Terça-feira, 29 de Abril de 2008



A ADVOGADA DO TROVADOR



Quem é, entre dez, o quinto pior letrista do mundo da música? Renato Russo. Pelo menos é o que dizem as mentes brilhantes da MTV.
No programa TOP TOP (que sempre elege os dez mais ou os dez menos da música, cada semana com um tema diferente), o nosso saudoso trovador solitário apareceu nessa lista, quando nesse caso nem deveria ter sido lembrado. Vou fazer as vezes de advogada de Renato Russo (se bem que ele nem precisa, suas obras por si só já são uma boa resposta) primeiro como fã incondicional, e depois porque achei isso realmente uma injustiça.



Muitos consideram as letras do líder da Legião Urbana chatas, enfadonhas, tristes e até ininteligíveis. Até aí, tudo bem, dá pra engolir. Mas acusa-lo de escrever letras de baixa qualidade é o mesmo que assinar atestado de ignorância. Mas o que se podia esperar da ainda americanizadíssima MTV Brasil? Eles juram que buscam fazer uma programação cada vez mais brasileira, mas continuam pichando muitos de nossos artistas. E Renato Russo foi um dos mais influentes. Eu sei que é mais do mesmo dizer isso, mas ele praticamente “hipnotizou” (no bom sentido) uma geração toda. E me incluo nisso. A trilha sonora de minha adolescência foi basicamente toda feita de Legião Urbana. E qual fã de Renato nunca teve a sensação de que, quando ele compunha e interpretava suas letras, ele estava falando diretamente com cada um e sobre cada um de nós?



Renato sabia exatamente como tocar a alma dos jovens, sabia falar o que nós gostaríamos de ter falado – e não era de qualquer jeito, buscando uma rima a qualquer custo ou enchendo lingüiça com intermináveis refrões. Ele representava nossos pensamentos com poesia, com classe, com sarcasmo, com dor, com raiva, com um rancor incontido, com leveza, com carinho. Ele escreveu tudo o que eu adoraria ter escrito. Cada um de suas letras retrata com perfeição as mais diversas situações pelas quais cada um de nós passou ou ainda está por passar.



Renato tinha o dom de falar de dor e desespero (seus e dos outros) sem apelações. Eis alguns exemplos. Em Canção do Senhor da Guerra, ele descreve as barbaridades de um conflito sem sentido dessa forma: “Existe alguém esperando por você / que vai comprar a sua juventude e convence-lo a vencer (...) Uma guerra sempre avança a tecnologia / mesmo sendo guerra santa, quente, morna ou fria / Pra que exportar comida? / Se as armas dão mais lucros na exportação (...) E quando longe de casa, ferido e com frio / o inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / inventando novos jogos de guerra / e belíssimas cenas de destruição / não teremos mais problemas com a superpopulação (...) O senhor da guerra não gosta de crianças ...”. E enquanto isso, os artistas pop que tanto a nossa MTV badala, se mostram contra as guerras dizendo simplesmente que elas são uma m..., repetindo o que todo mundo fala.



Quando vim para São Paulo e dei de cara com essa paisagem tão discrepante da minha cidade natal, logo me lembrei de uma outra obra de Renato, Música Urbana 2, que com sua levada de blues, exprime com exatidão as cenas típicas de uma metrópole, seja ela qual for: “Em cima dos telhados, as antenas de TV tocam música urbana / Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana (...) O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana / E a matilha de crianças sujas no meio da rua / Música urbana (...) Os uniformes, os cartazes, cinema e os lares, favelas, coberturas, quase todos os lugares / E mais uma criança nasceu / Não há mentiras nem verdades aqui / Só há música urbana”.



Matilha de crianças. Isso parece muito cruel? Mas que outra palavra, que outro substantivo de coletividade retrataria tão bem a situação das crianças marginalizadas das grandes cidades? Pode parecer maluquice, mas penso que Renato Russo chega a dar cor às letras, e essa, definitivamente é cinza. Assim como sinto um profundo azul-escuro (com o perdão do trocadilho) quando ouço Baader-Meinhof Blues, onde ele lembra de como todo o mundo se tornou insensível diante das brutalidades, das mazelas e das tristezas alheias, de como nos fechamos dentro do nosso mundo-apartamento e que as loucuras que acontecem lá fora não nos dizem respeito, até que elas batam à nossa porta: “A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais / E você passa dia e noite e sempre vê apartamentos acesos / Tudo parece ser tão real / Mas você viu esse filme também (...) Essa justiça desafinada é tão humana e tão errada / Nós assistimos televisão também / Qual é a diferença? (...) Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber / Afinal amar o próximo é tão démodé”.



Mas para que não digam que Renato escrevia só sobre tragédias e o lado omisso das pessoas, ele também descrevia as relações de amor, com maestria. E eu tenho certeza de que muitos jovens da minha geração que ouviam Legião Urbana já escreveram ou pensaram em escrever alguma cartinha de amor com alguns trechos de suas letras. Acho impossível que nenhum adolescente dos anos 80 e 90 não tenha se apaixonado, desapaixonado, sentido a dor da saudade, do ciúme do de um fora ou a alegria de ser correspondido, ao som de músicas tão suaves como Giz: “...desenho toda a calçada / acaba o giz, tem tijolo de construção / Eu rabisco o sol que a chuva apagou / Quero que saibas que me lembro / Queria até que pudesses me ver / És parte ainda do que me faz forte / E pra ser honesto só um pouquinho infeliz...”.



Nesse pedaço, Renato faz uso de uma doce metáfora para dizer que muitas vezes ninguém é insubstituível e que sempre haverá alguma outra pessoa por surgir em nossas vidas que pode – ao menos tentar – nos fazer sarar de desilusões passadas. Pelo menos foi isso o que captei. Aliás, uma das qualidades das letras de Russo é nos dar a chance de viajar nas várias possibilidades de interpretação, é a liberdade que ele nos dá de escolhermos a “moral de história”, essa é a magia da subjetividade, um dom que somente letristas de verdade possuem.



E uma das letras que mais gosto (apesar de que é uma missão impossível decidir qual é a melhor) é de Maurício, que expressa todas as dúvidas, medos e desejos de um amor inconstante e rancoroso: “Já não sei dizer se ainda sei sentir / O meu coração já não me pertence / Já não quer mais me obedecer / Parece agora estar tão cansado quanto eu / Até pensei que era mais / Por não saber que ainda sou capaz de acreditar / Me sinto tão só / E dizem que a solidão é que me cai bem...”.



Acho que devo encerrar minha defesa por aqui. Na verdade Renato Russo nunca precisou de quem o defendesse, na qualidade de artista. Assim como tantos outros, eu não passo de uma admiradora eterna do legado que ele nos deixou, então, mais que uma defesa, eu deixo aqui meu protesto. E nesse tribunal, não cabe a nenhum de nós julgar os méritos ou as faltas de Renato. Apenas lamentar que letristas como ele sejam motivo de chacota e que boa parte da juventude de nosso país cresça resumindo sentimentos como o amor em uma única palavra: créu.

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Bem, a Terra não parou, mas São Paulo sim. Parou por algumas horas, já que paulistano não pára para quase nada. Por esses dias, na capital, não se falou em outra coisa (além do crime da menina arremessada pela janela) que não fosse o terremoto. Os noticiários de todas as emissoras de TV não paravam de comentar esse assunto, mostravam como as pessoas dos diferentes bairros reagiam, como fizeram para escapar dos prédios, o que estavam fazendo naquele momento, a explicação dos sismólogos, as conseqüências do tremor de terra, como o Brasil não está preparado para tal evento, etc, etc, etc.

A exploração a cerca disso foi tanta, que cheguei a pensar que as TV’s estivessem sofrendo do mal da falta de assunto. Pois, sinceramente, eu não vi nada demais nisso. Eu! Justo eu, uma “caipira” recém-chegada a São Paulo! Cheguei aqui na capital um dia antes do terremoto, e, como não podia ser diferente, voltamos a encarar a overdose do Caso Isabella. Como no interior existem as programações regionais, as pessoas não chegam a achar que o assunto desse crime já virou um lugar-comum, mas cá em Sampa, essa história já virou praticamente um mantra. Até que aconteceu o tremor de terra para que a agenda dos telejornais mudasse.

Mas não sou tão insensível a ponto de pensar que um terremoto na capital do Estado (assim como em outras diversas partes do Sudeste e Sul) seja banalidade, até mesmo porque isso é uma coisa que não se vê (nem se sente) todos os dias. Os sismólogos afirmam que sofremos abalos de terra diariamente, mas que são imperceptíveis. Um como este, da última terça-feira, não ocorria há cem anos.

E eu vivi para presenciar um terremoto no Brasil! Mas como eu disse, isso em nada me impressionou. Aliás, eu me impressionei pelo fato de não ter me impressionado! Tanto que achei até besteira escrever sobre isso. Quem me deu um empurrãozinho foi meu amigo Fagner Sitta. Talvez ele tenha achado interessante que se expusesse o ponto de vista de uma “garciana” a esse respeito. Afinal, quando é que nossa tranqüila e saudosa Garça vai sofrer um abalo sísmico?

Para começo de conversa, quando a tremelicação começou, eu imaginei que pudesse ser qualquer coisa, menos o que realmente foi. Estava eu, no terceiro andar de um prédio, no famoso bairro do Brás (reduto de corintianos, mas isso é assunto para uma outra conversa), sentada no sofá, jantando e esperando pela novela. Quando senti o discreto vai-e-vem, pensei que pudesse ser algum veículo muito pesado passando lá em baixo, algum grupo de crianças doidas brincando de pular aqui à nossa porta, que eu estivesse começando a passar mal, ter tonturas ou algum acesso de labirintite, ou até, vejam que absurdo: que eu estivesse exagerando na pressão da mastigação! Pensei nas coisas mais descabidas. Achei um pouco de graça, e voltei numa boa para o jantar. Achei idiotice comentar com a minha prima – com quem estou morando agora – e ela achou o mesmo (estávamos em cômodos separados quando isso aconteceu). Só mais tarde, numa das chamadas do Jornal da Globo é que fomos saber do que se tratara aquela balançadinha. Minha reação, ao contrário da maioria (tenho certeza) foi rir. Sei que é até um pecado rir numa situação assim, já que teve muita gente que se assustou de verdade, pessoas idosas tiveram que sair correndo de suas casas, paredes de hospitais apresentaram rachaduras, enfim. Isso não foi uma piada. Mas achei graça em ver como os paulistanos se apavoraram diante de um fenômeno da natureza. Acredito que deve ser a falta de ter com que se impressionar. Todos os dias os paulistanos nativos ou os recém-chegados, como eu, dão de cara com uma cidade cheia de contrastes, com prédios bem apanhados cercados por favelinhas (tal como na abertura de Duas Caras), crianças mal vestidas perambulando tarde da noite, travestis zanzando pelas esquinas, o tráfego cada vez mais alucinante, o sufoco para se conseguir entrar num metrô, a volta infernal de cada feriado – seja do interior ou do litoral, como alguns minutinhos de chuva podem transformar algumas ruas em rios, os clássicos medos de assalto e seqüestro relâmpago, a consciência de que não se pode confiar em qualquer pessoa (carinhas bonitas e um terno alinhado também podem enganar), estacionar o carro e não ter certeza se ele vai estar no mesmo lugar depois, flanelinhas mercenários, malabaristas de sinal, pichadores, trombadinhas, ar sujo, indiferença, pressa, pressa, muita pressa. Talvez isso tudo tenha feito com que os paulistanos tenham ficado anestesiados quanto às mazelas da sociedade e passem a se impressionar com os sinais da natureza.

Uma quaresmeira que desabrocha numa avenida, uma hortinha plantada numa sacada, uma maritaca que aparece entre os fios dos postes, tudo isso que para nós no interior parece tão corriqueiro, aqui vira notícia. Acho que fenômenos da natureza não causam espanto para pessoas que sempre viveram em cidades pequenas, bonitas e cercadas de verde. A natureza me fascina em todos os aspectos e provavelmente por isso mesmo esse episódio do terremoto não me deu um pingo de medo. O que me assusta ainda é estar encarando essa cidade enorme, cinza, ora encantadora, ora repulsiva. Mas que, apesar de tantas coisas, não se pode negar, uma cidade que tem de tudo. Não foi preciso que eu estivesse em países como Japão ou Chile para experimentar um tremor de terra. São Paulo até nisso se mostra cosmopolita. Em todos os sentidos.

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

MAIS 4 ANOS DE FARRA NA TERRA

O mundo vai acabar. Acho que disso muita gente desconfia, mas e a data? Dessa vez parece que vamos para o andar de cima – ou de baixo – no dia 21 de dezembro de 2012. Fiquei surpresa quando li isso, sem querer, procurando por sinopses de documentários na TV paga. Na semana passada o The History Channel exibiu mais um episódio da série “Decifrando o Passado”, desta vez falando sobre os “novos” palpites sobre o fim dos nossos dias na Terra. As teorias vêm de várias fontes, como o calendário maia, a Bíblia e o oráculo chinês. Na verdade fiquei mais irritada por ter perdido o documentário do que com a chegada do fim do mundo.

De acordo com a Wikipedia (um tipo de enciclopédia virtual super resumida para preguiçosos), o caso é o seguinte: “No dia 21 de Dezembro, final do Calendário maia, há rumores que haverá o Apocalipse ou juízo final. Os rumores indicam que a Terra e o Sol se alinharão com o centro da Via Láctea, onda há um enorme buraco negro, com isso o eixo da Terra mudará e o clima irá mudar, haverá muitos terremotos, enchentes e outras catástrofes. Cientistas já confirmaram que o alinhamento realmente acontecerá, só resta saber se o mundo irá mesmo entrar no juízo final”.

Aliás, até hoje eu tento entender que fascínio é esse que o juízo final exerce sobre as pessoas. É uma mistura de medo com um prazer estranho e curiosidade. Lembro que minha avó contava que já na sua juventude havia esse temor/encantamento por tal assunto. Já chutaram inúmeras vezes a data do último dia e numa dessas, um avião a jato cruzou o céu deixando aquela característica trilha de fumaça no céu. Pronto, o pânico estava instalado! Minha avó disse que muita gente se assustou, inclusive ela – aviões a jato eram ainda novidade, eram praticamente desconhecidos. Já saíram por aí falando que o céu estava se rasgando. Eu acho que as pessoas gostam de ter medo, deve haver alguma satisfação misteriosa no frenesi generalizado.

De tanto assistir reportagens a esse respeito, confesso que me deixei impressionar também, e já sonhei (ou melhor, “pesadelei”) várias vezes com o fim do mundo, com aquela cena clássica de um céu avermelhado de onde caíam enormes bolas de fogo, pessoas correndo apavoradas; um vendaval empoeirado, seco e quente levantava carros e destelhava casas... Se o juízo final vai realmente ser desse jeito, eu não sei, só sei que já vi essa cena demais e não estou a fim de ver ao vivo. Além disso, para que temer tanto o final dos tempos? Ainda temos mais quatro anos para aproveitar. E isso de dizer que quatro anos passam depressa é relativo: dentro desse tempo dá pra fazer uma faculdade, aprender novos idiomas, viajar bastante, fazer novos amigos, morrer de amor e dar a volta por cima, adotar um animal perdido, fazer trabalho voluntário, renovar a fé em Deus (ou seja lá qual for o nome que você queira que Ele tenha), escrever pelo menos uma poesia, descobrir qual o seu signo ascendente, passear sob a chuva, fazer luau, finalmente perceber que dinheiro não compra tudo, fazer uma tatuagem, perder a vergonha de dançar, reencontrar amizades do passado, ter a coragem de trocar um emprego rentável mas monótono pela carreira dos nossos sonhos – ainda que os lucros não sejam aquelas maravilhas, entender as loucuras de Nietzsche, formar uma nova família... Dá pra se fazer tudo aquilo que nos dê a impressão de que essa conversa de fim de mundo não passe de pura especulação.

Talvez as pessoas precisem acreditar que um dia todo mundo será julgado, como se fosse em um tribunal; que Deus, lá do alto de sua magnitude, vai apontar o dedo no nosso nariz e jogar na nossa cara todos os nossos deslizes, nossas faltas, omissões e pecados e, em seguida, vai nos aplicar castigos crudelíssimos. Não confundam! Esse não é Deus, é Zeus. Não precisamos ficar imaginando e temendo que no dia 21 de dezembro de 2012, ou seja lá que dia for, todos nós vamos presenciar o mundo se acabar. Não creio que sejamos julgados e condenados especialmente nesse dia. Somos testados a todo instante, todos os dias temos chances de nos fazer melhor. Não precisamos esperar o fim do mundo se aproximar para sermos bonzinhos e nos arrepender daquilo que fizemos ou deixamos de fazer. E tem mais: todo bonzinho é tonto. Tirem o “zinho”, sejamos simplesmente bons.
Além do que, a Terra não vai morrer de morte súbita. Ela está morrendo lentamente. Não vai ser de morte “morrida”, vai ser de morte “matada”.

Domingo, 23 de Dezembro de 2007

2008


Não vou desejar aqui toda aquela papagaiada que as pessoas costumam repetir religiosamente a cada fim de ano. Portanto, faça do seu ano novo o que você bem entender!

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Kisses, besos, kissu, baci...
Eu ainda tenho minhas dúvidas em relação à veracidade disso, mas pelo sim, pelo não...

Domingo, 18 de Novembro de 2007

EM PRIMEIRA MÃO
Minha modesta definição de crônica de jornal.

Ando com o cérebro muito preguiçoso - ou talvez eu ande dando atenção demais à outros assuntos - por isso resolvi deixar aqui a apresentação do livro do Teck - nosso vice-presidente de APEG. Ele me deu a satisfação de escrever a apresentação e, embora eu a tenha entregado bem em cima da hora, eis que ela saiu. Não sei se devia postá-la antes que o livro dele fique pronto, mas como também sei que a frequência por aqui não é das mais altas, então acho que não tem perigo...

APRESENTAÇÃO
Numa época em que se clama tanto pela valorização das artes e da cultura, textos como os deste destacado membro da Associação de Poetas e Escritores, são mais que bem vindos. Ao longo de tantos escritos, fica bem claro que Luiz Maurício, ou como nós da APEG carinhosamente chamamos – simplesmente, Teck – tem como marca, a exaltação e a valorização das artes e da cultura garcenses. Depois de praticamente uma década inteira em que Garça passou hibernando, no que se diz respeito a movimentos artísticos, eis que de alguns anos para cá, os artistas têm aparecido, reaparecido, mostrado a sua cara, e o Teck, no meio desse renascimento, ainda que despretenciosamente, inspirou e encorajou outras pessoas a escrever, expor suas idéias nas páginas dos jornais – afinal, a meu ver, fazer crônicas também é uma arte.

Posso dizer que quatro membros, em particular, foram o meu farol na APEG – e ainda o são – desde quando eu ainda nem era membro e assistia às reuniões timidamente, só por xeretice. Mas foi por observar e acompanhar os textos desses quatro poetas/escritores – Letterio Santoro, Vera Sganzela (estou sendo imparcial!), Fagner e Teck - que eu percebi que não havia motivos para temer escrever para o jornal. Dizem que o papel aceita tudo e infelizmente isso é verdade. Mas, do mesmo modo que o papel aceita inúmeras porcarias, ele também abriga idéias simples e geniais, manifestações de sentimentos que muitas vezes não expomos, críticas e apontamentos relevantes que podem até ajudar a formar a opinião das pessoas, lembranças de passagens boas e ruins que nossa cidade e nossos personagens viveram. E essa liberdade pouco tem a ver com jornalismo ou textos feitos por profissionais. Esse é o encanto das crônicas que os filhos da APEG escrevem: são descompromissados, são escritos como se estivéssemos conversando com um amigo, são saudosos, doces, resgatam a nossa História, propõem planos para o futuro, indagam o presente; e ainda que alguns tenham um “quê” de informativo, ainda assim não há a frieza de um texto puramente jornalístico. Pois até mesmo esses “informativos” e boletins são como um convite às pessoas a se interar dos rumos que a cultura de nossa cidade toma. Essa é uma das lições que este escritor sempre nos passa.

Enviar textos a um jornal, sobretudo crônicas, é não ter a obrigação de se levar a sério, é poder jogar com as idéias, é provocar, questionar, vestir um personagem, encarnar uma outra pessoa, exorcizar alguns de nossos fantasmas, pôr a boca no mundo, deixar-se levar pelas palavras que nosso coração nos dita – ainda que tenhamos a consciência de que aquilo que pusermos no papel pode tocar de várias formas o leitor. Então, o que parecia brincadeira, acaba virando exercício: escrevemos pensando como leitores. E lemos pensando como escritores. E assim, sem aquele velho medo de parecer pretensioso e metido à sabe-tudo, mais um novo cronista acaba se lapidando, ainda que não perceba. Pelo menos no meu caso, foi assim. Foi vendo textos no jornal, como os do Teck, que eu comecei a brincar de expor meus escritos.

Teck, parabéns e obrigada por ser também responsável por ter estimulado quem antes era só uma leitora, a se envolver nessa deliciosa brincadeira/arte de escrever.

Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Não é só porque é lindo. Mas porque é real...

SONETO DE SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

HIATO
Se ele, sendo quem foi, tinha seus intervalos de idéias, por que eu, sendo assim tão parva, também não os posso ter? Então, em "homenagem" aos meus lapsos (nada) criativos:

"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio
e a verdade me é revelada".
(Einstein)

Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

LIVRO DE SETEMBRO (embora já seja Outubro)
LATIDOS E MIADOS

Confesso que assim que vi a capa do livro pela primeira vez (na Feira de Leitura que houve no CSA), me interessei logo pelos contos de gatos. E foi basicamente por isso que o comprei. Claro que o que me deu ainda mais certeza de estar levando para casa um ótimo livro foi a lista de autores selecionada e organizada pelo jornalista, tradutor e escritor Flávio Moreira da Costa: Homero, Mark Twain, La Fontaine, O. Henry, Machado de Assis, Balzac, Artur Azevedo. Enfim, a lista é grande. Sinceramente eu não imaginava que houvesse tantos textos lindos, densos, profundos e apaixonantes sobre cães e gatos. E no fim das contas, acabei por me render aos contos caninos (inclusive há um textinho muito simpático de Leonardo da Vinci). Não que eu não goste de cachorros, pelo contrário, mas às vezes, por mais alegres que esses bichinhos pareçam, eles me passam um pouco de melancolia. Só que isso não faz com que eu goste menos deles. E no caso dos contos, alguns autores conseguiram traduzir exatamente esse sentimento, narrando histórias de cães companheiros, servis e obedientes aos seus donos, mesmo que estes não merecessem.

Mark Twain, mais uma vez, me prendeu. Agora foi com seu conto A História de um Cão, em que, já em sua época (entre 1835 e 1910) chamava a atenção para a crueldade das experiências com animais. A frieza e ingratidão de um homem cujo filho ainda bebê foi salvo pela cachorrinha da família parece não diferir muito do se passa hoje. Tão tocante quanto o famoso conto russo Mumu, de Ivan Turgueniêv (1818 – 1883), em que um empregado solitário de uma senhora muito rica e amarga se vê obrigado a se desfazer de sua companheirinha. Chega um ponto em que não se sabe se quem é mais servil é o cão ou o homem.

E como não podia deixar de ser, os contos felinos são bem mais alegres e engraçados. Expõem a natureza dos gatos e sua personalidade: espertos, curiosos, corajosos, desconfiados, farristas, mimados, contemplativos. Destaque para o hilário conto do americano Damon Runyon (1884 – 1946), Lillian: uma gatinha abandonada nas ruas frias de Nova Iorque, encontrada e adotada por um ator bêbado e decadente que perambula pela Broadway vivendo de pequenas apresentações. Ambos vivem de modo quase insalubre num hotel vagabundo, mas não se desgrudam. Um dia, o hotel pega fogo, e ambos se metem no meio do incêndio e “sem querer” salvam uma criança. Mas o verdadeiro motivo desse ato heróico é o que fecha de modo cômico a história – que contrasta drasticamente com o conto de Edgar Allan Poe (1809 – 1849), O gato preto, perturbador e com grande densidade psicológica, e com o romântico O gato marinheiro, de John Coleman Adams (1849 – 1922).

Mesmo para quem não cria um cão ou um gato, o livro vale muito para despertar para a importância de se ter um bichinho por perto, de que animais não são meros enfeites dentro de casa. Eles têm sentimentos quase humanos (ou mais humanos que nós), se comunicam a seu modo doce, são desinteressados, amam seu dono pelo simples prazer de amar e não se questionam o por que. Cães e gatos têm suas diferenças, mas rendem ótimas histórias – não necessariamente historinhas para crianças, mas contos com mensagens que penetram na alma. Pelo menos foi essa a sensação que tive.

Os Melhores Contos de Cães & Gatos
Organização: Flávio Moreira da Costa
Páginas: 367
Editora: Ediouro

Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte III – Da Lei do Silêncio
“Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles o resto de nós não seria bem-sucedido”
(Mark Twain)

Se não me falha a memória, a adolescência é uma época ótima, muito boa mesmo. Eu não tenho do que reclamar da minha, mas às vezes paro para observar grupos de adolescentes e me pego perguntando: “será que eu era tão idiota assim?”. Provavelmente eu tive meus momentos idiotas, mas não pelos mesmos motivos desse grupinho que achei nas inesgotáveis fontes de pérolas orkutianas. Dessa vez o centro das discussões era a Lei do Silêncio. E não estou aqui para julga-la, nem discuti-la e nem trazer à luz maiores explicações sobre isso. Mas o caso é que nosso bom e velho Lago já não é mais o mesmo.

Quando eu beirava a adolescência, as pessoas que queriam ouvir música em torno do lago ligavam o som de seus carros num volume que só elas mesmas ouviam. Não importava se era um casal de namorados, se fosse um solitário qualquer ou um grupo de amigos, todo mundo respeitava o espaço e os ouvidos alheios. Hoje, o que se vê – e só se vê, pois não se ouve nada em meio a um caos de barulhos – são competições fúteis e quase primitivas para provar quem tem o som mais potente, quem consegue chamar mais a atenção, quem consegue atrapalhar o passeio dos outros, quem tem mais mau gosto. Foram-se os fins de semana em que dizíamos para os amigos: “vamos para o lago, para conversar?”. Tudo bem, hoje ainda podemos conversar, mas ou a gente aprende a fazer leitura labial, ou aprende LIBRAS ou a comunicação não vai sair do “o quê?”, “como é?”, “o que você falou?”. Parece exagero? Talvez, mas os reis dos exageros, da intolerância e da pura ignorância são os autores dessas frases:

“éssa lei só foi criada p tirar dinheiro desse povo trabalhador. o cara junta uma graninha p coloca um sonzim p faze moral , dai os homi vai lá multa o cara !!!! e esse negocio de atrapalha kem mora lá não tm nada a ver não , só atrapalha velho !!!!”

“Absordo.
Eu acho um absordo essa lei do Silêncio, tudo bem depois das 22:00hs é proibido, mas sou contra, pois nem a tarde de domingo no lago naum pode escutar som, a cidade esta parecendo cidade de velhos, deveriam cercar a cidade e colocar na entrada "ACILO DOS VELHOS NÃO PERTUBE" ate minha tia com 60 anos gosta de ouvir um som no lago isso é impetuoso, não concordo, com a proibição, quem tem casa perto do lago e gosta de silêncio, muda... naum estrada a festa de milhares de pessoas para ficar vendo Tv, ou Dormindo, trabalho com Som e todos os salão de festa estaum com aviso de som baixo por causa dessas poessoas que quer tranquilidade. Pode contar comigo pra ser contra essa lei do silêncio!!!”

“eles saum uns tontos q só faltam calar o passarinhu q canta de manhã coitado do galo q acorda as 5 e canta...eles naum qrem q ninguém se divirta sem ser eles...muito tontos...nunca vi...eles só naum reclamam do sapato deles q faz barulho hahahaha...lokura...”

Definitivamente nossos jovens andam cada vez mais dramáticos. Eu quase me comovi. Eu não sabia que a Lei do Silêncio é o ÚNICO jeito de um trabalhador perder seu dinheiro. E se perde nesse caso, é muito bem feito. Quem dá tanta prioridade a um carro ou a um equipamento de som, merece ter prejuízo. Infeliz de quem cultiva essa mentalidade desde tão cedo. Espanta-me que um sujeito morra de dó de dar seu rico dinheirinho numa multa – que no fim das contas resulta em benefícios ao município – e seja tão mão aberta com tamanhas futilidades, como comprar mil tranqueirinhas para o som e fazer do passeio dos outros um inferno. E não querer um som insuportável na orelha não é coisa de velho, mas de gente de bom senso.

Além disso, o egoísmo desse pessoalzinho chega à estratosfera: sugerir que os moradores da região do lado se mudem, é o fim da picada! Eu, que nem moro tão perto do lago assim, não me sinto na obrigação de ouvir sertanejo, pagode, funk e axé o tempo todo e com tantos decibéis. Também não estou pondo em juízo as (infelizes) preferências musicais dessas pessoas. Querer que eles ouçam um Bach, MPB ou Rock Clássico é o mesmo que esperar por um milagre. Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas, mas promover uma verdadeira competição de som automotivo no lago, é muito egoísmo.

Alguém questionou por que as pessoas que vivem perto do lago não se mudam. Pois bem. E para onde iriam? Eis uma idéia: “essa lei e um c*** c vcs habitantes de garça querem silencio q vao todos pro cemiterio... a juventude ta ai gente nos q somos novos temos q curtir zuar e bagunçar e vcs velhos quuerem por limites nas nossas coisas vcs sao todos um c*** viu.... prende bandido ninguem vai atraz né...”. Vamos virar um bando de góticos e viver no cemitério! Enquanto isso, no NOSSO lago, no lago que é de todo mundo, um bando de acéfalos ouve as músicas mais podres do mundo. Além do que, eles insistem nessa infeliz mania de se referir aos mais velhos de forma pejorativa, em xingar a Lei do Silêncio (por isso usei asteriscos de novo) e em exaltar a beleza e a filosofia do som alto:

“se vc eh dakeles...q curtem...som automotivo...e naum apoiam essa p*** de lei que proibi som auto no seu carro...entrem nessa comu...e lute pelo nosso hobby...naum deixem isso de lado... queremos liberdade... queremos nosso hobby... lutemos pelo nosso unico ideal: curtindo um som e mandando ver...sem medoo de ser feliz. " cerveja gelada...e mulher bonita...eh o lema do som automotivo” todos nos sacudimos os pilares do paraíso”

Eu não sei como é que existe gente que espera sacudir os pilares de qualquer coisa tendo como lema “Cerveja gelada e mulher bonita”. Quanta pobreza de idéia. Quantas prioridades inúteis. Quanto dinheiro jogado no lixo. Quanto cérebro desperdiçado.
Diante disso tudo, não sei se fico indignada, se tenho dó ou se fico alarmada por constatar como anda a cabecinha de alguns dos nossos jovens garcenses. Evidente que não são todos, mas uma volta pelo lago num sábado ou domingo prova que também não são poucos. E a essa altura do texto, ainda estou forçando a memória na tentativa de responder a mim mesma se minha geração foi desse jeito, tão idiota. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não escrevíamos tão mal assim.
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Foto: Jerry Lewis, no filme "O otário"

Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

EU TAMBÉM, PESSOA...
"O gato que rola na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama"
(Fernando Pessoa)

SAUDADES DE UMA GATINHA RUIVA

Já não é a primeira vez que perco um bichano por causa de gente imbecil que nutre um prazer idiota em passar voando baixo na rua da minha casa.
Nessa madrugada perdi a doce Sinhá Moça. Mas para esses motoristas babacas isso não quer dizer nada. Porém existe a Lei do Retorno.
Prefiro pensar pelo lado bom: hoje, quem toma conta daquela linda ruivinha é São Francisco.

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

UMA PAUSA PARA A SINGELEZA DE DRUMMOND
ENTRE OS DIAS DA SEMANA
"Entre os dias da semana,
olhada à minha maneira,
de todos os mais bacana
sem dúvida é a quarta-feira".

Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte II – Surrando o Português.

Assaltaram a gramática, assassinaram a lógica.
Seqüestraram a fonética, violentaram a métrica

(Assaltaram a Gramática, por Paralamas do Sucesso)

No dia 8 deste mês, comemorou-se (?) o Dia Internacional da Alfabetização. Lembrança essa que casou perfeitamente com o segundo assunto da minha série sobre a caça às pérolas. É perfeitamente compreensível que na internet não haja uma preocupação em relação à acentuação, pontuação e ortografia. Haja vista a invenção do “internetês” – uma linguagem nova e típica de quem freqüenta assiduamente o “cyber espaço”. Uma letrinha aqui, outra li, a gente até pode deixar passar, às vezes pode ser apenas um erro de digitação, dada a pressa de como as pessoas se comunicam. Mas tem certos casos imperdoáveis. Alguns passeios em certas comunidades me bastaram para que eu visse, de um modo tragicômico, como pessoas supostamente alfabetizadas, estão dando cada vez menos sentido às frases.

Sendo filha, sobrinha e amiga de professoras, vejo de muito perto como situações como essas, matam de desgosto profissionais que penam para ensinar quem parece que não está muito a fim de aprender. Não sei se esse é o caso dos donos das seguintes pérolas. Se nunca estiveram a fim de aprender o bom Português, então estão no caminho certo. Caso contrário, colaborem com seus professores, abram suas mentes e leiam alguma coisa que preste! Posso ser chata, e talvez até seja, mas graças a Deus sou uma chata que foi alfabetizada no velho e eficiente sistema do “não aprendeu, não passou”. Nunca repeti um ano e nenhum dos meus colegas de classe também não. Deve ser porque nossas turmas eram menores, não tínhamos internet, líamos mais, não éramos mal-criados e nossos professores tinham total liberdade e apoio dos pais para nos repreender. Ainda sou da época em que aluno levava régua de pau na cabeça se enchesse muito o professor e isso era super normal. Definitivamente, certas mudanças na Educação foram como um chute no estômago dos professores, alunos e pais. Só gostaria de entender por que uma classe com 40 alunos e não duas com 20. Por que se aceita que uma criança escreva errado, desde que se entenda a idéia? Por que permitir que ela passe de ano cometendo tantas atrocidades com o idioma? Por que os professores perderam a autoridade? Por que tanta preguiça e tanta má vontade por parte dos alunos? Por que, cargas d’água, temos um presidente que incentiva a ignorância? Enquanto não temos as repostas, veremos muito disso (tentem decifrar, eu juro que não inventei nada):

“xeguei representandu!!!!! ai pesual....pa fla a verdadi eu nem conheço essa cidade...tao pouco sabia ki existia....digo isso 100 qre ofende!! mais oq me xamo atençao nessa comu...foi a fotu...ki porakazo é igual a minha..rsrs só daki d sao josé dos campos...e só conhecido comu o garça.....intao no fundo essa comu tem minha cara tbm...pq afinal eu so um garsence onorariu.....rsrsrsr....intao um abraçao pa tdos v6is..... vlwwwwwwwwwwwwwww”
Ou então:
“jah fui varias vezes no berimbau mas so no berimbau mas porq quando ia fazer trocar de mingau pra berimbal eu c escondia. atras das coisas hehehee”
(Eu “se” escondia? E o infeliz ainda ri...)
Temos ainda um sócio de um clube que diz: “Que deveria ser mais rígido o isame medico”, ou outra que lançou o tópico: “É precoseito da galera” . E no mundo do rodeio também há quem contribua: “Quem vai ser peão quando crecer?” e “ah tah certo cumpadi esses piao nao da muitu certo nao! us cara fik 4 5 segundus em cima do boi! para né tem que c uns caara miozinhu um poko!”. E sobre aquele velho discurso de não se ter nada para fazer na cidade nos fins de semana, alguém que pensa que é engraçado e que usa acento onde não precisa, listou o que tem de bom em Garça (usei asteriscos para substituir palavrões totalmente dispensáveis): “oloko pow olha só cachaçaria, dudas, kraoq, barraco, thot, compania, Texas... ops foi mals garça né? hehehe não sei, néssa b*** aqui so tem bar pow cada esquina um... puriso nem saoi aqui néssa b*** hehehehehehe bora marilia gente...”

E já que estamos no embalo, para fechar com chave de b***, uma das frases mais imbecis que eu já li: “garça preciza d uma casa d recreasão masculina!!” . Duplamente imbecil: pelos erros grotescos de ortografia e pela sugestão absurda. Se foi uma tentativa de fazer graça, esse sujeito nem passou perto de conseguir. Se falou sério, então devemos realmente ficar preocupados. De qualquer modo, eu que nem professora sou, já fico assustada diante dessas barbaridades, imagino como devem se sentir quem é encarregado de cuidar e orientar essas mentes. E saiba que, enquanto você lê esse texto, em algum lugar dessa cidade e desse país, o Português continua sendo espancado. Mas, para dar um ar menos triste a essa realidade, deixo aqui um poeminha muito simpático do mestre Drummond:
Professor
“O professor disserta
sobre o ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.

O professor vai sacudi-lo?
Vai repreende-lo?
Não.
O professor baixa a voz
Com medo de acorda-lo”.

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte I – Sobre as mulheres de Garça

Meu amigo Fagner já havia adiantado em um texto seu, que eu estava recolhendo algumas pérolas do Orkut, para usa-las posteriormente. De fato. O Orkut, decididamente é uma fonte inesgotável de surpresas – boas e más, e muito das coisas que já li me fizeram rir bastante. Pesquisei em várias comunidades relacionadas à Garça e selecionei as melhores – ou piores, depende do ponto de vista – manifestações de alguns jovens de nossa cidade, a respeito de diversos assuntos. Só quero ressaltar que, valeu a intenção por eles terem participado dos tópicos, mas bem que poderiam ter um pouco mais de respeito com a nossa surrada Língua Portuguesa e que eles precisam ler. Ler muito, para não dizerem tanta bobagem. E tais bobagens serão publicadas em doses pequenas, para não enjoar quem escreve e quem lê. E também que não sou autoridade em nada e não quero expor esses jovens pensadores ao ridículo. Eles o fazem por si mesmos.

O primeiro tópico se refere às mulheres de Garça. Alguns marmanjos escreveram reclamando de que as moças daqui não dão a devida atenção aos mancebos porque são por demais orgulhosas, porque só se interessam por quem tem um carro, dinheiro, influência. Essas coisas tão típicas que os homens adoram dizer quando são esnobados. Outros dizem que por aqui só existem barangas, e que por esse motivo devem ser umas desesperadas que saem com qualquer um. Mas esse sujeito, numa tentativa vã de melhorar a imagem das mulheres, escreveu: “... aqui nessa cidd so nao cata muié quem não quer!! pois aqui tem mulher bonita como todas as outras!! nao fis este tópico tirando as muié d garça!! so fiz para os cuecas pararem d criticar falando q Garça so tem veia e mulher feia!! bjus para todos!!!!”. A única coisa em que esse amante dos pontos de exclamação está certo é que em Garça há muitas mulheres bonitas. Mas o que ele – e muitos – tem que saber é que mulher não é muié, e que ela não deve ser catada e sim conquistada. Não somos milho para irmos à cata. Muitas de nós - prefiro acreditar - ainda gostam de conversar, trocar idéias sobre coisas aparentemente bobas do cotidiano como filmes, livros, faculdade, pretensões, valores; ainda valorizam um papo espirituoso e bem humorado (e não chulo) e aquelas gentilezas que nunca deveriam ter caído de uso como o homem se prestar a abrir a porta do carro para que a mulher entre, puxar a cadeira para que ela se sente, deixar que ela ande pela parte de dentro da calçada ou permitir que ela atravesse a porta primeiro (e disso eu não posso me queixar porque tenho quem faça isso por mim).

Na seqüência, a resposta para o “catador”: “muié até tem... mais a maioria é td metida msm... e curti mais $$... pra cata muié mesmo tem que te $$ se nao... vai fica com a sobra”. Ao adorador das reticências, o que podemos dizer? Que talvez essas meninas não sejam metidas ou orgulhosas, mas que são seletivas. Oras, todos querem o melhor pra si, e não creio que um cara com essa mentalidade seja coisa boa para alguém. É lógico que existem interesseiras que preferem um idiota motorizado a um cara legal a pé, mas gente pequena assim está presente em todos os meios, então, meu caro, não diga que só as garcenses são desse jeito. E nem todas são assim. Te garanto.

Por fim, uma última colocação sobre esse assunto: “Qem fica falando isso é por q não cata ninguem q tem umas par de gatinhas + o duro q tem umas pilantras metidas ao q não é qer dar uma de boysinha vai ver a roupa é imprestada ou p/ pagar em 10 vezes”. Tirando a cacetada na ortografia, o que deu para entender é que muitas de nós, mulheres de Garça, vivemos de aparência. Rejeitamos tantos esses pobres homens, mas no fundo não passamos de umas coitadas que usam roupas emprestadas ou compradas em prestações a perder de vista. Ou seja, quem somos nós para esnobar esses moços? É sabido que em todo lugar há quem finja ser o que não é, que existem aqueles ricos falidos que vivem de pose dizendo: “você sabe com quem está falando?”, e há as tais “boysinhas”, mas, volto a dizer, não se trata da maioria!

Chega a ser patético constatar o pensamento de homens ainda tão jovens a respeito das mulheres. Que são esnobes, pilantras, fingidas e dignas de serem catadas. Bom, se eles passaram por esse tipo de experiência, então é provável que eles não tenham procurado direito – por preguiça ou incompetência. Se só se envolveram com as tais pilantras é porque somente elas correspondem ao tratamento que recebem. Por mais que o tempo passe, a essência da mulher nunca vai mudar – e sim se apurar. Ainda gostamos das coisas mais manjadas como lembrar de certas datas, flores inesperadas, um passeio sem motivo. Por outro lado, todo esse falso testemunho contra a maioria das mulheres de Garça pode ser puro despeito. Para que as mulheres certas apareçam, basta começar a abandonar essa infeliz mentalidade de “catar”, pois como já disse Cartier: “Quem compra cópia, merece-a”.
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Foto: usei esse lindo bichano com carinha de cansado, metaforicamente. Afinal, ler tanta besteira, desanima...

Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

TRATADO (MODESTO E SUCINTO)
SOBRE A TIMIDEZ

“Sei que tento me vencer, acabar com a mudez/Quando eu chego perto, tudo esqueço/e não tenho vez/Me consolo, foi errado o momento, talvez/Mas na verdade, nada esconde essa minha timidez/ ... /E, como um raio/eu encubro, eu disfarço, eu camuflo, eu desfaço/Eu respiro bem fundo/hoje eu digo pro mundo/Mudei rosto e imagem/mas você me sorriu/Lá se foi minha coragem/Você me inibiu”
(Timidez – Biquíni Cavadão)

Desde criança ouço essa música e, principalmente na época da adolescência eu pensava que ela tinha sido feita sob medida para mim. Passei muito tempo pensando que timidez fosse uma espécie de maldição, afinal, os tímidos são vistos como fracos, medrosos, imbecis, débeis (está lá no dicionário!). Ser meio desajeitado e tímido é típico de adolescente, mas quando se começa a chegar à casa dos trinta, a gente fica meio preocupado. Por isso, sem pensar muito, comecei a rabiscar esse tipo de Tratado, na esperança de poder desmistificar para mim, para tantos tímidos e para quem não nos entende que não somos bem o que aparentamos.

Fiz isso baseada somente em experiências pessoais e observações; isso nada tem de fundo médico, não estou brincando com a psicologia, nem levantando diagnósticos – já que timidez não é doença (mas fobia social, sim). Quero apenas dizer para os extrovertidos, que nós, tímidos, não somos alienígenas. Aliás, é incrível o número de pessoas que se classificam como “patetas”, “palhaças” e “extrovertidas” em seus perfis do Orkut. Que o mundo está cheio de patetas, todos sabemos, mas o que me espanta é tanta gente admitindo que o são.

Enfim, esse projeto de Tratado nada mais tem do que o intuito de romper com uma visão distorcida da maioria e chamar os tímidos para um “levante”. Mas atenção aos oportunistas: não usem a timidez como desculpa para serem grossos. Assim vocês estarão queimando o filme de toda uma classe.

[1] Tímidos são vistos como orgulhosos, metidos e pedantes.
[2] Tímidos são, geralmente, os últimos a serem escolhidos para os times – seja de basquete, vôlei, futebol.
[3] Somos chamados de moscas-mortas, otários, CDFs, nerds.
[4] Se aproveitam dos tímidos nas filas.
[5] O aluno tímido sempre tem que emprestar o caderno para o colega engraçadão da turma copiar a matéria.
[6] Tímido evita beber (porque sabe que o mínimo que ele ingerir pode transforma-lo em outra pessoa).
[7] Tímidos são zoados quando vão tirar carteira de motorista.
[8] Temos um ataque do coração e nossas mãos transbordam um rio toda vez que precisamos apresentar um seminário, expor um trabalho, ler em público.
[9] Está provado, por pesquisa, que os tímidos ganham salários mais baixos que os extrovertidos.
[10] Os mais maldosos adoram fazer um tímido gaguejar.
[11] Tímidos raramente sabem dizer “não”.
[12] Se aproveitam dos tímidos para pedirem favores.
[13] Quando se referem a um tímido, dizem: “esse cara é estranho...”. Ou pior: “ela é anti-social”.

Mas, a quem interessar possa, existe o outro lado da moeda:

[1] Tímidos são misteriosos.
[2] Timidez também é charme.
[3] Tímidos têm um humor sarcástico e refinado.
[4] Quem fala menos e ouve mais, acumula mais sabedoria.
[5] Tímidos raramente dão vexame (uma namorada tímida é garantia de nunca ter “barraco” ou ceninhas patéticas de ciúmes).
[6] Tímidos são mais concentrados.
[7] Somos mais contemplativos – às vezes captamos mais detalhes onde a maioria não vê.
[8] O Beatle Ringo Starr era excessivamente tímido e tinha tudo para dar errado. No entanto ele é e sempre será simplesmente Ringo Starr!
[9] Outros tímidos assumidos: Woody Allen, Chico Buarque e Milton Nascimento. Precisa falar mais?
[10] Tímidos lêem mais (pelo menos os que eu conheço).
[11] Por sua discrição, tímidos são excelentes ouvintes e confidentes.
[12] Por vezes, a timidez ajuda a afastar os chatos.
[13] Se todos fossem adeptos do “oba-oba”, o mundo seria um caos.

Em suma: tímidos sofrem, mas há suas compensações. Por repetidas vezes podemos passar despercebidos na multidão, mas temos nossas peculiaridades, que no fim das contas, nos diferenciam do resto. Então, tímidos de todas as partes, não soframos por termos que nos adequar ao resto do mundo e às leis dos extrovertidos. Apenas ousemos mais, aprendamos cada vez mais com nossos tropeços (os literais e os figurados), lapidemos nossos talentos escondidos e surpreendamos o mundo! Aliás, isso me lembra uma frase de Benjamin Franklin: “Bem feito é melhor que bem dito”.

(Personagem da foto: Keitaro Urashima, de Love Hina)

LIVRO DE AGOSTO

THE "FAB 4"

Desde que me entendo por gente, sempre ouvi falar nos Beatles, sempre achei engraçadinho o jeito como eles usavam o cabelo, sempre curti Twist and shout e sempre concordei com a expressão "bons moços do rock". Resumindo: só o lado A. Só que com o tempo, com a idade e com o amadurecimemto musical (todo mundo passa por isso um dia), a gente vai percebendo outras coisas além daquelas que todo mundo repete. Beatles são muito mais do que isso. Foram revolucionários tanto na época do iê-iê-iê como na era do psicodelismo. Os "Fab Four" não eram praticamente nada separados, mas, creio eu, e com a devida licença, imagino que alguma força misteriosa lá de cima, os juntou e deu do que deu.

Como eu disse, os anos foram passando e eu fui me interessando cada vez mais por eles, até que finalmente achei um livro que explicasse um pouco a origem da banda, a vida de cada um antes, durante e depois do encontro, suas idéias, seus sentimentos, sua percepção das coisas do mundo, como evoluíram... essas coisas que todo fã quer saber. Mas, além de ter confirmado minha paixão pelos Beatles como 4, acabei por me apaixonar por John, Paul, George e Ringo individualmente. Cada um deles tem uma história de vida muito interessante - às vezes muito sofrida, outras vezes engraçada (vivendo um bairros insalubres, presenciando a separação dos pais, praticando pequenos furtos, desafiando o sistema da escola, mostrando uma inteligência e esperteza ímpares). A que mais me tocou foi a de Ringo. Era praticamente uma pessoa que tinha tudo para dar errado e que com seu jeitinho tímido e seu talento escondido virou simplesmente Ringo Starr.

E para aqueles, que como eu, pensavam que britânicos não tinham lá muito senso de humor, os Beatles, pelo menos, provam o contrário. Eu não tinha idéia de como eles eram (2 ainda são) piadistas e irônicos (ainda que com o jeito inglês de fazer graça). Adoravam dar respostas engraçadinhas aos repórteres que lhes faziam perguntas toscas:

- Ringo, por que você usa dois anéis em cada mão?
(Ringo) - Porque não posso colocá-los no nariz.
- Acha que é errado dar tamanho mau exemplo para os adolescentes, fumando da maneira que fuma?
(Ringo) - É melhor do que ser alcoólatra.

- O que acha sobre as críticas dizendo que não são muito bons?
(George) - Nós não somos.

- O que faz no quarto de hotel no intervalo entre os shows?
(George) - Patinamos no gelo.

- Que história é essa sobre uma doença anual, George?
(George) - Todo ano pego câncer.

- Como se sentem enganando o mundo inteiro?
(Ringo) - Gostamos.
(Paul) - Na verdade não estamos enganando vocês.
(George) - Só um pouquinho.
(John) - Com se sente sendo enganado?

- Toda a bajulação das garotas afeta vocês?
(John) - Quando sinto minha cabeça girar, olho para o Ringo e percebo que não somos super-homens.

- Gostam de maiôs topless?
(Ringo) - Nós os usamos há muitos anos.

- O que vão fazer quando passar a beatlemania?
(John) - Contar o dinheiro.

Enfim, para não alongar muito essa conversa, só tenho a declarar que Beatles vão muito além de Love me do e de terninhos engomadinhos. Eles mostraram coisas novas ao mundo da música e não tiveram medo da transição de "meninos comportados" (coisa que nunca foram de verdade) para os místicos e psicodélicos de Sgt. Pepper's, além da criação da Apple - importante selo musical.

Livro recomendado pelo texto, pelas histórias tiradas do fundo do baú, pelo apanhado de declarações e pelas fotos.
Mas a minha busca continua...
BEATLES por eles mesmos
Pesquisa e organização: Luiz Antônio da Silva
Páginas: 175
Editora: Martin Claret

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

O QUE FALTA PARA GAA?
“Problemas nunca serão solucionados se usarmos o mesmo raciocínio que os criou”
(Albert Einstein)

De vez em quando eu faço uma visita a Comunidade de Garça no Orkut, só para constatar o que os jovens – sobretudo os adolescentes da cidade andam pensando. Alguns pensam, outros não, mas de um modo geral, existem certos tópicos que não merecem passar em branco. Por esses dias vi um com o título: “O que falta pra Garça embalar?”. A mesma pessoa que lançou a pergunta, deixou sua resposta (reproduzida com a mesma brilhante ortografia): “Aqui, na minha opinião, só o tenis presta falando de balada... O lago anda perigoso demais ultimamenteO q falta pra Garça, em termos de balada, pra cidade fikar mais completa???Bom, pra mim falta tipo um shopping mesmo, mas SHOPPING, nao essa galeria q tem aki... Um lugar grande, se bem que garça nao suporta tanta coisa... afinal nem mc donald's tem...”.

Parece que o que falta para Garça virar um lugar de “baladas” é uma questão que não vai ter fim nunca. Ou essa nova geração anda realmente muito insatisfeita, ou então Garça não tem nada. Só que, se me permitem dar um testemunho, vivi minha adolescência toda em Garça, e tanto para mim quanto para as turmas com as quais eu andava, nunca pareceu faltar coisa alguma. Evidentemente que na nossa época os bons e velhos berimbaus do Grêmio eram diferentes, andar pelo lago não representava tanto perigo quanto hoje (depois de uma determinada hora) e ainda tivemos tempo de curtir o Cine São Miguel. Isso porque ainda nem dirigíamos. Dependíamos de carona ou de nos deslocarmos a pé.

E é claro que as coisas mudam. Talvez as “baladas” de uns 15 anos atrás não se pareçam com as de hoje e não tiro de todo a razão de uma ou outra reclamação sobre ter o que fazer nos fins de semana em Garça. Só que fico me perguntando se um grande shopping ia resolver esse problema. E se sim, por quanto tempo? Não vai ser a construção de um shopping que vai transformar Garça numa referência de lazer. Quando eu era criança, eu achava o passeio num shopping o máximo – ainda que fosse o de Bauru, naquelas clássicas excursões de escola. Não sei se era porque raramente a gente ia ou porque o nome “shopping” impressionava. Mas depois o encanto se quebrou e ao meu ver, a menos que se tenha o propósito de comprar alguma coisa ou de ir ao cinema, shopping, pra mim, é sinônimo de passeio de gente sem imaginação. Vamos encarar a realidade: os jovens – em sua maioria (e eu me incluo nisso) – são uns durangos. Então, fazer o que num shopping se você não vai comprar nada? Os lojistas iriam à falência em pouco tempo, o shopping teria que fechar suas portas e tudo voltaria a ser como era. Quanto ao McDonald’s, não acho necessário tecer mais comentários, seria falar “mais do mesmo”.

Agora é minha vez de levantar uma pergunta: “O que aconteceu com a juventude, que anda tão sem criatividade?”. Ou eu estou ficando velha muito depressa ou os adolescentes de hoje só se contentam com boates – o que seria um pensamento muito limitado. Existem coisas boas para se fazer em Garça nos fins de semana, e coisas que não envolvem luz negra, gente se trombando, fumaça de cigarro na sua cara, bêbados pendurados no seu pescoço, filas intermináveis em banheiros nojentos, lasers atrapalhando a visão e um som estourando os tímpanos. Diversão não se resume em boate. Quando se vive numa cidade do interior, nada mais gostoso do que reunir uma turma de amigos – que geralmente não se vêem durante a semana – sentar numa calçada, tomar um vinho (moderadamente e para quem já é maior!), jogar conversa fora, falar bobagem, de futuro, de presente, de frustrações, de vontades, sobre “o que queremos ser quando crescer”.

Viver aqui, num lugar ainda relativamente tranqüilo, é poder andar pelas ruas sem um roteiro determinado, comer um lanche na frente da igreja, comprar uma garrafinha de qualquer coisa e ir a praça “filosofar”. É aproveitar os pores-do-sol no lago, ficar ali com os amigos até escurecer enquanto se conta histórias. É tomar um café na padaria e trocar idéias sobre música, literatura, (e até política, por que não?), sobre passagens e tempos bons que já se foram. E como se não bastasse, essa cidade ganhou de presente da natureza uma porção de quedas d’água e trilhas. E isso não é se contentar com qualquer coisa, é saber aproveitar momentos especiais com pessoas realmente relevantes que têm disposição para falar e ouvir. É ver que a vida é muito mais do que um techno na orelha; é partilhar de horas únicas com amigos de verdade, é, entre uma conversa e outra, descobrir idéias novas, conceitos diversos, é colecionar instantes preciosos que, convenhamos, boate nenhuma no mundo pode proporcionar. Então, o que falta para Garça? Gente com imaginação.

Mas voltando ao Orkut, uma outra resposta me chamou a atenção pela pobreza de sensibilidade: “enterrar e fazer uma nova cidade ou afunda td e muda pa uma cidade melhor aqui naum tem nada”. Eu não sei de tudo que Garça precisa, mas sei do que ela NÃO precisa. Eu adoro esse lugar, me sinto uma pessoa de sorte por ter nascido numa terra tão bonita e por isso me acho no direito de dizer que Garça não precisa de gente tão pequena, de verdadeiros abutres que torcem pelo pior da cidade, de pessoas amargas que não participam de modo algum da vida da comunidade e que atiram pedras em quem o faz. Garça não precisa de gente que queira enterra-la porque não é de cabeças simplistas assim que se faz o progresso de um lugar; Garça não precisa de pessoas que depredam praças, que tombam lixo na rua, que atiram papeizinhos pelas janelas dos carros, que levam cães para passear só para que eles sujem calçadas alheias. Garça não precisa de gente preguiçosa que teima em não plantar árvores, alegando que elas sujam a calçada. A cidade não precisa de jovens tontos que erguem o som do carro no último volume (sem querer fazer nenhum trocadilho, mas isso me parece mais um problema de auto-afirmação). Não precisamos de gente egoísta e de má vontade que lava calçadas e carros usando mangueira, de comerciantes que sempre nos “tungam” um ou dois centavos, de alunos vândalos que ofendem professores e arrebentam carteiras e ainda dizem que a escola é que é uma porcaria. Garça não precisa de quem diga que aqui não tem nada. O lugar onde não tem nada é na cabeça de gente desse tipo, onde nem noção de Língua Portuguesa existe.

Ontem li um texto belíssimo do Fagner (amigo e membro da APEG) falando sobre um animal morto que ele encontrou em um local público – e não se trata de qualquer lugar. Não vou entrar em detalhes porque gostaria que ele publicasse o texto e eu não quero estragar a surpresa, mas só posso dizer que Garça também não precisa de pessoas que negligenciem os animais, tanto os vivos quanto os que foram mortos. Quem puder ler o texto do Fagner antes, eis o endereço: http://asasdeanjotorto.blogspot.com/.

Eu não pretendia parecer agressiva nesse texto, mas também não me importo se eu tenha sido – despretensiosamente pode ser que isso sirva para dar um toque em alguém – se bem que eu acho que pessoas tão agourentas e azedas nem devam ler jornal. Mas caso leiam, deixo-lhes uma frase ótima do escritor francês Vitor Hugo: “Os infelizes são ingratos, isso faz parte da infelicidade deles”.

Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

ESTADO DE SÍTIO”:
NOSSAS RAÍZES E NOSSA REALIDADE

Será que alguém já teve saudades de um tempo que não viveu? Alguém já sentiu aquele tipo de melancolia gostosa ao ouvir histórias de uma época ou de um lugar não conhecidos? Falando desse jeito, fica difícil explicar, mas quando se passa por uma experiência de assistir a uma peça de teatro, cujo texto é tão sensível e verdadeiro, as coisas ficam muito claras e se explicam não com palavras, mas com sensações.

Desde a última quarta-feira, dia 01, estava para escrever alguma coisa sobre a peça “Estado de Sítio”, mas – falando num bom e descarado português – fiquei enrolando, porque temia não achar as palavras certas para definir as impressões tão boas que o espetáculo me causou. Mas aí percebi que não são necessárias tantas pompas. Basta falar com a mesma simplicidade e sensibilidade com que o texto da peça foi concebido.

Quando digo que tenho saudades de um tempo não vivido, é porque os relatos das pessoas, transformados nos diálogos das personagens, foram executados com tanta delicadeza e graça, que, por alguns instantes, foi possível que nos sentíssemos inseridos naquele cenário de roça e pés de café. Ainda que algumas passagens do texto exprimissem as mazelas e os desgostos de se viver no campo, creio que todos ali se sentiram um pouco Toninho, Flor, Valdo, Amaral, Vô e Elza. Todos têm um pouco de cada um: meio românticos, meio realistas, meio sonhadores, meio sofredores, meio esperançosos. Nossos pais, avós e bisavós foram um pouco de cada uma dessas personagens. Viram no café a esperança de uma vida melhor, sofreram com os estragos das geadas, já se depararam com o desânimo por estar sob o jugo de um patrão, já quiseram cruzar a porteira para não mais voltar, já se deslumbraram com a vida na cidade. Sei de passagens assim pelos dois lados da minha família, e mesmo eu não tendo vivido essa realidade, pude, por alguns minutos, me enxergar na época dos meus avós, parar para pensar com maior profundidade nesses galhos tão fortes da minha árvore genealógica. Através dos dilemas, alegrias e tristezas das personagens, consegui me desligar do mundo lá fora e enxergar somente a história que deu origem à região, a Garça e a tantas famílias que ainda vivem aqui.

Uma deliciosa viagem no tempo, uma compreensão maior do que é a vida num “estado de sítio”, pitadas de sonhos e realidade e algumas doses de um romantismo inocente, tudo dentro de uma peça, passados em alguns minutos, mas ingredientes que só fizeram bem aos olhos e a alma. Venho através desse texto agradecer e congratular a Escola Municipal de Cultura Artística (EMCA), o grupo teatral “Evoé ou não é”, ao amigo (e ator) Bruno Antiqueira e as diretoras Susy Mey e Katya Magaly – e ao prefeito, pela intenção de se fazer real a finalização do nosso teatro. São iniciativas e trabalhos dessa natureza que mostram que Garça finalmente está voltando a ter aquela mentalidade que parecia perdida, de apreciar a arte.

Creio que desde a minha infância, a cidade não tinha grupos de teatro tão atuantes, tantas exposições, tantos novos músicos, tantos poetas e escritores tirando seus textos da gaveta. Eu, que já cheguei a presenciar cenas de gente caçoando de teatro, depreciando poesias e zombando de pinturas, fico aliviada por ver e saber que nem tudo está perdido, que ainda há quem pense que não é só porque Garça é uma cidade relativamente pequena, que tem que ficar alheia a movimentos culturais. Claro que há mentes pequenas e pobres que acreditam que cultura é coisa “das elites”. Eu só lamento por esse tipo de pensamento, mas torço para que essa caminhada em prol da disseminação da cultura não acabe nunca. Vida longa ao teatro, à poesia, às artes plásticas e à música. Bom trabalho e boa sorte aos que semeiam a cultura em Garça e sobre Garça. Como disse, certa vez, o general Tchekhov: “Canta a tua aldeia e cantarás ao mundo”.

Terça-feira, 10 de Julho de 2007

LIVRO DE JULHO


+ ROCK N' ROLL!


E falando em Dia do Rock e em Renato Russo, nada mais óbvio do que recomendar a biografia desse "bom que morreu jovem". O livro vale muito a pena não só porque trata da vida do roqueiro, mas porque menciona o surgimento da Legião Urbana, seus bastidores, o processo de concepção de algumas músicas, a rotina das turnês - destaque para a turnê do álbum V, que acabou antes da hora e provavelmente a mais sofrida para Renato em decorrência do ritmo das viagens, de já ter conhecimento de estar infectado pelo vírus HIV, pela sensação de solidão e pelas bebedeiras. Além disso, o autor - o jornalista Artur Dapieve - cita o nascimento de outras bandas, principalmente as de Brasília, que esquentaram o rock nacional com sua influência punk. O texto flui como uma onda: em alguns momentos é leve, delicado e até humorado (sobretudo quando fala da infância e adolescência de Renato), e em outros, é mais denso e tocante. O autor já começa "noticiando" a morte do líder da Legião, como se fosse num filme que começa pelo fim, e depois nos reporta ao poeta criança.

Um dos trechos que chama a atenção, no capítulo "Eles não têm respostas", conta uma cena perturbadora do pai de Renato entrando em seu quarto e dando de cara com o filho transtornado, atirando seus vários livros no chão (muitos, aliás, de filosofia). Ele, perguntando o motivo de tanta ira, ouviu: "Não adianta isso tudo aí, pai, eles não têm respostas para as minhas perguntas".

Além disso, o livro conta com ótimas fotos, alguns rascunhos e discografia da banda e de Renato.




Renato Russo - O trovador solitário
Autor: Artur Dapieve
Páginas: 188
Editora: Ediouro

Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

UMA BREVE E DESPRETENSIOSA AVALIAÇÃO SOBRE O ROCK NACIONAL

Antes de qualquer coisa só quero reforçar: vou falar sobre rock nacional mesmo! É porque toda vez que se fala de rock, logo se pensa nas bandas americanas e inglesas. Hoje não. Aproveitando que em 13/7 comemora-se o Dia do Rock, gostaria de colocar na balança a fase roqueira dos anos 80 e até um pedaço dos 90 e de hoje, no Brasil. Evidentemente que escolhi essa fase porque vi, em tempo real, o surgimento e consolidação de bandas que marcaram nosso cenário musical.

Saudosismos à parte, quem teve a sorte de crescer nos “anos das trevas”, deve se lembrar bem de como o rock estourou (sobretudo com as bandas de Brasília) e moldou – no bom sentido – toda uma geração. As letras eram mais bem trabalhadas, camufladas com um ar de inocência e irreverência, mas recheadas de mensagens de protestos, ironias, zombarias e referências à política e aos costumes.

Indo na contra-mão da maioria das meninas da minha época, eu nunca fui com a cara da Xuxa, então nunca perdi tempo com aquilo que ela chamava de música. Tive a sorte de conhecer, cedo, o que o rock nacional produzia. O primeiro contato que tive foi com Raul Seixas, no clássico Pluct Plact Zum (e ainda hoje deve ter gente que acha que isso se trata de uma musiquinha bobinha para crianças) e, depois com Legião Urbana e seu casal Eduardo e Mônica, a saga de João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo e o hino Que País é esse?. Não vou ser mentirosa e dizer que eu entendia 100% daquilo que eles falavam, mas ainda assim, o rock já havia me tocado.

Com uns 6 anos, acho, ganhei um K7 com os maiores sucessos das novas bandas: Tédio e Timidez (Biquíni Cavadão), Sonífera Ilha e Homem Primata (Titãs), Ciúme e Nós vamos invadir sua praia (Ultraje a Rigor), Louras Geladas e Rádio Pirata (RPM – aliás, qual mocinha dessa época nunca sonhou em namorar o Paulo Ricardo?), Dias de Luta e Flores em Você (IRA!), Eu não matei Joana D’Arc (Camisa de Vênus), Uma barata chamada Kafka (Inimigos do Rei). Ouvia essa fita até gastar. E ainda marcaram nossos ouvidos o Você não soube me amar (Blitz); Camila, Camila e o Astronauta de Mármore (versão malhada pela crítica, de Starman, do David Bowie, feita pelo Nenhum de Nós), Óculos e Vital e sua moto (Paralamas do Sucesso), Até quando esperar? (Plebe Rube), o açucarado Conquistador Barato (Léo Jaime), Rádio Blá e Me chama (Lobão) e até a banda trash Tokyo, do Supla, com sua Garota de