aqueles pratinhos de plástico azul.
Ou então comprava tranqueirinhas na cantina da Elza: aqueles pirulitos de caramelo em forma de chupeta, que demoravam hoooras para acabar; chup-chup de doce-de-leite e pipoca doce. Super nutritivo. Então, para dar um reforço no lanche, minha mãe embrulhava uns pãezinhos Seven Boys com geléia pra eu levar. Aliás, esses agrados gastronômicos nunca faltaram: geléia de Mocotó Colombo, o saudoso BrownCow, aqueles suquinhos sem nome que vinham em embalagens no formato de revólver, cacho de uva, carrinho etc, e Danfrut, aquele iogurte que vinha com pedaços de frutas no fundo. Fora meu pai que era intimado a me comprar algodão-doce toda vez que íamos ver a banda no coreto nas noites de domingo. Mas tinha que ser do branco! O rosa ele dizia que tinha muita tinta.
Eu e meus primos também consumíamos muitas outras bobagens deliciosas no bar do seu Nelson, ali bem no centro. Ainda lembro perfeitamente daquele baleiro que girava – e chiava – em cima do balcão, das tirinhas de balas Klep´s, do refrigerador cheio de Brahma Guaraná e Malt 90 e das vitrines lotadas de doces, especialmente de suspiros e marias-moles que vinham com uns brinquedinhos bem mixurucas. Certa vez pedi uma que trazia um relógio de plástico bem vagabundo e sem ponteiros do Coisa (do Quarteto Fantástico), era simplesmente horroroso, mas eu o coloquei no pulso e o exibia como se estivesse usando um legítimo Cartier.
Mas a gente se contentava com pouco e com coisas simples como fazer limonada e comer uma panelada de pipoca salpicada com Aji-no-Moto (na época, a maior novidade em termos de tempero), na calçada, como minhas primas e eu fazíamos de tarde nos fins de semana, ou fazer favores para o meu primo Fernando em troca de Suflair, assaltar o baleiro da minha vó, que vivia lotado de balas Soft (que parecia ser feita de vidro), toffee (que grudavam no papel e no dente) e as clássicas Jane e Chita, de menta e abacaxi, da Ogawa. As mesmas que ganhávamos dos Papais Noéis de porta de loja quando o comércio abria a noite na época do Natal. Mas seria uma injustiça não citar aqui as balas Banda, 7 Belo, Juquinha e Xaxá – a do gatinho. Tinha também a Mentex, que minha mãe sempre tinha na bolsa e eu pensava que era remédio.

Do popular para o “chique”, quando eu era criança, a coisa mais espetacular do mundo, quando o assunto era porcarias mastigáveis, eram os chicletes importados dos Estados Unidos e do Japão. Cada vez que algum parente de algum amigo trazia isso de fora era a maior novidade e a gente ficava todo feliz quando ganhava um mísero chicletinho de lembrança, só porque era importado! Dava status! Tínhamos até dó de mascar e guardávamos as embalagens no meio do caderno como troféus. Até hoje tenho os papéis daqueles chicletes americanos que pareciam band-aids e que vinham numa latinha e aqueles japas que vinham numa caixinha quadradinha com estampas de frutas. Hoje isso tem em todo lugar, mas naquele tempo quem levava chicletes gringos na escola, a gente falava que era riquinho. Depois apareceram aqueles do Paraguai que estouravam na boca, mas o glamour já não era mais o mesmo. Mas doces de riquinho eram mesmos as balas de leite e as Línguas de Gato da Kopenhagen. Para nós do interior, isso era coisa de outro mundo! Artigo de luxo! Atualmente isso ainda não me foge muito à regra – só ganho no meu aniversário ou no Natal.
Por outro lado tínhamos os “carne-de-vaca”: uma vez na 4ª série inventamos de fazer um amigo-secreto só de chocolates. A maioria – sem exagero! – deu e ganhou a mesma clássica caixa amarela de bombons Garoto. Que falta de imaginação. E o pior é que aquela caixa sempre tinha aqueles bombons ruinzinhos de figo e ameixa que ninguém queria e ficava empurrando para os outros. Os outros mesmos-de-sempre que não podiam faltar eram os docinhos da Dizioli que o Fofão anunciava no programa dele – como o irrecusável Dadinho, os pirulitos de caramelo do Zorro (básicos em todo aniversário), os guarda-chuvinhas da Evelyn, os cigarrinhos e as moedinhas de chocolate da Pan e as maiores vítimas de lendas urbanas sobre envenenamento: o Dipn´Lik (o dos pozinhos coloridos) e as balas Van Melle, que deixavam as mães apavoradas, pois diziam que vinham com drogas injetadas no meio.

Ainda sobre anúncios, quem é que não se lembra da memorável propaganda do Cornetto? A molecadinha cantava tentando fazer voz de tenor: “Da-me um Cornetto/muito crocante/ é più cremoso/ é da Gelato/ Cornetto sei própria Italia/ Io voglio tanto/ Corneeeto mio!”. Ainda tinham os Trapalhões fazendo merchandising do Taffman-E (a bebida do Rei Pelé), o picolé Frutilly que vinha com algum brinde impresso no palito, o Danoninho que valia por um bifinho, a bala de leite Kids – “a melhor bala que há”, o Super Nescau “energia que dá gosto”...
Acho que nem preciso mencionar como sinto falta daqueles tempos em que não havia a gulodice que há hoje, não contávamos as calorias das coisas, nossos pais sabiam a hora certa de dosar essas tranqueirinhas pra gente, quase não se ouvia falar em criança diabética ou obesa, a gente ficava contente com qualquer balinha. Era uma época em que não se usava embalagens PET. Quem queria ter refrigerante na mesa no almoço de domingo, tinha que trocar os cascos no bar ou no mercado. E não havia frasco maior que o litro “tamanho-família”, que realmente satisfazia a família! – algo inconcebível hoje em dia. Acho que sou quadrada até nesse assunto.
Enfim, sou do tempo em que Kuat era Taí, Sprite era Fanta Limão, Milkybar era Lollo, Crunch era Kri; do tempo em que se ainda sabia o que era Yopa e Chambourcy, de quando as coisas não estavam tão à vontade e ao alcance da mão, de quando não se escancarava a geladeira sem ter fome, de quando doces eram recompensas e não mimos obrigatórios e do tempo em que quando a criança não tinha cão, caçava com gato, ou seja, quando não tinha bala, comia AAS infantil!
Creio que estou com “velhice precoce”, pois é incrível como até essas coisas me dão saudades. Saudades dos sabores dos anos 80.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CLÁSSICOS DA SESSÃO DA TARDE


Ontem minha amiga Flávia me deu um mimo que foi muito mais que um presente. Foi um “passado”. Explico. Ganhei um bottom do Karatê Kid. Há coisa mais oitentista que bottom e Karatê Kid? Na verdade há, mas bastou esse pequeno agrado para que eu logo depois me visse relembrando de vários clássicos da minha infância.

A começar pelo próprio Karatê Kid. Que Van Damme que nada! Quem a gente queria ver lutando era o Daniel-San. Eu tenho certeza que muitos meninos já tentaram fazer aquela posição que ele fazia na praia – e não conseguiam. Aliás, eu acho aquela cena muito bonita (ainda que alguns achem brega): Daniel-San treinando seus golpes, sozinho na praia ao por-do-sol – fora a música-tema Glory of Love, de Peter Cetera & Chicago. E quanto às meninas, bom, só queríamos mesmo ver o rostinho lindo do Ralph Macchio. Até hoje ele conserva aquele rosto adolescente.

Assim como Matthew Broderick, que ainda exibe aquele sorriso de eterno Ferris Bueller, de Curtindo a vida adoidado – um filme que pode passar quantas vezes for que eu dou um jeito de assistir. Acho que todo adolescente (especialmente os saudosistas) já quiseram ser um pouco Ferris: acordar um dia e surtar, driblar o diretor carrasco da escola, juntar os melhores amigos, explorar as melhores coisas da vida e da cidade, quebrar a rotina, ter um dia memorável sendo apenar feliz.

Eu também já tive vontade de morar em Astoria, a bucólica cidade onde viviam os Goonies. Apesar de ser um grupo meio estereotipado, eles eram, e são até hoje, a melhor turma dos filmes. Quem nunca teve um amigo sensível, tímido e introspectivo como o Mikey, um patife como o Bocão ou o gordinho engraçado como o Bolão ou o japinha CDF como o Dado? Cada vez que escuto Goonies are good enough (da Cindy Lauper) me dá um desejo doido de fazer parte daquele grupo, sair caçando tesouros, decifrando charadas, achar um navio pirata e até fugir de mafiosos italianos super burros.

Ou então viver aventuras mais ousadas como Marty McFly que ia e vinha do futuro dentro do DeLorean, do Doc Brown. Dizem que originalmente a máquina do tempo do De volta para o futuro seria uma geladeira, mas mudaram de idéia com medo de influenciar as crianças a se fecharem nelas depois.

Bom, mas se as crianças não imitaram Marty entrando numa geladeira, certamente imitaram o Superman ao tentar voar. Pelo menos um primo meu fez isso de cima de uma antena. E não tem nada desses Clarks moderninhos não! O único Clark Kent que eu reconheço (e que muitos dizem que é um canastrão) sempre será o Christopher Reeves. Esse vai ser eternamente o melhor e mais bonito Superman.

Aliás, naquela época, as meninas ficavam naquela deliciosa dúvida platônica: quem vou namorar: Ferris, Marty McFly, Clark Kent ou Daniel-San? Podem caçoar, mas esses eram os bonitões do nosso tempo, e para mim, de todos os tempos. Os bonitões do cinema de hoje são todos iguais, não têm um pingo de graça, são fabricados para serem perfeitos e ultrapassam os limites da superficialidade. Ao contrário de um outro galã cheio de “poréns”, mas que até hoje me encanta: professor de História, Henry Jones. Ou melhor, Indiana Jones, o caçador de relíquias que enche a cara, briga com o pai, é mulherengo, tem pavor de ratos e leva muitas surras até que tudo acabe bem.

E falando em Harrison Ford, até hoje nunca consegui assistir a toda a saga de Star Wars – os geeks que me perdoem (porém tenho guardada uma recordação que, creio, poucos nerds têm: aquela famosa máscara do Darth Vader que vinha nas embalagens de Nescau!). E somente esses dias é que consegui assistir a Blade Runner. Ainda bem que foi só agora, pois se eu tivesse visto isso quando criança, com certeza eu teria ficado perturbada com aqueles replicantes e com aquela trilha sonora. Por outro lado, eu me perturbei com o Brinquedo Assassino (passei a acreditar nas lendas urbanas de bonecos amaldiçoados), a Mosca, Freddy Krueger e até os Gremlins!

Nada de filmes-cabeça! O que a gente queria era dar risada com lixinhos como Corra que a Polícia vem aí, Loucademia de Polícia ou Um tira da pesada – é impressão minha ou americanos gostam de zoar a polícia? Também queríamos ver namoricos adolescentes dando certo depois de muitos desencontros como em Namorada de aluguel, A garota de rosa schoking (com o lindinho Andrew McCarty), Gatinhas e gatões, Tuff Turf, Alguém muito especial ou O Clube dos Cinco. A gente também viu que seres de outros mundos não precisam ser necessariamente aterrorizantes: alguns eram ridículos como em Os Caça-Fantasmas e outros eram fascinantes como em História sem Fim.

Há ainda os filmes que nos faziam ter vontade de – assim que eles acabassem – colocarmos nossos collants e polainas e procurarmos uma academia de dança, como Dirty Dancing e Flashdance.

E antes que me perguntem dos filmes nacionais, eu já digo – sem culpa – que eu não assisti a muitos, pois quando eu era criança tinha na cabeça de que filme brasileiro era só sem-vergonhice, então me limitava a ver somente aqueles duzentos-e-não-sei-quantos filmes dos Trapalhões – ou “Os Tapaiões”, como minha tia conta que eu falava quando parávamos para ver os cartazes no hall do Cine São Miguel.

Que saudades dessas pequenas coisas: ver os cartazes no cinema (aquilo sim era um senhor cinema), ver a Sessão da Tarde esperando pelo café na casa da vó, achar que sabia dançar (I´ve had) the time of my life, morrer de dó do Ritchie Valens (de Lou Diamond Phillips, em La Bamba), temer um amanhã amedrontador como o de O vingador do Futuro, rir com a vigarista Oda Mae Brown, de Whoppi Goldberg em Ghost; querer viver num mundo de desenhos igual ao de Uma cilada para Roger Rabbit, aprender com tudo isso o que há de mais clichê: que no final tudo dá certo.

Como eu disse, não se tratam de filmes intelectualóides ou com mensagens altamente filosóficas. Na verdade são produtos descaradamente comerciais feitos para vender tudo quanto é tipo de tranqueira, mas que estão guardados com o maior carinho nos corações de uma geração – a geração Coca-Cola – e que mexem com nossas lembranças e que chamam de volta os nossos pirralhos interiores.

E do jeito que sou viciada em oitentismo, meu lado balzaquiana é sempre sufocado pela minha pirralhice que vive fazendo hora-extra. E viva Ferris Bueller!