quinta-feira, 29 de setembro de 2011

História da Filosofia Grega - Os pré-socráticos


Resgate. Essa palavrinha define – bem resumidamente – o que essa obra significa para mim. Depois de alguns anos mergulhada nas leituras obrigatórias do curso de Comunicação Social (que também envolviam filosofia, mas de um modo mais sisudo), esse livro foi um dos primeiros que li logo que me formei e encerrei os estudos técnicos. Luciano de Crescenzo foi, se não me falha a memória, o primeiro autor a me resgatar para o mundo da leitura descompromissada e por prazer. Comecei por filosofia por razões óbvias; o fato de eu amar História (e este tipo de observação já está ficando previsível e chato) e porque acredito que conhecer os pensadores clássicos, especialmente os gregos, deve fazer parte do currículo íntimo de todo mundo. Leitura descompromissada sim, mas essencial para a construção de opiniões, pontos de vista, dialética, raciocínio, argumentação, cultura e até formação de caráter e espírito. Se filosofia clássica fosse besteira, não seria estudada e venerada até hoje; a formação do pensamento, das ciências, da literatura, das artes, o conceito de beleza, o Direito e as leis ocidentais devem muito a esses homens.

E para aqueles medrosos que fogem de filosofia, asseguro que Luciano de Crescenzo usou uma linguagem clara e altamente cativante, como raros autores conseguem fazer. Ele humaniza todos aqueles grandes vultos da História aparentemente intocáveis, as celebridades da época, mostrando-nos que eles também tinham suas manias, seus momentos de arrogância e alguns até eram meio desastrados.

Luciano de Crescenzo, napolitano nascido em 1928 é um multi-artista; formado como engenheiro, exerce os ofícios de escritor, diretor, ator, apresentador de TV, colaborador em jornais, cineasta e acabou por se mostrar um grande pesquisador e historiador. Autor bem sucedido, seus livros já foram traduzidos para 19 idiomas em 25 países, atestando o prazer que se tem em lê-los. Creio que sua trajetória literária se deva ao fato de que esse italiano domina a arte de ensinar enquanto nos distrai, de divulgar uma cultura tão rica e um universo tão fascinante quanto a filosofia grega como quem conta “causos”, com um tom por vezes irônico.

É curioso ver como esses homens tentavam decifrar os maiores mistérios do mundo usando apenas dois instrumentos: suas mentes e a natureza. Não contavam com mais nada nem com tecnologias que reduzissem suas margens de erro ou lhes poupassem tempo. Dedicavam todas as horas que tinham e que não tinham em busca da verdade.

Tales de Mileto, um dos meus pré-socráticos favoritos, que acreditava que a origem da vida se encontrava na água, errou em seus cálculos várias vezes, e ele era um engenheiro! Ele era visto como um esquisito distraído que vivia olhando as estrelas e de tanto fazer isso, acabou caindo em um poço. Era acusado de ver somente as coisas que se passavam no céu e não prestar atenção àquilo que se passava na terra. Mas diante de tantas tentativas e tropeços, ele nunca parou de calcular e nem de adorar o cenário estrelado que ele tinha sob sua cabeça.

Tales, assim como Anaximandro, Heráclito, Xenófanes, Parmênides, Empédocles, Anáxagoras, Demócrito, Protágoras e outros de seus contemporâneos, era um espírito avançado e apegado somente ao conhecimento, por isso cristalizou-se no tempo. Mas Crescenzo os expôs “humanos, demasiadamente humanos”, com o intuito de popularizar a filosofia. Creio que Crescenzo tenha um “quê” de Tales, andando e caindo em poços, na tentativa de fazer da filosofia algo popular. Sabemos que esse campo é um tanto indigesto, mas o primeiro passo foi dado, a filosofia está entre nós, está em nós. Só cai no poço quem quiser.


História da Filosofia Grega – Os pré-socráticos
Autor: Luciano de Crescenzo
Editora: Rocco
Página: 208



quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Fora da Ordem e do Progresso


História, política e aquela sensação de que ainda falta muito, muito mesmo, demais da conta, para que o Brasil entre nos eixos. Três das várias razões que me fizeram comprar essa antologia e devorá-la em um dia. Quase 400 páginas em um dia inteiro (coisa de quem ama ler ou sabe usar o tempo que sobra, ou as duas coisas) é algo que exige que eu volte a esse livro outras vezes. Livro, jornal, documento. Ás vezes tudo isso se confunde nessas páginas, onde a História do Brasil é uma constante e cujas palavras nos lembram do nascimento torto da nossa política.

Cresci num meio em que sempre foi muito falar sobre política. A casa da minha avó, sobretudo em época de eleição, era como uma pequena ágora, onde cada um tinha alguma coisa para falar, alguma notícia para discutir, algum debate para comentar. Tive sorte de sempre estar por perto para ouvir a conversa dos adultos e embora não entendesse uma porção de coisas, fui crescendo e tomando gosto pelo assunto. Talvez de uma maneira até mórbida, porque sei que os tempos românticos da política morreram na Grécia e em Roma há vários séculos. O que nos restou foram cadáveres do que um dia foi uma das mais nobres artes.

E quando essa arte chegou ao Brasil, ela já estava corrompida. E assim permaneceu. Fora da Ordem e do Progresso mostra que praticamente nada mudou desde os tempos em que éramos colônia. Autores como Machado de Assis, Bernardo Guimarães, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Lima Barreto, João do Rio, Arthur Azevedo, Ignácio de Loyola Brandão, entre outros, através de 27 contos, nos apontam que as tramóias, os interesses escusos, os favores, os “jeitinhos”, os agrados, a violência, a repressão, o povo visto e tratado como um monte de nada são ainda elementos presentes, mesmo depois dos nossos 500 anos de achamento.

Textos como a Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, em que um pai incentiva o filho a seguir os caminhos tortuosos da politicagem, ainda que tenha sido escrito em 1882, segue com um discurso muito atual. O texto O Plebiscito, de Arthur Azevedo conta do parlamentar que concorda em ser traído pela mulher, porque isso de alguma maneira vai ajudá-lo em sua carreira, o que nos mostra que nesse meio, a dignidade é um detalhe.

Segundo Império, República Velha, ditadura militar, Nova República. Fases retratadas através de personagens comuns, de gente que poderia estar dentro de nossas famílias, do nosso convívio, da nossa vizinhança. Histórias que alguns de nós provavelmente já ouvimos, de um parente que quase foi preso porque lia demais, de um conhecido cujo filho estudante apanhou em algum porão ou de um sujeito muito esperto que tratou de badalar alguém muito influente para se dar bem. A política nos rodeia o tempo todo (afinal, respirar é um ato político), por isso achei esse livro tão interessante, instigante, fascinante, viciante.

Numa data como essa, nada mais cabível do que lembrar um livro cujo título se encaixa tão bem com a nossa realidade. Sou apaixonada pela história do Brasil e acompanho mais as eleições do que Copa do Mundo, amei esse livro e sei que no fundo há quem ainda acredite que o país tem jeito, porque temos pessoas dispostas a dar um jeito nele. Mas como jornalista, estudante, leitora, cidadã e, sobretudo como eleitora, não consigo ser tão esperançosa. Ainda seguimos fora da ordem e do progresso.

Fora da Ordem e do Progresso
Autores/Organização: Luiz Ruffato e Simone Ruffato
Editora: Geração Editorial
Páginas: 397

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Shakespeare, I love you!


Ao contrário da indicação shakespiriana anterior, o envolvente suspense quase paranormal Macbeth, As alegres matronas de Windsor apresenta um enredo bem mais leve, divertido e até açucarado deste inglês pelo qual eu me apaixonei irremediavelmente.

Em 1597, William Shakespeare recebeu a incumbência de escrever “para ontem” uma peça, encomendada pela Rainha Elisabeth. 14 dias depois ele lhe apresentou essa comédia farsesca de costumes que aponta os gostos e desgostos dos relacionamentos, entre ciúmes, suspeitas, traições, artimanhas de sedução, entre outras passagens que fazem dessa obra uma de suas melhores peças e de Sir John Falstaff um de seus personagens mais queridos – ao lado do emblemático Hamlet.
Conforme o nome sugere, o caso todo se dá na cidade inglesa de Windsor e Falstaff, um gorducho azarado e falido tenta achar um meio de voltar a ter uma boa vida sem fazer esforço. Acreditando piamente que é irresistível, ele vê nas senhoras Ford e Page a saída para a sua maré de má sorte.

Ensaiando um discurso de conquista e mandando bilhetinhos através das criadas, ele pretende seduzir as duas (sem que uma saiba da outra) para depois desfrutar do dinheiro de seus maridos, dois dos homens mais ricos das redondezas. Shakespeare faz das duas amigas, mulheres espertas, e esse é um dos pontos mais bacanas da obra. As senhoras Ford e Page logo percebem as intenções interesseiras de Falstaff, que usa o mesmo texto manjado nas cartas para ambas. Assim que elas notam o embuste, partem juntas para um engraçado plano de vingança. O que se dá na sequência é uma série de cenas ótimas em que Falstaff se torna – merecidamente – vítima do cinismo das matronas, que inventam várias formas divertidas de humilhar o golpista. Ele, mesmo se vendo em situações ridículas (como na hora em que se mete num cesto de roupas sujas para se esconder do marido de uma delas), ainda acredita em seu poder de sedução.
As confusões aumentam quando o Sr. Ford, não sabendo ainda da combinação das amigas, crê que sua esposa realmente pretende traí-lo com o luxuriento mentiroso e “convida” o Sr. Page para aplicar-lhes um flagrante.
Paralela às agruras do conquistador feioso, há ainda a história da senhorita Ana Page, cantada por três rapazes, Slender, Dr. Caius e Fenton, que com suas virtudes e “senões”, disputam a atenção da moça.
 
Apesar de todas as judiações que as matronas aplicam no embusteiro, há também um certo toque fraternal mantido por Shakespeare. Mas o diferencial está sem dúvida na movimentação das cenas – talvez uma de suas obras mais “agitadas” – com diálogos afiados e situações cômicas. É uma prova de que trabalhar sob pressão funciona e Shakespeare deu, não somente à Rainha Elisabeth, mas a todos os apaixonados por literatura, um grande presente.

As alegres matronas de Windsor
Autor: William Shakespeare
Editora: L & PM Pocket
Páginas: 136



"Miau" livrinho da semana:


Em resposta àqueles que dizem que gatos não têm serventia, que só se apegam a casa e não ao dono, que são oblíquos, dúbios, traidores ou até amaldiçoados (a ignorância desconhece limites), o escritor norte-americano Sam Stall fez a delicadeza de mostrar que os felinos, ao contrário de todos esses grandes absurdos, deram sua contribuição para a História, participando de importantes episódios das ciências, artes, política, literatura e religião.

Só quem convive, adota, cria, salva e ama os gatos entende como eles gostam de seus donos e que nem por isso deixam de ser eles mesmos. Eles são a pura tradução do amor autêntico, sem amarras: o gato é livre, vai onde quer e quando quer, mas nem por isso deixa seu dono para trás. Quem estiver disposto a ter um felino deve aprender a praticar o desapego e a compreensão. Grandes lições, sem pronunciar uma palavra.
Os gatos estão na vida dos humanos desde tempos imemoriais, evoluindo também, mas alheios aos avanços do homem – seus companheiros bípedes podem tomar o rumo que quiserem desde que para eles, felinos, não lhes falte comida, areia e um lugarzinho ao sol, de preferência no alto, de onde ele pode observar o mundo. Entretanto o relacionamento entre nós e eles passou por altos e baixos: os gatos já tiveram os postos de divindades – como Bastet, a deusa gata do Egito que também habita meu quarto – até os gatos cúmplices das bruxas na Idade Média, que eram, junto com as injustiçadas mulheres, caçados e queimados. De caçadores de ratos em silos, navios e porões até amáveis companheiros de cientistas e escritores.

Ofuscados pelos feitos dos cães, os gatos se mostram mais astutos e inteligentes – convivendo com dezenas deles há tanto tempo, já notei as diferenças e sei bem do que eu e Stall falamos.
100 gatos traz uma lista de bigodudos que deram uma forcinha em várias áreas do conhecimento humano como Snowball, o gato que prendeu um assassino; Macek, o gato que brilhou no escuro; o irritante felino de Sir Isaac Newton que o inspirou a criar as portinhas para gatos; Tee Cee, o gato que previa convulsões; Muezza, a gata favorita de Maomé; Cattarina, a gatinha que tocou o coração negro de Edgar Allan Poe; Mrs. Chippy, o gato que explorou a Antártica; Félix, o primeiro gato a visitar o espaço ou até um bichano que ligou para a polícia para salvar seu dono.

Alguns, é certo, criaram algumas confusões, mas com as melhores intenções, como o gato “fornecedor” que levava pombos para matar a fome de um preso; Oscar, o gato que afundou o Bismark, navio alemão no auge da 2ª Guerra Mundial ou Cobby, o gato que roubou o coração do seu dono – literalmente.
Além dos gatos de carne e osso, cujas histórias são verídicas e belamente contadas, há ainda alguns felinos cuja origem quase se perde no tempo, mas que fizeram surgir lendas, costumes e até ícones famosos, como o maneki neko. Hoje comumente encontrado em estabelecimentos comerciais orientais como lojas, restaurantes e mercadinhos, esse bichano que segura uma moeda com uma pata e acena com a outra é símbolo de prosperidade e boa sorte. A origem da figura, embora tenha características mitológicas, também parece ser bem real e nos remete ao período Edo no Japão (1603 – 1867). Mas atualmente a cultura pop se apoderou desse símbolo transformando-o inclusive em desenhos e produtos, capturando seus traços nos dando personagens como o pokémon Meowth e a gatinha Hello Kitty.

Selvagens, deuses, bruxos, caçadores, presentes na ciência, na literatura ou no espaço, abrandando ou roubando corações, não há como não amar esse delicioso mistério da natureza, ou como define Stall: “Os gatos são um tipo misterioso de criaturas. Há mais coisas na mente deles do que nós imaginamos”.

100 gatos que mudaram a civilização – Os gatos mais influentes da História
Autor: Sam Stall
Editora: Prumo
Páginas: 248

Mulheres no Brasil Colonial


Antes que se pense o contrário, não se trata de um discurso feminista. Mas de um levantamento no mínimo justo sobre o papel das mulheres no período colonial brasileiro, tanto dentro das casas e das famílias, quanto nas ruas, nas sarjetas, nos campos e nas senzalas.
É um breve relato, sucinto e valioso que descortina o mito de que a mulher era um mero enfeite, peça de troca entre famílias, parideira ou burro de carga de seus maridos e senhores. Até eram. Mas não unicamente isso. Dentro de um contexto desfavorável, nossas mulheres coloniais fizeram muito, foram além do que imaginamos ou aprendemos nos comuns livros de História. Nossas ancestrais também tinham suas armas, seus meios, seus métodos persuasivos, essenciais para sua sobrevivência.

A obra, da historiadora, doutora e escritora Mary Del Priore, analisa, com base nos hábitos, costumes e privações as origens do machismo no Brasil, ainda tão presente em nossa realidade, e mostra que aquela máxima de mau gosto que diz que lugar de mulher é na cozinha não passa de um pensamento paupérrimo. Lugar de mulher é na História.
As mulheres escravas, negras ou índias, “estudando” o modo de agir e pensar de seus senhores, tinham seus métodos para conseguir alguma condição de vida um pouco melhor, ou um pouco menos sofrida, uma vez que a Igreja não permitia os casamentos inter-raciais. Elas eram mais diplomáticas que os homens nas relações pessoais com seus donos e tinham algum poder de convencimento sobre eles para conseguir sua liberdade ou a de seus filhos – bastardos – lhes prestando bons serviços ou suprindo certas carências que o casamento por vezes não proporcionava ao senhor de engenho. A miscigenação do povo brasileiro se deve muito a essa prática.
Assim, temos as mulheres que se mostraram grandes mães, geralmente as mais pobres, cujos companheiros eram negligentes ou inexistentes, o que aumentava ainda mais a sua luta pela vida. Isso ajuda a combater de algum modo, a imagem negativa que se tem dessas mulheres pobres e marginalizadas, tidas como mães ruins que apelavam para o infanticídio ou aborto, que eram vistas desgarradas e promíscuas. Entretanto, seu modo de sobrevivência era resultado de uma sociedade opressora e de instituições omissas. Algumas até chegavam a esses extremos, de matar seus próprios filhos, tomadas de profundo desespero, no auge do abandono.

 
Já as senhoras brancas, as esposas oficiais, eram obrigadas a tolerar a ideia de dividir seus maridos com suas escravas e suportar dentro de sua casa os rebentos, frutos dessas traições, tão constantes e até normais, naqueles tempos.
As relações de afetividade eram discretíssimas, mas havia perseguições por parte das senhoras para com as escravas preferidas de seu senhor, mas nada que fosse tão escandaloso que pudesse macular sua imagem perante os familiares e a sociedade. Mas elas tinham que engolir a seco certos “desaforos”: quando a esposa não podia dar um filho ao marido, o bastardo (negro ou índio) era então reconhecido como legítimo e passava a ser herdeiro dos bens da família.
Naqueles tempos as mães solteiras já se viam na missão de assumir uma dupla jornada de trabalho, a fim de prover o sustento e a liberdade dos filhos: quando não estavam na lida da casa grande, estavam nas ruas com seus tabuleiros de frutas e quitutes. As solteiras, viúvas e “mulheres do mundo” que tinham que assumir o papel de esteio da família e que possuíam algum bem, como gado, se embrenhavam pelas estradas em lombo de burro para negociar seus produtos. Elas eram comumente encontradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

As que iam para as cidades também precisavam se virar e algumas conseguiam escapar da prostituição. As imigrantes portuguesas podiam viver de suas costuras, da venda de doces ou sendo donas de seu próprio estabelecimento – as mais “ousadas” tinham seu comércio e ganharam certo respeito, como foi o caso da taberneira lusitana Maria Mena. As índias eram peça fundamental para a manutenção das tribos, cuidavam da alimentação e das crianças, carregavam os mantimentos e serviam como “presentes” para os portugueses e franceses. Nas cidades ou nos campos, as mulheres que possuíam conhecimento ancestral fitoterápico e que cultivavam ervas em seus quintais, sabiam de suas propriedades e as manipulavam, eram consideradas renomadas curandeiras.
Ainda que a maioria esmagadora não fosse vista como ser pensante na sociedade, fosse analfabeta, politicamente nula e praticamente invisível, sem elas nenhuma dessas estruturas – tribo, colônia, cidade – não teria vingado.
É evidente que a obra é bem mais rica do que essa descrição. É leitura obrigatória para quem, como eu, ama a História do Brasil ou para quem ainda acredita que o país foi feito apenas por grandes homens. O curso da criação da sociedade brasileira foi traçado por grandes mulheres anônimas.

Mulheres no Brasil Colonial – A mulher no imaginário social. Mãe e mulher, honra e desordem. Religiosidade e sexualidade.
Autores: Mary Del Priore
Editora: Contexto
Páginas: 95



TOCA RAUL!

“Eu sempre quis ser cantor, de rock. Foi a única música que me influenciou. Antes disso minha inclinação era a literatura. Estudava muito filosofia, literatura, e não tinha tempo para cantar profissionalmente; nunca havia pensado que a música poderia ser um veículo importantíssimo para dizer o que eu queria. Quando tomei consciência disso foi ótimo. Gosto de falar de mim. Sou individualista. O rock é o melhor ritmo para gente dizer uma porção de coisas.” (Raul Seixas)

Ainda celebrando (sempre) o Dia Mundial do Rock, faço questão de lembrar o nosso rei Raul. Bom, rei talvez não seja um título que agradaria a Raul, creio, pois genioso, era avesso a esse tipo de rapapés. O fato é que Raul é o maior e mais emblemático roqueiro do Brasil. Foi ao exterior e bebeu na fonte de músicos como Elvis (um de seus ídolos maiores) e deu um tempero nordestino a tudo o que absorveu.

Raul Santos Seixas, aparecido em Salvador em 28/6/45 e desaparecido em São Paulo em 21/8/89, acumulou, além do apelido de “Maluco Beleza”, o de “Pai do rock brasileiro”. Ao longo de seus 26 anos de carreira, Raul foi pioneiro quando misturou o rock com o baião. Let me sing, let me sing é a maior referência dessa ousada mistura.



A sua vida foi até relativamente curta, porém intensa, lotada de histórias, trabalhos, desafios e desaforos, criatividade e provocações. Muitos autores tentaram e tentam ainda hoje sintetizar tanta vivência em um livro, mas o trabalho não é fácil. Entretanto, as duas obras que li – até agora – trazem, na medida do possível um apanhado interessante sobre a vida e obra de Raulzito, o canceriano sem lar.

Organizado e ao mesmo tempo solto, Verdade Absoluta é feito de retalhos de depoimentos de pessoas (afortunadas) que conviveram com Raul e que com ele dividiram situações – ora inusitadas, ora comuns, mas que renderam citações, citações que renderam letras, que renderam músicas, que renderam algumas verdades.

Um das (várias) passagens diz que “Inspirado no anarquista francês Proudhon (1809 – 1865), depois que leu ‘Filosofia da Miséria’ e ‘Resistência ao Exército’, decidiu que não iria servir ao Exército. Também não queria prosperar. Proudhon dizia: a prosperidade é um roubo. Iria usar a música para meter a boca, reclamar: ‘Vamos ver agora quem é que vai aguentar!’”.

E um dos pontos mais bacanas do livro, além do óbvio, está nas últimas páginas, com referências organizadas de cada citação, de onde ela saiu e onde ela foi parar. Por exemplo: “Vamos ver quem é que agora vai aguentar”:
Página: 119
Origem: Disco 8 (Há 10 mil anos atrás – 1976)
Consta na música/texto: Eu também vou reclamar
Autores: Raul Seixas e Paulo Coelho

E isso acontece com todas as centenas e centenas de frases de Raul. Ou seja, aqui ele aparece destrinchado, esmiuçado, mastigado – e deliciosamente digerido.

Raul Seixas por ele mesmo foi escrito a partir de entrevistas, frases, declarações, palavras soltas, pensamentos, papéis avulsos, porém reveladores, produzidos durante sua estada por aqui, até o dia em que “o moço do disco voador” o levou. As histórias foram reunidas e organizadas pelo escritor e amigo de Seixas, Sylvio Passos, fundador do Raul Rock Club/Raul Seixas Oficial Fã-Clube. Não é exatamente uma obra autobiográfica, mas por muitas vezes a impressão que temos é que Raul fala diretamente conosco. É como se ele puxasse uma cadeira e se sentasse diante da gente e nos explicasse suas mais simples verdades: “Daí eu juntei Luiz Gonzaga com Elvis. Eu não fiz um ritmo ‘rock-baião’. Isso foi informação musical. Aconteceu! (...) O som de Let me sing, let me sing é de 56; apesar de parecer uma gozação, eu acho esta música seríssima, é apenas o início de um trabalho muito grande que eu pretendo desenvolver degrau por degrau (...) Não tenho estilo, eu tenho é muita coisa pra dizer. E digo (...) Eu creio na abertura mental que vem por aí. Até então as portas estiveram fechadas. Devagar elas vão se abrindo e nunca mais, nunca mais se fecharão”.



Raul por ele mesmo é o nome mais justo que se pode dar a essa obra, pois entre uma declaração e outra é como se ele baixasse um pouco a guarda e fizesse as vezes de um amigo mais velho e experiente que tenta nos levar à luz, ao conhecimento, à liberdade, à pedra do Gênesis, “ao segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores”, a uma verdade que está bem diante dos nossos olhos, que até podemos tocar.

Raul Seixas – A verdade absoluta – Filosofias, políticas e lutas
Autor: Mário Lucena
Editora: Mac Bel – Oficina de Letras
Páginas: 225
(acompanha CD inédito, com letras feitas para Raul, de Roberto Seixas – amigo e cover de Raulzito)

Raul Seixas por ele mesmo
Autor: Sylvio Passos
Editora: Martin Claret
Páginas: 176



quinta-feira, 7 de julho de 2011

RENATO.

Indicação de leitura
Renato Russo – o trovador solitário


Julho é o mês internacional do rock. 13 é o dia. A data comemorativa remete à primeira edição do Live Aid, em 1985, um show gigantesco que ocorreu simultaneamente em Londres (Inglaterra) e Filadélfia (Estados Unidos) e foi transmitido ao vivo pela BBC para vários países, com o intuito de chamar a atenção do mundo para o problema da fome na Etiópia. O evento contou com a participação de gênios do rock como The Who, Status Quo, Led Zeppelin, Dire Straits, Madonna, Queen, Joan Baez, David Bowie, BB King, Mick Jagger, Sting, Scorpions, U2, Paul McCartney, Phil Collins (que tocou nos dois lugares), Eric Clapton e Black Sabbath.
O rock ´n´roll, ao contrário do que muita gente (desinformada) imagina, não é feito por gente desocupada e com coisa alguma na cabeça. Os roqueiros de verdade, os autênticos, os que definitivamente nasceram para isso, são inteligentes, cultos, sensíveis, um pouco excêntricos é verdade, mas colocam sua alma naquilo que fazem e por isso o rock não morre nunca.
E em virturde desta data, nada mais óbvio do que recomendar a biografia desse “bom que morreu jovem”, e que no entanto é um dos meus imortais favoritos. A minha grande paixão da adolescência e da vida toda. Renato.
O livro vale muito a pena não só porque trata da vida do roqueiro, mas porque menciona o surgimento da Legião Urbana, seus bastidores, o processo de concepção de algumas músicas, a rotina das turnês - destaque para a turnê do álbum V, que acabou antes da hora e provavelmente foi a mais sofrida para Renato Russo em decorrência do ritmo das viagens, de ele já ter conhecimento de estar infectado pelo vírus HIV, pela sensação de solidão e abandono e pelas bebedeiras.
O jornalista Artur Dapieve, um profundo conhecedor do universo musical, pesquisador, excelente contador de histórias e dono de um texto delicioso - cita o nascimento de outras bandas, principalmente as de Brasília, que esquentaram o rock nacional com sua influência punk. O texto flui como uma onda: em alguns momentos é leve, delicado e até humorado (sobretudo quando fala da infância e adolescência de Renato), e em outros, é mais denso e tocante. O autor já começa “noticiando” a morte do líder da Legião, como se fosse num filme que começa pelo fim, e depois nos reporta ao poeta criança. Além disso, o livro conta com ótimas fotos, alguns rascunhos e discografia da banda e de Renato, que ainda teve tempo de lançar discos em inglês e italiano - Equilibrio Distante, de 1996: qualquer elogio ainda soa como algo muito pequeno para este trabalho. Capolavoro! Um dos trechos que chama a atenção, no capítulo “Eles não têm respostas”, conta uma cena perturbadora do pai de Renato entrando em seu quarto e dando de cara com o filho transtornado, atirando seus vários livros no chão (muitos, aliás, de filosofia). Ele, perguntando o motivo de tanta ira, ouviu: “Não adianta isso tudo aí, pai, eles não têm respostas para as minhas perguntas”.

Autor: Artur Dapieve
Páginas: 188
Editora: Ediouro

(Indicação requentada, mas é de coração)

Renato Russo - O trovador solitário

quinta-feira, 16 de junho de 2011

 
                   O Japão é pop!  

Com a proximidade da Festa da Cerejeira, essa página não poderia ficar alheia à cultura japonesa. Sobretudo à cultura pop, que abrange filmes, tokusatsu ou live actions (aqueles seriados de super heróis que são famosos há tempos), animes (desenhos), música (j-rock, j-pop), danças, mangás (os quadrinhos), vestimentas e vocabulário próprios e tão peculiares. Enfim, tudo o que os otakus (fãs desse universo) e saudosistas adoram e consomem (e eu me ponho no meio disso). De algumas décadas para cá o Japão passou de importador à exportador de moda e costumes, influenciando o cinema, literatura, artes e culinária. E mesmo se mostrando hoje uma nação moderna, produtiva, ágil, jovem, industrializada, urbana e globalizada, o Japão ainda mantém suas tradições, crenças, lendas, raízes e reverência por seus antepassados – um sinal de sabedoria que poucas nações cultivam.
As indicações, nesta semana e na próxima, serão dedicadas a um pouco dessa cultura contemporânea que tem tomado cada vez mais espaço nos sites, revistas e outras mídias especializadas e que é fonte de fascínio e curiosidade. Uns amam, outros nem tanto, mas com certeza é impossível ficarmos indiferentes a ela.



Indicação de filme
Neko no ongaeshi - O Reino dos Gatos

Duas razões básicas me levaram a indicar essa linda animação: minha paixão por esse universo oriental e minha adoração pelos felinos. O Reino dos Gatos é uma criação de Hayao Miyazaki, um dos mais reconhecidos e respeitados profissionais do cinema de animação japonesa, cujo trabalho ganhou projeção internacional a partir do premiado “A viagem de Chihiro”, em 2003.
O Reino dos Gatos singelamente conta a história de Haru, uma estudante preguiçosa que um dia salva um gato de atropelamento. Na mesma noite ela recebe a visita do misterioso rei dos gatos, que a convida a conhecer seu reino – um lugar mágico onde todos os animais falam e se comportam como gente. O que ela não imagina é que ela será forçada a se casar com o príncipe e assim se transformar em uma gata.
Visualmente agradável e leve – pelos tons pastéis – a animação ainda conta com uma bela trilha sonora e é o tipo de filme que chama a atenção dos públicos adulto e infantil, pois trabalha de modo lúdico uma narrativa simples com um bom ritmo e piadinhas, tudo com um toque de fábula.
Um dos pontos mais encantadores da animação é o fato de os gatos andarem sobre duas patas e elegantemente vestidos – coisa que na vida real seria impossível e desnecessário, além de absurdamente estranho, mas que no filme chega a se tornar engraçado. Outra passagem divertida é quando Haru ganha alguns presentes do rei, agradecido pela garota tê-lo salvado. Um dia ela acorda e se depara com a casa cheia de catnip (a famosa erva dos gatos), deixando os felinos da vizinhança doidões. Numa outra vez Haru abre seu armário da escola e dá de cara com centenas de ratinhos correndo embrulhados com lacinhos. Presentes típicos dos gatos que querem agradar seus benfeitores. Porém, quando Haru fica sabendo dos planos do rei de casá-la com o príncipe, a estudante procura ajuda do Barão Von Gikkingen – um autêntico gentleman, e seu companheiro Muta, um bichano gorducho. Quando este encontro se dá muitas aventuras se seguem e Haru, ao adentrar o reino, vira uma linda gatinha.
É claro que sou altamente suspeita por recomendar esta obra, mas o filme vale muito pela qualidade visual, pela bela história e por representar o melhor do cinema de animação japonesa.


Indicação de leitura
Samurai X - Rurouni Kenshin -
Crônicas de um samurai na Era Meiji

Imagino que quem não curte animês ou mangás, não vai dar importância a essa obra, mas poderia. Mais do que tratar das aventuras de um dos samurais mais famosos e queridos dos otakus, o livro ainda traz passagens importantes e verídicas a respeito da História do Japão - sobretudo durante o período em que os monarquistas tomaram a ilha, dando início à Era Meiji (lá pelos idos de 1867).
Graças à parceria entre Nobuhiro Watsuki (criador do Samurai X) e Kaoru Shizuka (historiador), o leitor pode saber um pouco mais sobre algumas tradições, fatos marcantes e hábitos do povo japonês da época. Por exemplo: foi só no começo da Era Meiji que surgiram os primeiros gyunabe-ya (restaurantes de comida ocidental), em Edo (atual Tóquio) e foi aí que eles finalmente conheceram a carne bovina. O livro explica até como ela era preparada.
Mas além das curiosidades a cerca da sociedade, economia e política japonesas, como não podia deixar de ser, o que prende mesmo é o velho dilema do samurai Kenshin Himura: o de não voltar a usar sua Sakabatou (espada com lâmina invertida) para matar as pessoas - ainda que a tentação seja grande.


No mangá original, Kenshin Himura, aos 14 anos, passou a integrar o exército monarquista, opondo-se ao xogunato (uma ditadura militar feudal), numa das épocas mais conturbadas da história do Japão. Por causa de sua frieza e habilidade com a espada, ele ganhou o apelido de “Battousai, o Retalhador”. Com o fim do conflito, Kenshin torna-se um andarilho disposto a não mais matar as pessoas. Numa dessas andanças ele conhece a jovem mestra Kaoru, que administra com dificuldades o dojo (uma espécie de academia de luta) da família. Depois conhece o “aborrecente” Yahiko e Sanosuke Sagara, um adorável vagabundo e lutador de rua. Eles acabam se tornando a sua família e é por causa deles que Kenshin decide abandonar seu lado Battousai e levar uma vida normal.
Essa novela romanceada traz duas histórias: uma é inédita, em que o livro "Viagem à Lua", de Júlio Verne, gera pequenas discussões entre os personagens - uns acham impossível que um dia o homem pise na Lua, outros preferem acreditar que sim - mas isso é só um pano de fundo para acontecimentos bem maiores, pois o livro é misteriosamente roubado e depois disso Kenshin se depara com forças remanescentes do antigo xogunato. A segunda passagem é tirada do mangá e do anime, só que contada com maior riqueza de detalhes. É sobre uma parte do passado de Sanosuke que volta para assombrá-lo e Kenshin tenta impedir o amigo de se aliar a uma tropa que pretende atacar o governo.
Samurai X tem sido um sucesso em todo o mundo, tanto o anime e os filmes quanto o mangá são instrumentos bem interessantes para conhecermos um pouco sobre o Japão antigo. Além disso, as animações têm uma das melhores trilhas sonoras dos animes com músicas impecavelmente cantada por todos os otakus – e algumas destas provavelmente serão ouvidas na Festa da Cerejeira, como Sobakasu (Judy and Mary), Tactics (The yellow monkey), Heart of sword (T.M. Revolution), It´s gonna rain (Bonnie Pink) e a minha favorita, 1/3 Junjō na Kanjō (Siam Shade).

Samurai X - Rurouni Kenshin - Crônicas de um samurai na Era Meiji
Autor(es): Nobuhiko Watsuki e Kaoru Shizuka
Editora: JBC
Páginas: 174

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Indicação de leitura
Zadig, ou o Destino – História Oriental



Voltaire, ou François-Marie Arouet (1694-1778) é um dos maiores representantes do Iluminismo, e só por isso já o adoro e o recomendo. Entretanto, é ainda um filósofo altamente irônico e sarcástico, apontando as falácias da sociedade através do riso, mostrando quão ridículos são os conservadores e intolerantes.
Suas obras de tão ácidas chegam a ser destrutivas, com o objetivo de atacar os poderosos, os invejosos, os orgulhosos, os fanáticos religiosos, enfim, os mal-amados que, envoltos em sua atmosfera antiquada, pregam o falso moralismo que lhes é tão característico.
E Voltaire, através de sua ironia “gentil” rompe com este cenário e busca novas formas de pensamento, livre, equilibrado, sensato e até bem humorado. É o tipo de pensador que me ganhou como sua fiel seguidora, logo na primeira obra sua que li. Na verdade Zadig foi a segunda. A primeira foi “Tratado sobre a Tolerância”, igualmente apaixonante e bem provocativa para quem tem a mente ainda um tanto fechada, sobretudo quanto às questões da Igreja. Por isso desta vez escolhi Zadig, a fim de evitar maiores confrontos filosóficos.

Zadig, ou o Destino não é um tratado, mas uma novela sobre um filósofo da antiga Babilônia – meio perdido no tempo e no espaço, já que Voltaire não se apega muito a detalhes de datas e mapas. O que ele quer é retratar, através de Zadig e de suas desventuras, as mazelas presentes em seu próprio cotidiano, cutucar as feridas sociais e políticas de seu tempo.
Nesta obra, em que tudo parece estar sempre perdido para Zadig, temos a impressão de que o homem não é e nunca será senhor de seu próprio destino. É como se fossemos marionetes controladas por algo bem maior, por um Destino sacana e sádico que nos leva para onde bem entende, sempre nos testando e rindo de nós. O livro é descrito por alguns estudiosos como uma “história de ortodoxia religiosa e metafísica”, ambas provocadas pela revolução moral que Voltaire plantou em Zadig – personagem com toques orientais, uma vez que o Oriente estava em pauta desde a segunda metade do século XVII. Voltaire, em 1747, “inaugurou” o gênero de contos filosóficos com esta obra, inspirando posteriormente outros gênios, como Edgar Allan Poe.

Zadig tem a noiva raptada e, ao tentar resgatá-la, tem um olho gravemente ferido. O grande médico Hermes tenta lhe dizer que ele não ficará curado, mas Zadig não dá atenção e indo ao encontro da noiva Samira, ele desafortunadamente descobre que ela detesta caolhos e que acabou se casando com o bandido que a havia sequestrado.
A partir daí a vida de Zadig passa por altos e baixos. Muitos mais baixos do que altos, aparecendo em seu caminho pessoas invejosas, dilemas morais e indivíduos ambiciosos.
Através disso, Voltaire fez uma alusão às pessoas de sua época, às arbitrariedades, à intolerância. Com isso, claro, ele colecionou ao longo de toda a sua produtiva vida literária, tanto admiradores quanto inimigos, chegando a passar duas temporadas preso na Bastilha. Ele gostava e sabia viver bem, mas tratava a todos como iguais. Não se prendeu somente à filosofia, mas produziu tragédias, romances, contos, poesias, ensaios e sátiras. Deixou também mais de 10 mil cartas, um verdadeiro baú de documentos jornalísticos.
Zadig é apenas uma das várias evidências da beleza do espírito voltaireano, despido de preconceitos, engenhoso, um pouco maligno às vezes, mas rebelde e repleto de todo o frescor do Iluminismo.

Zadig, ou o Destino pode ser lido em
www.ebooksbrasil.com.br ou www.livrosgratis.net

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MIL ANOS DE ARTE


Adriano Colangelo, italiano que vive há bastante tempo em São Paulo, tem algumas das ocupações dos meus sonhos, mas que nas quais, provavelmente nessa vida, eu não terei muito tempo de arriscar a me meter: artista plástico, músico, ensaísta, escritor, pesquisador e estudioso da obra artística de Leonardo Da Vinci e da História das civilizações orientais e ocidentais.
Passou anos viajando por grandes e pequenos lugares conhecendo e se encantando com paisagens, pessoas e culturas da América Latina, trocando ideias com antropólogos e xamans, formando dentro de si um mosaico riquíssimo de informações, percepções, mistérios e belezas.
Tomei conhecimento dele por acaso. Passeando por Campos do Jordão, parei para comprar um livro. Peguei-o, passei pelo caixa, meti-o na bolsa. Quase não o folheei, não foi preciso. O título já me bastou para saber que eu ia adorar a leitura. Já fiz muitas escolhas bobas na minha vida, mas quando a livros eu raramente me equivoco. Sem falsa modéstia, tenho um faro apurado para isso e com Mil anos de arte vi que acertei mais uma vez.
A obra trata basicamente de um resumo sobre a história da arte ocidental, levantando-se os períodos e movimentos, de acordo com os séculos, enquanto traça-se um paralelo com o nascimento e consolidação da música clássica. Diria que nesse Colangelo convida o leitor a conhecer, em rápidas pinceladas e em alguns poucos acordes, o encantador mundo das artes.
Ele não se aprofunda, não fica páginas e páginas num mesmo tema. Como eu disse, mais parece um convite ou uma degustação, é como alguém que nos mostra um lindo cartão postal e com isso aguça a nossa vontade de conhecer aquele lugar estampado ali. Afinal foi a partir de Mil anos de arte que eu passei a devorar livros sobre esse universo. E inevitavelmente caí de amores por vários de seus conterrâneos: Da Vinci, Michalangelo, Caravaggio, Rafael, Botticelli, Mantegna, Tintoretto, Cimabue, Buoninsegna, Canaletto, Bellini, Piero Della Francesca, Titian, Uccello, Veronese e até o extravagante Arcimboldo.
Isso só contanto os italianos! E homens. Pois entre os franceses, alemães, holandeses, britânicos, norte-americanos, espanhóis, hispano-americanos e brasileiros também há várias mulheres brilhantes.
O livro traz noções sobre a pintura na Idade Média, no Renascimento (meu período favorito), Barroco (inclusive o latino-americano, com destaque para as igrejas brasileiras), Rococó, Romantismo, Impressionismo, Art Nouveau, Expressionismo, Cubismo, Arte Abstrata, Futurismo, Surrealismo, Escola Bauhaus e Modernismo. Ao mesmo tempo fala sobre a música medieval, renascentista, barroca, ópera lírica, óperas francesa e russa, Beethoven, o cinema na década de 20 e o advento da música moderna.
Parece assunto demais para um livro só? Pois o delicioso mundo das artes não é nem um décimo disso. Adriano nos mostra o cartão postal. A viagem é por nossa conta.

Mil anos de arte
Autor: Adrinano Colangelo
Editora: Cultrix
Páginas: 117

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FLORBELA ESPANCA

Sonetos



- Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 21/04/11 -

Uma vez eu disse a uns amigos: “Eu queria ser como Florbela Espanca, menos na parte em que ela se mata no dia do aniversário”. Isso porque Florbela é um dos maiores nomes da literatura portuguesa, uma sonetista perfeita. E uma mulher muito apaixonada, passional, dramática, visceral – percebe-se pela escolha mórbida de se encher barbitúricos na madrugada de seu 36° aniversário, em 8 de dezembro de 1930, após outras duas tentativas de suicídio. Por isso que fique bem claro que eu queria ser Florbela só sob o aspecto literário!
Sua vida repleta de inquietude, tumultos, paixões e dilemas íntimos, reflete-se em suas obras nitidamente feminilizadas, erotizadas e panteístas. Casou-se e descasou-se várias vezes, ainda jovem perdeu a mãe, sofreu um aborto, teve complicações nos ovários e pulmões, apresentou crises de neurose, seu adorado irmão morreu em um trágico acidente de avião, agrava-se sua doença mental e, em meio a esse turbilhão de eventos, Florbela jamais interrompe seus estudos e sua produção.
Este compêndio resume suas mais afamadas obras, separadas em 4 livros e todas, de algum modo, revelam os sofrimentos de Florbela, suas paixões, a solidão, seu saudosismo. Mas ao contrário do que possa parecer, seus escritos não nos contaminam com suas angústias, mexem conosco de outro modo, eles nos encantam de tal modo que acabamos por devorar esse livro na mesma hora. É claro que esse é um testemunho muito pessoal de quem admira a arte do soneto e que ao ler Florbela, chega a imaginar e ouvir sua voz com o doce e inconfundível sotaque lusitano. Elegi, com muito custo, meus sonetos favoritos: Eu, Amiga e Tédio (Livro de Mágoas – 1919), O nosso livro, Fumo e Horas rubras (Livro de Sóror Saudade – 1923), Rústica, Se tu viesses ver-me..., Ser poeta, In Memoriam (uma homenagem ao irmão, a seu “morto querido”), Árvores do Alentejo e Teus olhos (do livro Charneca em Flor – 1930), À morte e O meu soneto (Reliquiae – 1931).
Alguns críticos apontam o fato de Florbela nunca ter abordado temas humanistas ou sociais em seus escritos (que não se resumem apenas em sonetos, mas contos, epístolas, diários e textos diversos), que giravam muito em torno de si e de seu mundinho pequeno burguês. Mas o que poderia fazer uma moça, no começo do século passado, em Portugal em meio a uma sociedade ainda tão patriarcal? Ela assumia-se conservadora e até um pouco egocêntrica, e creio que, mesmo com tantos “eus” e com tantos rompantes de paixão, que até podem beirar à pieguice, nada consegue tirar a beleza e a singularidade da obra de Florbela Espanca.

Sonetos – Florbela Espanca
Coleção A obra-prima de cada autor
Editora: Martin Claret
Páginas: 128
Brás, Bexiga e Barra Funda



 - Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 15/04/11 -

A obra de Antônio Alcântara Machado, escrita em 1928, assemelha-se muito a um jornal; seus contos soam, aos olhos e ouvidos mais sensíveis e saudosos, como crônicas “fanfullescas”, como se alguma nonna ou zia estivesse nos contando histórias de nossa família ou conhecidos. 
Em Brás, Bexiga e Barra Funda, o autor resgata a São Paulo do século retrasado, quando a cidade recebia os imigrantes italianos que vinham fazer a América e suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras. Alguns permaneceram nos campos, mas os que foram para a cidade marcaram indelevelmente a história da capital paulista.
Tenho um profundo carinho por esse livro por três motivos óbvios: a ascendência, a paixão por História e o fascínio por São Paulo.
Durante os meses em que vivi no Brás, em 2008, procurei por resquícios do que um dia foi um bairro genuinamente italiano. Mas o tempo passa, as coisas mudam e o que restou da italianice de outras décadas encontramos apenas nas festas paroquianas de São Vito, Nossa Senhora Achiropita e Nossa Senhora Casaluce, ou no que sobrou das fachadas do antigo casario e corticinhos que ainda resistem a tanta transformação em torno de si.
Alguns dizem que Alcântara Machado fez quase uma “homenagem ao contrário” à comunidade ítalo-brasileira ao retratar os imigrantes como gente grosseira, briguenta e ambiciosa. Mas não consegui enxergar isso. O que vi foi gente embrutecida pelos desafios da sobrevivência em uma cidade já muito competitiva, que entrava num acelerado processo de industrialização e que abrigava povos de várias partes do velho continente – e até do Oriente.
A gente retratada por Alcântara Machado é debochada sim, é grosseira, ambiciosa, escandalosa. Mas é provável que isso se deva ao sangue fervilhante dos italianos, que explodem a todo momento mas que adoram uma confraternização; gente passional e corajosa que transformou São Paulo nos dando gerações de literatos, políticos, esportistas, artistas e industriais.
Rua Oriente, Rua Barão de Itapetininga, Praça da República, Rua do Arouche, Santa Cecília, Jardim América, Rua Dona Veridiana, Praça do Patriarca, Rua da Liberdade, Avenida Paulista, Parque Antártica, Praça Buenos Aires, Rua do Gasômetro, Largo de São Francisco. Alguns desses lugares citados pelo autor eu cheguei a conhecer e eles me deixaram com uma espécie de saudosismo que eu nem sei que nome tem. Não vivi nesses lugares, meus ancestrais oriundi tampouco, mas é como se alguma coisa no DNA da gente se sentisse provocado, apaixonado, instigado. Personagens como a interesseira Carmela ou o menino (teimoso) Gaetaninho nos lembram aqueles parentes que, vez ou outra nos pegamos criticando, mas dos quais não conseguimos desgrudar.
Brás, Bexiga e Barra Funda nos envolve com uma linguagem diferente dos demais clássicos da literatura brasileira. É, ao mesmo tempo, simplória, moderna, criativa, rica, simpática, algo deliciosamente macarrônico. Enfim, fez com que eu me sentisse em casa. Na casa da nonna!

“Italiano grita.
Brasileiro fala.
Viva o Brasil.
E a bandeira da Itália!”
Brás, Bexiga e Barra Funda
Autor: Antônio Alcântara Machado
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 78

BHAGAVAD GITA


- Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 02/03/11) -

                Um dos símbolos máximos do hinduísmo, o livro é basicamente um diálogo entre o Senhor Krishna e o Príncipe Arjuna – o que, num primeiro momento, pode não passar de uma simples conversa entre um guerreiro cheio de angústias e dúvidas e o seu deus. Porém, o Gita vai muito além disso. Os ensinamentos contidos neste livro ultrapassam até mesmo as – imaginárias – diferenças entre cristianismo e hinduísmo. O Bhagavad Gita teria sido ditado pessoalmente pelo deus Krishna muito tempo antes do surgimento do cristianismo, mas esse misto de filosofia/mitologia/religião que é o hinduísmo nos remete imediatamente às palavras de Cristo. Essa percepção de proximidade se torna mais evidente graças às explanações do tradutor (filósofo e estudioso das religiões) Huberto Rohden. Todos os termos, exemplos e parábolas ditas por Krishna a Arjuna são traduzidas por Rohden de modo a notarmos, sem dúvida alguma, a sua semelhança com as conversas entre Jesus e seus apóstolos. É importante salientar que o tradutor não nos induz a acreditar nisso; basta uma leitura dedicada e atenta para enxergarmos essas paridades. É o tipo de obra para ser apreciada de mente aberta, sem ter os olhos cobertos pelos véus desta ou daquela religião. O Gita pode ser encarado tanto como obra literária, filosófica, mitológica ou religiosa; é uma introdução básica e elucidativa, um “aperitivo” diante da magnitude que é a cultura hindu.
Namaste.

Bhagavad Gita
Tradutor: Huberto Rohden
Editora: Martin Claret
Páginas: 159
Ano: 2003