quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ai, que saudades daquelas garoas...

AI, QUE SAUDADES DAQUELAS GAROAS
Acompanhem esses fragmentos de mensagens orkutianas, que o meu texto vem já já:

[Eu] Como é que você conseguiu tirar fotos na sala da OSESP? Me diga! Eu levei um esporrinho da segurança só porque eu tirei uma fotinho de nada e sem flash! Ou eles estão relaxando com essa regra ou você é muito do descarado (segunda opção?)
Muito lindo lá, né? Momento Comentário-Maldoso: Nem parece que estamos no Brasil (isso me lembra Lula sobre a África) (...) Eu não me perdôo por não ter ido ao Museu da Independência, MASP, Casa das Rosas... fiquei um ano morando em Sampa, mas não dava pra ver tudo :/ Deve ser porque eu não saía da Liberdade =) (...) Quando eu fui à Osesp, acredita que eu dormi durante quase toda a apresentação? Ai que vergonha! É que eu tinha tomado uma dose cavalar de Dramin. Acordei com todo mundo batendo palmas.
[Fagner] Pra você ver como que as pessoas atrevidas vão longe... ou são expulsas da sala de concerto! Tirei mesmo!!! Só falaram que não podia quando o maestro iria entrar. Nem parece que é o Brasil mesmo, mas olha a foto que eu tirei da parte de fora, do entorno da Júlio Prestes, uma menina fumando droga e com uma boneca na mão... Há tanta desgraça lá, mas é uma cidade bonita, há alguns lugares bonitos que valem a pena. Achei pitoresco que mesmo sendo poluída (não agüentava de dor de cabeça por causa disso), de ter um trânsito louco, lixo espalhado pra tudo quanto é canto, as pessoas saem para caminhar, fazer exercícios, jogar futebol, passear. É uma cidade cheia de contrastes. Estranho, né? No domingo eles saem, vão muito longe se divertir... E nós, daqui do interior, às vezes nem saímos de casa. Quanto mais pra ir em museu, galeria, sala de concerto. Ou também pra caminhar, jogar futebol... (...) A sala São Paulo foi o lugar mais chique que você cochilou e o lugar mais chique que eu escrevi um soneto (...) Da próxima vou no Museu do Futebol... Você falou de "velharias", gosto de colecionar as minhas.[Eu] Mas no do Futebol eu fui! eeee \o/ Quando você tiver a oportunidade, vá sim! É bem moderno, mas tem uma parte de fotos antigas que é linda! E no do Imigrante também. Pra quem curte "velharia" como a gente, é uma diversão só! Ai que saudades de Sampa - eu achei que eu jamais fosse dizer isso!!! (...) Tanta gente diz que SP é a terra das disparidades e tal, mas a gente só comprova isso quando está lá. Morei num pedaço do Brás - antes redutos de italianos, portugueses e espanhóis. Lá se vêem muitos predinhos que no passado devem ter sido lindos: casarios com sacadas graciosas, colunas, portas altas de madeira com fechaduras de ferro todas trabalhadas, anjinhos e outras figuras esculpidas na fachada... um cenário até romântico. Hoje isso não passa de cortiço, lixo e pichação pra todo lado. É de dar dó e raiva ao mesmo tempo. Daí, uns minutos de metrô mais adiante, você desembarca na Paulista e dá de cara com aqueles bancos chiquérrimos com cara de Wall Street - alguns instalados em casarões dos barões do café - restaurantes e cafés que dá até vergonha de entrar, tudo limpo (quando não tem obras), um ar nova-iorquino... como pode?[Fagner] Pra você ver que a terra da realização de sonhos não é o paraíso.
Tinha visto isso, voltando do Ipiranga, passamos de frente com o Mercado Municipal e ali perto havia algo assim, casinhas antigas que deveriam ser lindas no passado e que hoje não passam de um cortiço. Parece que acertamos, mesmo com esse vácuo de cultura que há y otras cositas más, em termos nascido no interior. A vida aqui aparenta ser mais digna...

Nesse instante (11/11/09, 12:30) acabo de ter uma daquelas conversas um pouco “cabeça”, um pouco “nerd”, um tanto filosófica e outro tanto saudosista, com meu amigo Fagner. E na maioria das vezes sinto que essas conversas podem render um texto – vivo falando isso para ele. Só que dessa vez não deixei passar e o que parlamos, rendeu um texto sim! É que eu já estava incomodada com essas saudades me rondando e resolvi fazer uma espécie de declaração de paixão por São Paulo. Ainda não é declaração de amor, mas um dia quem sabe...
Sempre ouvia as pessoas falando de São Paulo, de suas belezas e perigos, terra das oportunidades, onde o dinheiro corre, lugar onde as diferenças sociais saltam aos olhos, cidade violenta, enchentes, seqüestros, sujeira. Tudo aquilo que todo mundo sabe. Então como pode alguém se apaixonar por uma cidade assim? Porque em meio a tanta desgraceira, existe uma São Paulo linda, convidativa, charmosa, inteligente, engraçada, pluralista. Não posso dizer que eu tenha incorporado uma “paulistanidade”- no meio daquela gentarada toda eu era apenas mais uma criatura vinda de algum lugarzinho tentando entender aquela confusão. E ainda não entendi, mas tentei tirar o melhor que pude de lá. Minha prima Lílian que o diga – como eu cheguei lá toda medrosa. E hoje, como sinto saudades daquele lugar com seu clima “4 em 1” (as quatro estações do ano num só dia) quando eu saía do Brás cheia de calor, chegava na República com o tempo fresco, voltava com aquele ventinho frio e ia dormir com o ar gelado.
Eu que vivi a minha vida toda entrando e saindo de casa com tanta facilidade, demorei um pouco a me habituar a sair e entrar no prédio depois de ser reconhecida pelo porteiro; ou disputar alguns centímetros dentro do metrô para ir ao centro, sendo que aqui isso se faz caminhando algumas quadras respirando um ar limpo e sem correr o risco de algum pivete nos encostar um estilete, ou fazer o sinal da cruz antes de atravessar uma rua, porque lá os motoristas não têm o mesmo sossego e tolerância que os daqui. Mas ainda assim, tenho saudades. Coisas da paixão, não tento mais entender. Sampa me ganhou justamente por esses pequenos desafios diários, que servem pra nos deixar mais alertas, mais espertos.

E Sampa também nos faz pensar. Como disse o Fagner, no mesmo espaço em que temos um lugar encantador como a Estação Júlio Prestes e a belíssima Sala São Paulo, vemos crianças se rendendo às drogas. Isso me lembra das vezes que fui ao elegante Teatro Abril e ao pitoresco Largo do Arouche, onde, ainda que veladamente, jovens se vendem em portas de casas noturnas. Ou na Praça da República, onde durante o dia artistas exibem e comercializam suas telas, esculturas e artesanatos, mas durante a noite, os mendigos “reinam”. Vi famílias desabrigadas montando barracas sob as pilastras do metrô, soube de um sujeito que se matou ao se atirar de lá e seu corpo ficou ali, estendido, esperando horas até que as autoridades competentes viessem levá-lo (e acabar com o espetáculo gratuito dos passantes), e logo ao lado as crianças de uma escolinha ficavam espiando a cena. Me habituei a ouvir sirenes da polícia e do Resgate – em Garça isso ainda gera curiosidade, mas lá isso é só mais um barulho. Aprendi a dizer NÃO às crianças mendicantes, às mães pedintes, às pesquisas de rua, aos distribuidores de panfletos e até aos perdidos em busca de informação. São Paulo nos faz indiferentes e mais duros, ainda que lutemos contra isso, mas o medo do desconhecido grita mais alto. Lá o medo e a vontade de ousar sempre andam juntos.
E aquele sentimento de contemplação sempre nos cutuca quando olhamos os prédios ora modernos, ora antigos; as praças ou lindas ou abandonadas, pensando “quem será que foi esse fulano homenageado com esse busto tão mal cuidado?”; os casarões preservados da Avenida Paulista e Higienópolis, a Catedral da Sé, a Estação da Luz (onde minha prima e eu fomos confundidas com gringas) e o maravilhoso Museu da Língua Portuguesa, os charmosíssimos cafés ao redor da Bolsa de Valores, o Pátio do Colégio, o Largo São Bento, o Mercado Municipal com suas cores, cheiros e sabores; o adorável Museu do Imigrante na Mooca, o apaixonante Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu, os milhares de programas culturais gratuitos, os diferentes estilos arquitetônicos, as livrarias, os sebos, os grafites, os monumentos, as luzes. E é claro, o meu xodó: o bairro da Liberdade. Apesar de eu não ter nenhum pingo de sangue oriental nas minhas veias, lá eu me sinto em casa. Como diz minha mãe: isso deve ser coisa de vidas passadas.
Tantas belezas, tantos contrastes, tantas experiências, aprendizados, impressões, medos, alegrias, expectativas, surpresas boas e ruins. Sampa é uma mistura de tudo e, no entanto, como bem lembrou o Fagner, somos afortunados por termos nascido em Garça onde tudo é tão comum, tão igual, tão uniforme, tão parado, mas não há no mundo o que pague tanto sossego. Viver lá é para quem tem o sangue frio, que se anestesia diante de tantos “tudos”. Viver aqui é para quem tem sangue quente, que consegue fazer de Garça a sua própria terra de realização de sonhos. Sou garcense por amor, mas aspirante a paulistana por paixão.

Um comentário:

Fagner Roberto Sitta da Silva disse...

Adorei!!!
Agora que eu vi o tom do que eu disse sobre o tirar a foto da OSESP. Estou parecendo "moleque arteiros", do tipo:
"Fiz mesmo e faço de novo!!!" hauhauhau
Eu que tenho de agradecer por ter sido motivo para um bom texto.
Estou montando o meu também, e retocando o soneto.
Beijo, caríssima!