domingo, 23 de dezembro de 2007

2008


Não vou desejar aqui toda aquela papagaiada que as pessoas costumam repetir religiosamente a cada fim de ano. Portanto, faça do seu ano novo o que você bem entender!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Kisses, besos, kissu, baci...
Eu ainda tenho minhas dúvidas em relação à veracidade disso, mas pelo sim, pelo não...

domingo, 18 de novembro de 2007

EM PRIMEIRA MÃO

Minha modesta definição de crônica de jornal.


Ando com o cérebro muito preguiçoso - ou talvez eu ande dando atenção demais à outros assuntos - por isso resolvi deixar aqui a apresentação do livro do Teck - nosso vice-presidente de APEG. Ele me deu a satisfação de escrever a apresentação e, embora eu a tenha entregado bem em cima da hora, eis que ela saiu. Não sei se devia postá-la antes que o livro dele fique pronto, mas como também sei que a frequência por aqui não é das mais altas, então acho que não tem perigo...

APRESENTAÇÃONuma época em que se clama tanto pela valorização das artes e da cultura, textos como os deste destacado membro da Associação de Poetas e Escritores, são mais que bem vindos. Ao longo de tantos escritos, fica bem claro que Luiz Maurício, ou como nós da APEG carinhosamente chamamos – simplesmente, Teck – tem como marca, a exaltação e a valorização das artes e da cultura garcenses. Depois de praticamente uma década inteira em que Garça passou hibernando, no que se diz respeito a movimentos artísticos, eis que de alguns anos para cá, os artistas têm aparecido, reaparecido, mostrado a sua cara, e o Teck, no meio desse renascimento, ainda que despretenciosamente, inspirou e encorajou outras pessoas a escrever, expor suas idéias nas páginas dos jornais – afinal, a meu ver, fazer crônicas também é uma arte.

Posso dizer que quatro membros, em particular, foram o meu farol na APEG – e ainda o são – desde quando eu ainda nem era membro e assistia às reuniões timidamente, só por xeretice. Mas foi por observar e acompanhar os textos desses quatro poetas/escritores – Letterio Santoro, Vera Sganzela (estou sendo imparcial!), Fagner e Teck - que eu percebi que não havia motivos para temer escrever para o jornal. Dizem que o papel aceita tudo e infelizmente isso é verdade. Mas, do mesmo modo que o papel aceita inúmeras porcarias, ele também abriga idéias simples e geniais, manifestações de sentimentos que muitas vezes não expomos, críticas e apontamentos relevantes que podem até ajudar a formar a opinião das pessoas, lembranças de passagens boas e ruins que nossa cidade e nossos personagens viveram. E essa liberdade pouco tem a ver com jornalismo ou textos feitos por profissionais. Esse é o encanto das crônicas que os filhos da APEG escrevem: são descompromissados, são escritos como se estivéssemos conversando com um amigo, são saudosos, doces, resgatam a nossa História, propõem planos para o futuro, indagam o presente; e ainda que alguns tenham um “quê” de informativo, ainda assim não há a frieza de um texto puramente jornalístico. Pois até mesmo esses “informativos” e boletins são como um convite às pessoas a se interar dos rumos que a cultura de nossa cidade toma. Essa é uma das lições que este escritor sempre nos passa.

Enviar textos a um jornal, sobretudo crônicas, é não ter a obrigação de se levar a sério, é poder jogar com as idéias, é provocar, questionar, vestir um personagem, encarnar uma outra pessoa, exorcizar alguns de nossos fantasmas, pôr a boca no mundo, deixar-se levar pelas palavras que nosso coração nos dita – ainda que tenhamos a consciência de que aquilo que pusermos no papel pode tocar de várias formas o leitor. Então, o que parecia brincadeira, acaba virando exercício: escrevemos pensando como leitores. E lemos pensando como escritores. E assim, sem aquele velho medo de parecer pretensioso e metido à sabe-tudo, mais um novo cronista acaba se lapidando, ainda que não perceba. Pelo menos no meu caso, foi assim. Foi vendo textos no jornal, como os do Teck, que eu comecei a brincar de expor meus escritos.

Teck, parabéns e obrigada por ser também responsável por ter estimulado quem antes era só uma leitora, a se envolver nessa deliciosa brincadeira/arte de escrever.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Não é só porque é lindo. Mas porque é real...

SONETO DE SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

HIATO
Se ele, sendo quem foi, tinha seus intervalos de idéias, por que eu, sendo assim tão parva, também não os posso ter? Então, em "homenagem" aos meus lapsos (nada) criativos:

"Penso 99 vezes e nada descubro.
Deixo de pensar, mergulho no silêncio
e a verdade me é revelada".
(Einstein)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

LIVRO DE SETEMBRO (embora já seja Outubro)
LATIDOS E MIADOS
Confesso que assim que vi a capa do livro pela primeira vez (na Feira de Leitura que houve no CSA), me interessei logo pelos contos de gatos. E foi basicamente por isso que o comprei. Claro que o que me deu ainda mais certeza de estar levando para casa um ótimo livro foi a lista de autores selecionada e organizada pelo jornalista, tradutor e escritor Flávio Moreira da Costa: Homero, Mark Twain, La Fontaine, O. Henry, Machado de Assis, Balzac, Artur Azevedo. Enfim, a lista é grande. Sinceramente eu não imaginava que houvesse tantos textos lindos, densos, profundos e apaixonantes sobre cães e gatos. E no fim das contas, acabei por me render aos contos caninos (inclusive há um textinho muito simpático de Leonardo da Vinci). Não que eu não goste de cachorros, pelo contrário, mas às vezes, por mais alegres que esses bichinhos pareçam, eles me passam um pouco de melancolia. Só que isso não faz com que eu goste menos deles. E no caso dos contos, alguns autores conseguiram traduzir exatamente esse sentimento, narrando histórias de cães companheiros, servis e obedientes aos seus donos, mesmo que estes não merecessem.

Mark Twain, mais uma vez, me prendeu. Agora foi com seu conto A História de um Cão, em que, já em sua época (entre 1835 e 1910) chamava a atenção para a crueldade das experiências com animais. A frieza e ingratidão de um homem cujo filho ainda bebê foi salvo pela cachorrinha da família parece não diferir muito do se passa hoje. Tão tocante quanto o famoso conto russo Mumu, de Ivan Turgueniêv (1818 – 1883), em que um empregado solitário de uma senhora muito rica e amarga se vê obrigado a se desfazer de sua companheirinha. Chega um ponto em que não se sabe se quem é mais servil é o cão ou o homem.

E como não podia deixar de ser, os contos felinos são bem mais alegres e engraçados. Expõem a natureza dos gatos e sua personalidade: espertos, curiosos, corajosos, desconfiados, farristas, mimados, contemplativos. Destaque para o hilário conto do americano Damon Runyon (1884 – 1946), Lillian: uma gatinha abandonada nas ruas frias de Nova Iorque, encontrada e adotada por um ator bêbado e decadente que perambula pela Broadway vivendo de pequenas apresentações. Ambos vivem de modo quase insalubre num hotel vagabundo, mas não se desgrudam. Um dia, o hotel pega fogo, e ambos se metem no meio do incêndio e “sem querer” salvam uma criança. Mas o verdadeiro motivo desse ato heróico é o que fecha de modo cômico a história – que contrasta drasticamente com o conto de Edgar Allan Poe (1809 – 1849), O gato preto, perturbador e com grande densidade psicológica, e com o romântico O gato marinheiro, de John Coleman Adams (1849 – 1922).

Mesmo para quem não cria um cão ou um gato, o livro vale muito para despertar para a importância de se ter um bichinho por perto, de que animais não são meros enfeites dentro de casa. Eles têm sentimentos quase humanos (ou mais humanos que nós), se comunicam a seu modo doce, são desinteressados, amam seu dono pelo simples prazer de amar e não se questionam o por que. Cães e gatos têm suas diferenças, mas rendem ótimas histórias – não necessariamente historinhas para crianças, mas contos com mensagens que penetram na alma. Pelo menos foi essa a sensação que tive.

Os Melhores Contos de Cães & Gatos
Organização: Flávio Moreira da Costa
Páginas: 367
Editora: Ediouro

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte III – Da Lei do Silêncio
“Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles o resto de nós não seria bem-sucedido”
(Mark Twain)

Se não me falha a memória, a adolescência é uma época ótima, muito boa mesmo. Eu não tenho do que reclamar da minha, mas às vezes paro para observar grupos de adolescentes e me pego perguntando: “será que eu era tão idiota assim?”. Provavelmente eu tive meus momentos idiotas, mas não pelos mesmos motivos desse grupinho que achei nas inesgotáveis fontes de pérolas orkutianas. Dessa vez o centro das discussões era a Lei do Silêncio. E não estou aqui para julga-la, nem discuti-la e nem trazer à luz maiores explicações sobre isso. Mas o caso é que nosso bom e velho Lago já não é mais o mesmo.

Quando eu beirava a adolescência, as pessoas que queriam ouvir música em torno do lago ligavam o som de seus carros num volume que só elas mesmas ouviam. Não importava se era um casal de namorados, se fosse um solitário qualquer ou um grupo de amigos, todo mundo respeitava o espaço e os ouvidos alheios. Hoje, o que se vê – e só se vê, pois não se ouve nada em meio a um caos de barulhos – são competições fúteis e quase primitivas para provar quem tem o som mais potente, quem consegue chamar mais a atenção, quem consegue atrapalhar o passeio dos outros, quem tem mais mau gosto. Foram-se os fins de semana em que dizíamos para os amigos: “vamos para o lago, para conversar?”. Tudo bem, hoje ainda podemos conversar, mas ou a gente aprende a fazer leitura labial, ou aprende LIBRAS ou a comunicação não vai sair do “o quê?”, “como é?”, “o que você falou?”. Parece exagero? Talvez, mas os reis dos exageros, da intolerância e da pura ignorância são os autores dessas frases:

“éssa lei só foi criada p tirar dinheiro desse povo trabalhador. o cara junta uma graninha p coloca um sonzim p faze moral , dai os homi vai lá multa o cara !!!! e esse negocio de atrapalha kem mora lá não tm nada a ver não , só atrapalha velho !!!!”

“Absordo.
Eu acho um absordo essa lei do Silêncio, tudo bem depois das 22:00hs é proibido, mas sou contra, pois nem a tarde de domingo no lago naum pode escutar som, a cidade esta parecendo cidade de velhos, deveriam cercar a cidade e colocar na entrada "ACILO DOS VELHOS NÃO PERTUBE" ate minha tia com 60 anos gosta de ouvir um som no lago isso é impetuoso, não concordo, com a proibição, quem tem casa perto do lago e gosta de silêncio, muda... naum estrada a festa de milhares de pessoas para ficar vendo Tv, ou Dormindo, trabalho com Som e todos os salão de festa estaum com aviso de som baixo por causa dessas poessoas que quer tranquilidade. Pode contar comigo pra ser contra essa lei do silêncio!!!”

“eles saum uns tontos q só faltam calar o passarinhu q canta de manhã coitado do galo q acorda as 5 e canta...eles naum qrem q ninguém se divirta sem ser eles...muito tontos...nunca vi...eles só naum reclamam do sapato deles q faz barulho hahahaha...lokura...”

Definitivamente nossos jovens andam cada vez mais dramáticos. Eu quase me comovi. Eu não sabia que a Lei do Silêncio é o ÚNICO jeito de um trabalhador perder seu dinheiro. E se perde nesse caso, é muito bem feito. Quem dá tanta prioridade a um carro ou a um equipamento de som, merece ter prejuízo. Infeliz de quem cultiva essa mentalidade desde tão cedo. Espanta-me que um sujeito morra de dó de dar seu rico dinheirinho numa multa – que no fim das contas resulta em benefícios ao município – e seja tão mão aberta com tamanhas futilidades, como comprar mil tranqueirinhas para o som e fazer do passeio dos outros um inferno. E não querer um som insuportável na orelha não é coisa de velho, mas de gente de bom senso.

Além disso, o egoísmo desse pessoalzinho chega à estratosfera: sugerir que os moradores da região do lado se mudem, é o fim da picada! Eu, que nem moro tão perto do lago assim, não me sinto na obrigação de ouvir sertanejo, pagode, funk e axé o tempo todo e com tantos decibéis. Também não estou pondo em juízo as (infelizes) preferências musicais dessas pessoas. Querer que eles ouçam um Bach, MPB ou Rock Clássico é o mesmo que esperar por um milagre. Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas, mas promover uma verdadeira competição de som automotivo no lago, é muito egoísmo.

Alguém questionou por que as pessoas que vivem perto do lago não se mudam. Pois bem. E para onde iriam? Eis uma idéia: “essa lei e um c*** c vcs habitantes de garça querem silencio q vao todos pro cemiterio... a juventude ta ai gente nos q somos novos temos q curtir zuar e bagunçar e vcs velhos quuerem por limites nas nossas coisas vcs sao todos um c*** viu.... prende bandido ninguem vai atraz né...”. Vamos virar um bando de góticos e viver no cemitério! Enquanto isso, no NOSSO lago, no lago que é de todo mundo, um bando de acéfalos ouve as músicas mais podres do mundo. Além do que, eles insistem nessa infeliz mania de se referir aos mais velhos de forma pejorativa, em xingar a Lei do Silêncio (por isso usei asteriscos de novo) e em exaltar a beleza e a filosofia do som alto:

“se vc eh dakeles...q curtem...som automotivo...e naum apoiam essa p*** de lei que proibi som auto no seu carro...entrem nessa comu...e lute pelo nosso hobby...naum deixem isso de lado... queremos liberdade... queremos nosso hobby... lutemos pelo nosso unico ideal: curtindo um som e mandando ver...sem medoo de ser feliz. " cerveja gelada...e mulher bonita...eh o lema do som automotivo” todos nos sacudimos os pilares do paraíso”

Eu não sei como é que existe gente que espera sacudir os pilares de qualquer coisa tendo como lema “Cerveja gelada e mulher bonita”. Quanta pobreza de idéia. Quantas prioridades inúteis. Quanto dinheiro jogado no lixo. Quanto cérebro desperdiçado.
Diante disso tudo, não sei se fico indignada, se tenho dó ou se fico alarmada por constatar como anda a cabecinha de alguns dos nossos jovens garcenses. Evidente que não são todos, mas uma volta pelo lago num sábado ou domingo prova que também não são poucos. E a essa altura do texto, ainda estou forçando a memória na tentativa de responder a mim mesma se minha geração foi desse jeito, tão idiota. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não escrevíamos tão mal assim.
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Foto: Jerry Lewis, no filme "O otário"

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

EU TAMBÉM, PESSOA...
"O gato que rola na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama"
(Fernando Pessoa)
SAUDADES DE UMA GATINHA RUIVA
Já não é a primeira vez que perco um bichano por causa de gente imbecil que nutre um prazer idiota em passar voando baixo na rua da minha casa.
Nessa madrugada perdi a doce Sinhá Moça. Mas para esses motoristas babacas isso não quer dizer nada. Porém existe a Lei do Retorno.
Prefiro pensar pelo lado bom: hoje, quem toma conta daquela linda ruivinha é São Francisco.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

UMA PAUSA PARA A SINGELEZA DE DRUMMOND
ENTRE OS DIAS DA SEMANA
"Entre os dias da semana,
olhada à minha maneira,
de todos os mais bacana
sem dúvida é a quarta-feira".

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte II – Surrando o Português.

Assaltaram a gramática, assassinaram a lógica.
Seqüestraram a fonética, violentaram a métrica

(Assaltaram a Gramática, por Paralamas do Sucesso)

No dia 8 deste mês, comemorou-se (?) o Dia Internacional da Alfabetização. Lembrança essa que casou perfeitamente com o segundo assunto da minha série sobre a caça às pérolas. É perfeitamente compreensível que na internet não haja uma preocupação em relação à acentuação, pontuação e ortografia. Haja vista a invenção do “internetês” – uma linguagem nova e típica de quem freqüenta assiduamente o “cyber espaço”. Uma letrinha aqui, outra li, a gente até pode deixar passar, às vezes pode ser apenas um erro de digitação, dada a pressa de como as pessoas se comunicam. Mas tem certos casos imperdoáveis. Alguns passeios em certas comunidades me bastaram para que eu visse, de um modo tragicômico, como pessoas supostamente alfabetizadas, estão dando cada vez menos sentido às frases.

Sendo filha, sobrinha e amiga de professoras, vejo de muito perto como situações como essas, matam de desgosto profissionais que penam para ensinar quem parece que não está muito a fim de aprender. Não sei se esse é o caso dos donos das seguintes pérolas. Se nunca estiveram a fim de aprender o bom Português, então estão no caminho certo. Caso contrário, colaborem com seus professores, abram suas mentes e leiam alguma coisa que preste! Posso ser chata, e talvez até seja, mas graças a Deus sou uma chata que foi alfabetizada no velho e eficiente sistema do “não aprendeu, não passou”. Nunca repeti um ano e nenhum dos meus colegas de classe também não. Deve ser porque nossas turmas eram menores, não tínhamos internet, líamos mais, não éramos mal-criados e nossos professores tinham total liberdade e apoio dos pais para nos repreender. Ainda sou da época em que aluno levava régua de pau na cabeça se enchesse muito o professor e isso era super normal. Definitivamente, certas mudanças na Educação foram como um chute no estômago dos professores, alunos e pais. Só gostaria de entender por que uma classe com 40 alunos e não duas com 20. Por que se aceita que uma criança escreva errado, desde que se entenda a idéia? Por que permitir que ela passe de ano cometendo tantas atrocidades com o idioma? Por que os professores perderam a autoridade? Por que tanta preguiça e tanta má vontade por parte dos alunos? Por que, cargas d’água, temos um presidente que incentiva a ignorância? Enquanto não temos as repostas, veremos muito disso (tentem decifrar, eu juro que não inventei nada):

“xeguei representandu!!!!! ai pesual....pa fla a verdadi eu nem conheço essa cidade...tao pouco sabia ki existia....digo isso 100 qre ofende!! mais oq me xamo atençao nessa comu...foi a fotu...ki porakazo é igual a minha..rsrs só daki d sao josé dos campos...e só conhecido comu o garça.....intao no fundo essa comu tem minha cara tbm...pq afinal eu so um garsence onorariu.....rsrsrsr....intao um abraçao pa tdos v6is..... vlwwwwwwwwwwwwwww”
Ou então:
“jah fui varias vezes no berimbau mas so no berimbau mas porq quando ia fazer trocar de mingau pra berimbal eu c escondia. atras das coisas hehehee”
(Eu “se” escondia? E o infeliz ainda ri...)
Temos ainda um sócio de um clube que diz: “Que deveria ser mais rígido o isame medico”, ou outra que lançou o tópico: “É precoseito da galera” . E no mundo do rodeio também há quem contribua: “Quem vai ser peão quando crecer?” e “ah tah certo cumpadi esses piao nao da muitu certo nao! us cara fik 4 5 segundus em cima do boi! para né tem que c uns caara miozinhu um poko!”. E sobre aquele velho discurso de não se ter nada para fazer na cidade nos fins de semana, alguém que pensa que é engraçado e que usa acento onde não precisa, listou o que tem de bom em Garça (usei asteriscos para substituir palavrões totalmente dispensáveis): “oloko pow olha só cachaçaria, dudas, kraoq, barraco, thot, compania, Texas... ops foi mals garça né? hehehe não sei, néssa b*** aqui so tem bar pow cada esquina um... puriso nem saoi aqui néssa b*** hehehehehehe bora marilia gente...”

E já que estamos no embalo, para fechar com chave de b***, uma das frases mais imbecis que eu já li: “garça preciza d uma casa d recreasão masculina!!” . Duplamente imbecil: pelos erros grotescos de ortografia e pela sugestão absurda. Se foi uma tentativa de fazer graça, esse sujeito nem passou perto de conseguir. Se falou sério, então devemos realmente ficar preocupados. De qualquer modo, eu que nem professora sou, já fico assustada diante dessas barbaridades, imagino como devem se sentir quem é encarregado de cuidar e orientar essas mentes. E saiba que, enquanto você lê esse texto, em algum lugar dessa cidade e desse país, o Português continua sendo espancado. Mas, para dar um ar menos triste a essa realidade, deixo aqui um poeminha muito simpático do mestre Drummond:
Professor
“O professor disserta
sobre o ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.

O professor vai sacudi-lo?
Vai repreende-lo?
Não.
O professor baixa a voz
Com medo de acorda-lo”.
A CAÇADORA DE PÉROLAS
Parte I – Sobre as mulheres de Garça

Meu amigo Fagner já havia adiantado em um texto seu, que eu estava recolhendo algumas pérolas do Orkut, para usa-las posteriormente. De fato. O Orkut, decididamente é uma fonte inesgotável de surpresas – boas e más, e muito das coisas que já li me fizeram rir bastante. Pesquisei em várias comunidades relacionadas à Garça e selecionei as melhores – ou piores, depende do ponto de vista – manifestações de alguns jovens de nossa cidade, a respeito de diversos assuntos. Só quero ressaltar que, valeu a intenção por eles terem participado dos tópicos, mas bem que poderiam ter um pouco mais de respeito com a nossa surrada Língua Portuguesa e que eles precisam ler. Ler muito, para não dizerem tanta bobagem. E tais bobagens serão publicadas em doses pequenas, para não enjoar quem escreve e quem lê. E também que não sou autoridade em nada e não quero expor esses jovens pensadores ao ridículo. Eles o fazem por si mesmos.

O primeiro tópico se refere às mulheres de Garça. Alguns marmanjos escreveram reclamando de que as moças daqui não dão a devida atenção aos mancebos porque são por demais orgulhosas, porque só se interessam por quem tem um carro, dinheiro, influência. Essas coisas tão típicas que os homens adoram dizer quando são esnobados. Outros dizem que por aqui só existem barangas, e que por esse motivo devem ser umas desesperadas que saem com qualquer um. Mas esse sujeito, numa tentativa vã de melhorar a imagem das mulheres, escreveu: “... aqui nessa cidd so nao cata muié quem não quer!! pois aqui tem mulher bonita como todas as outras!! nao fis este tópico tirando as muié d garça!! so fiz para os cuecas pararem d criticar falando q Garça so tem veia e mulher feia!! bjus para todos!!!!”. A única coisa em que esse amante dos pontos de exclamação está certo é que em Garça há muitas mulheres bonitas. Mas o que ele – e muitos – tem que saber é que mulher não é muié, e que ela não deve ser catada e sim conquistada. Não somos milho para irmos à cata. Muitas de nós - prefiro acreditar - ainda gostam de conversar, trocar idéias sobre coisas aparentemente bobas do cotidiano como filmes, livros, faculdade, pretensões, valores; ainda valorizam um papo espirituoso e bem humorado (e não chulo) e aquelas gentilezas que nunca deveriam ter caído de uso como o homem se prestar a abrir a porta do carro para que a mulher entre, puxar a cadeira para que ela se sente, deixar que ela ande pela parte de dentro da calçada ou permitir que ela atravesse a porta primeiro (e disso eu não posso me queixar porque tenho quem faça isso por mim).

Na seqüência, a resposta para o “catador”: “muié até tem... mais a maioria é td metida msm... e curti mais $$... pra cata muié mesmo tem que te $$ se nao... vai fica com a sobra”. Ao adorador das reticências, o que podemos dizer? Que talvez essas meninas não sejam metidas ou orgulhosas, mas que são seletivas. Oras, todos querem o melhor pra si, e não creio que um cara com essa mentalidade seja coisa boa para alguém. É lógico que existem interesseiras que preferem um idiota motorizado a um cara legal a pé, mas gente pequena assim está presente em todos os meios, então, meu caro, não diga que só as garcenses são desse jeito. E nem todas são assim. Te garanto.

Por fim, uma última colocação sobre esse assunto: “Qem fica falando isso é por q não cata ninguem q tem umas par de gatinhas + o duro q tem umas pilantras metidas ao q não é qer dar uma de boysinha vai ver a roupa é imprestada ou p/ pagar em 10 vezes”. Tirando a cacetada na ortografia, o que deu para entender é que muitas de nós, mulheres de Garça, vivemos de aparência. Rejeitamos tantos esses pobres homens, mas no fundo não passamos de umas coitadas que usam roupas emprestadas ou compradas em prestações a perder de vista. Ou seja, quem somos nós para esnobar esses moços? É sabido que em todo lugar há quem finja ser o que não é, que existem aqueles ricos falidos que vivem de pose dizendo: “você sabe com quem está falando?”, e há as tais “boysinhas”, mas, volto a dizer, não se trata da maioria!

Chega a ser patético constatar o pensamento de homens ainda tão jovens a respeito das mulheres. Que são esnobes, pilantras, fingidas e dignas de serem catadas. Bom, se eles passaram por esse tipo de experiência, então é provável que eles não tenham procurado direito – por preguiça ou incompetência. Se só se envolveram com as tais pilantras é porque somente elas correspondem ao tratamento que recebem. Por mais que o tempo passe, a essência da mulher nunca vai mudar – e sim se apurar. Ainda gostamos das coisas mais manjadas como lembrar de certas datas, flores inesperadas, um passeio sem motivo. Por outro lado, todo esse falso testemunho contra a maioria das mulheres de Garça pode ser puro despeito. Para que as mulheres certas apareçam, basta começar a abandonar essa infeliz mentalidade de “catar”, pois como já disse Cartier: “Quem compra cópia, merece-a”.
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Foto: usei esse lindo bichano com carinha de cansado, metaforicamente. Afinal, ler tanta besteira, desanima...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

TRATADO (MODESTO E SUCINTO)
SOBRE A TIMIDEZ

“Sei que tento me vencer, acabar com a mudez/Quando eu chego perto, tudo esqueço/e não tenho vez/Me consolo, foi errado o momento, talvez/Mas na verdade, nada esconde essa minha timidez/ ... /E, como um raio/eu encubro, eu disfarço, eu camuflo, eu desfaço/Eu respiro bem fundo/hoje eu digo pro mundo/Mudei rosto e imagem/mas você me sorriu/Lá se foi minha coragem/Você me inibiu”
(Timidez – Biquíni Cavadão)

Desde criança ouço essa música e, principalmente na época da adolescência eu pensava que ela tinha sido feita sob medida para mim. Passei muito tempo pensando que timidez fosse uma espécie de maldição, afinal, os tímidos são vistos como fracos, medrosos, imbecis, débeis (está lá no dicionário!). Ser meio desajeitado e tímido é típico de adolescente, mas quando se começa a chegar à casa dos trinta, a gente fica meio preocupado. Por isso, sem pensar muito, comecei a rabiscar esse tipo de Tratado, na esperança de poder desmistificar para mim, para tantos tímidos e para quem não nos entende que não somos bem o que aparentamos.

Fiz isso baseada somente em experiências pessoais e observações; isso nada tem de fundo médico, não estou brincando com a psicologia, nem levantando diagnósticos – já que timidez não é doença (mas fobia social, sim). Quero apenas dizer para os extrovertidos, que nós, tímidos, não somos alienígenas. Aliás, é incrível o número de pessoas que se classificam como “patetas”, “palhaças” e “extrovertidas” em seus perfis do Orkut. Que o mundo está cheio de patetas, todos sabemos, mas o que me espanta é tanta gente admitindo que o são.

Enfim, esse projeto de Tratado nada mais tem do que o intuito de romper com uma visão distorcida da maioria e chamar os tímidos para um “levante”. Mas atenção aos oportunistas: não usem a timidez como desculpa para serem grossos. Assim vocês estarão queimando o filme de toda uma classe.

[1] Tímidos são vistos como orgulhosos, metidos e pedantes.
[2] Tímidos são, geralmente, os últimos a serem escolhidos para os times – seja de basquete, vôlei, futebol.
[3] Somos chamados de moscas-mortas, otários, CDFs, nerds.
[4] Se aproveitam dos tímidos nas filas.
[5] O aluno tímido sempre tem que emprestar o caderno para o colega engraçadão da turma copiar a matéria.
[6] Tímido evita beber (porque sabe que o mínimo que ele ingerir pode transforma-lo em outra pessoa).
[7] Tímidos são zoados quando vão tirar carteira de motorista.
[8] Temos um ataque do coração e nossas mãos transbordam um rio toda vez que precisamos apresentar um seminário, expor um trabalho, ler em público.
[9] Está provado, por pesquisa, que os tímidos ganham salários mais baixos que os extrovertidos.
[10] Os mais maldosos adoram fazer um tímido gaguejar.
[11] Tímidos raramente sabem dizer “não”.
[12] Se aproveitam dos tímidos para pedirem favores.
[13] Quando se referem a um tímido, dizem: “esse cara é estranho...”. Ou pior: “ela é anti-social”.

Mas, a quem interessar possa, existe o outro lado da moeda:

[1] Tímidos são misteriosos.
[2] Timidez também é charme.
[3] Tímidos têm um humor sarcástico e refinado.
[4] Quem fala menos e ouve mais, acumula mais sabedoria.
[5] Tímidos raramente dão vexame (uma namorada tímida é garantia de nunca ter “barraco” ou ceninhas patéticas de ciúmes).
[6] Tímidos são mais concentrados.
[7] Somos mais contemplativos – às vezes captamos mais detalhes onde a maioria não vê.
[8] O Beatle Ringo Starr era excessivamente tímido e tinha tudo para dar errado. No entanto ele é e sempre será simplesmente Ringo Starr!
[9] Outros tímidos assumidos: Woody Allen, Chico Buarque e Milton Nascimento. Precisa falar mais?
[10] Tímidos lêem mais (pelo menos os que eu conheço).
[11] Por sua discrição, tímidos são excelentes ouvintes e confidentes.
[12] Por vezes, a timidez ajuda a afastar os chatos.
[13] Se todos fossem adeptos do “oba-oba”, o mundo seria um caos.

Em suma: tímidos sofrem, mas há suas compensações. Por repetidas vezes podemos passar despercebidos na multidão, mas temos nossas peculiaridades, que no fim das contas, nos diferenciam do resto. Então, tímidos de todas as partes, não soframos por termos que nos adequar ao resto do mundo e às leis dos extrovertidos. Apenas ousemos mais, aprendamos cada vez mais com nossos tropeços (os literais e os figurados), lapidemos nossos talentos escondidos e surpreendamos o mundo! Aliás, isso me lembra uma frase de Benjamin Franklin: “Bem feito é melhor que bem dito”.

(Personagem da foto: Keitaro Urashima, de Love Hina)

LIVRO DE AGOSTO

THE "FAB 4"

Desde que me entendo por gente, sempre ouvi falar nos Beatles, sempre achei engraçadinho o jeito como eles usavam o cabelo, sempre curti Twist and shout e sempre concordei com a expressão "bons moços do rock". Resumindo: só o lado A. Só que com o tempo, com a idade e com o amadurecimemto musical (todo mundo passa por isso um dia), a gente vai percebendo outras coisas além daquelas que todo mundo repete. Beatles são muito mais do que isso. Foram revolucionários tanto na época do iê-iê-iê como na era do psicodelismo. Os "Fab Four" não eram praticamente nada separados, mas, creio eu, e com a devida licença, imagino que alguma força misteriosa lá de cima, os juntou e deu do que deu.

Como eu disse, os anos foram passando e eu fui me interessando cada vez mais por eles, até que finalmente achei um livro que explicasse um pouco a origem da banda, a vida de cada um antes, durante e depois do encontro, suas idéias, seus sentimentos, sua percepção das coisas do mundo, como evoluíram... essas coisas que todo fã quer saber. Mas, além de ter confirmado minha paixão pelos Beatles como 4, acabei por me apaixonar por John, Paul, George e Ringo individualmente. Cada um deles tem uma história de vida muito interessante - às vezes muito sofrida, outras vezes engraçada (vivendo um bairros insalubres, presenciando a separação dos pais, praticando pequenos furtos, desafiando o sistema da escola, mostrando uma inteligência e esperteza ímpares). A que mais me tocou foi a de Ringo. Era praticamente uma pessoa que tinha tudo para dar errado e que com seu jeitinho tímido e seu talento escondido virou simplesmente Ringo Starr.

E para aqueles, que como eu, pensavam que britânicos não tinham lá muito senso de humor, os Beatles, pelo menos, provam o contrário. Eu não tinha idéia de como eles eram (2 ainda são) piadistas e irônicos (ainda que com o jeito inglês de fazer graça). Adoravam dar respostas engraçadinhas aos repórteres que lhes faziam perguntas toscas:

- Ringo, por que você usa dois anéis em cada mão?
(Ringo) - Porque não posso colocá-los no nariz.
- Acha que é errado dar tamanho mau exemplo para os adolescentes, fumando da maneira que fuma?
(Ringo) - É melhor do que ser alcoólatra.

- O que acha sobre as críticas dizendo que não são muito bons?
(George) - Nós não somos.

- O que faz no quarto de hotel no intervalo entre os shows?
(George) - Patinamos no gelo.

- Que história é essa sobre uma doença anual, George?
(George) - Todo ano pego câncer.

- Como se sentem enganando o mundo inteiro?
(Ringo) - Gostamos.
(Paul) - Na verdade não estamos enganando vocês.
(George) - Só um pouquinho.
(John) - Com se sente sendo enganado?

- Toda a bajulação das garotas afeta vocês?
(John) - Quando sinto minha cabeça girar, olho para o Ringo e percebo que não somos super-homens.

- Gostam de maiôs topless?
(Ringo) - Nós os usamos há muitos anos.

- O que vão fazer quando passar a beatlemania?
(John) - Contar o dinheiro.

Enfim, para não alongar muito essa conversa, só tenho a declarar que Beatles vão muito além de Love me do e de terninhos engomadinhos. Eles mostraram coisas novas ao mundo da música e não tiveram medo da transição de "meninos comportados" (coisa que nunca foram de verdade) para os místicos e psicodélicos de Sgt. Pepper's, além da criação da Apple - importante selo musical.

Livro recomendado pelo texto, pelas histórias tiradas do fundo do baú, pelo apanhado de declarações e pelas fotos.
Mas a minha busca continua...
BEATLES por eles mesmos
Pesquisa e organização: Luiz Antônio da Silva
Páginas: 175
Editora: Martin Claret

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O QUE FALTA PARA GAA?
“Problemas nunca serão solucionados se usarmos o mesmo raciocínio que os criou”
(Albert Einstein)

De vez em quando eu faço uma visita a Comunidade de Garça no Orkut, só para constatar o que os jovens – sobretudo os adolescentes da cidade andam pensando. Alguns pensam, outros não, mas de um modo geral, existem certos tópicos que não merecem passar em branco. Por esses dias vi um com o título: “O que falta pra Garça embalar?”. A mesma pessoa que lançou a pergunta, deixou sua resposta (reproduzida com a mesma brilhante ortografia): “Aqui, na minha opinião, só o tenis presta falando de balada... O lago anda perigoso demais ultimamenteO q falta pra Garça, em termos de balada, pra cidade fikar mais completa???Bom, pra mim falta tipo um shopping mesmo, mas SHOPPING, nao essa galeria q tem aki... Um lugar grande, se bem que garça nao suporta tanta coisa... afinal nem mc donald's tem...”.

Parece que o que falta para Garça virar um lugar de “baladas” é uma questão que não vai ter fim nunca. Ou essa nova geração anda realmente muito insatisfeita, ou então Garça não tem nada. Só que, se me permitem dar um testemunho, vivi minha adolescência toda em Garça, e tanto para mim quanto para as turmas com as quais eu andava, nunca pareceu faltar coisa alguma. Evidentemente que na nossa época os bons e velhos berimbaus do Grêmio eram diferentes, andar pelo lago não representava tanto perigo quanto hoje (depois de uma determinada hora) e ainda tivemos tempo de curtir o Cine São Miguel. Isso porque ainda nem dirigíamos. Dependíamos de carona ou de nos deslocarmos a pé.

E é claro que as coisas mudam. Talvez as “baladas” de uns 15 anos atrás não se pareçam com as de hoje e não tiro de todo a razão de uma ou outra reclamação sobre ter o que fazer nos fins de semana em Garça. Só que fico me perguntando se um grande shopping ia resolver esse problema. E se sim, por quanto tempo? Não vai ser a construção de um shopping que vai transformar Garça numa referência de lazer. Quando eu era criança, eu achava o passeio num shopping o máximo – ainda que fosse o de Bauru, naquelas clássicas excursões de escola. Não sei se era porque raramente a gente ia ou porque o nome “shopping” impressionava. Mas depois o encanto se quebrou e ao meu ver, a menos que se tenha o propósito de comprar alguma coisa ou de ir ao cinema, shopping, pra mim, é sinônimo de passeio de gente sem imaginação. Vamos encarar a realidade: os jovens – em sua maioria (e eu me incluo nisso) – são uns durangos. Então, fazer o que num shopping se você não vai comprar nada? Os lojistas iriam à falência em pouco tempo, o shopping teria que fechar suas portas e tudo voltaria a ser como era. Quanto ao McDonald’s, não acho necessário tecer mais comentários, seria falar “mais do mesmo”.

Agora é minha vez de levantar uma pergunta: “O que aconteceu com a juventude, que anda tão sem criatividade?”. Ou eu estou ficando velha muito depressa ou os adolescentes de hoje só se contentam com boates – o que seria um pensamento muito limitado. Existem coisas boas para se fazer em Garça nos fins de semana, e coisas que não envolvem luz negra, gente se trombando, fumaça de cigarro na sua cara, bêbados pendurados no seu pescoço, filas intermináveis em banheiros nojentos, lasers atrapalhando a visão e um som estourando os tímpanos. Diversão não se resume em boate. Quando se vive numa cidade do interior, nada mais gostoso do que reunir uma turma de amigos – que geralmente não se vêem durante a semana – sentar numa calçada, tomar um vinho (moderadamente e para quem já é maior!), jogar conversa fora, falar bobagem, de futuro, de presente, de frustrações, de vontades, sobre “o que queremos ser quando crescer”.

Viver aqui, num lugar ainda relativamente tranqüilo, é poder andar pelas ruas sem um roteiro determinado, comer um lanche na frente da igreja, comprar uma garrafinha de qualquer coisa e ir a praça “filosofar”. É aproveitar os pores-do-sol no lago, ficar ali com os amigos até escurecer enquanto se conta histórias. É tomar um café na padaria e trocar idéias sobre música, literatura, (e até política, por que não?), sobre passagens e tempos bons que já se foram. E como se não bastasse, essa cidade ganhou de presente da natureza uma porção de quedas d’água e trilhas. E isso não é se contentar com qualquer coisa, é saber aproveitar momentos especiais com pessoas realmente relevantes que têm disposição para falar e ouvir. É ver que a vida é muito mais do que um techno na orelha; é partilhar de horas únicas com amigos de verdade, é, entre uma conversa e outra, descobrir idéias novas, conceitos diversos, é colecionar instantes preciosos que, convenhamos, boate nenhuma no mundo pode proporcionar. Então, o que falta para Garça? Gente com imaginação.

Mas voltando ao Orkut, uma outra resposta me chamou a atenção pela pobreza de sensibilidade: “enterrar e fazer uma nova cidade ou afunda td e muda pa uma cidade melhor aqui naum tem nada”. Eu não sei de tudo que Garça precisa, mas sei do que ela NÃO precisa. Eu adoro esse lugar, me sinto uma pessoa de sorte por ter nascido numa terra tão bonita e por isso me acho no direito de dizer que Garça não precisa de gente tão pequena, de verdadeiros abutres que torcem pelo pior da cidade, de pessoas amargas que não participam de modo algum da vida da comunidade e que atiram pedras em quem o faz. Garça não precisa de gente que queira enterra-la porque não é de cabeças simplistas assim que se faz o progresso de um lugar; Garça não precisa de pessoas que depredam praças, que tombam lixo na rua, que atiram papeizinhos pelas janelas dos carros, que levam cães para passear só para que eles sujem calçadas alheias. Garça não precisa de gente preguiçosa que teima em não plantar árvores, alegando que elas sujam a calçada. A cidade não precisa de jovens tontos que erguem o som do carro no último volume (sem querer fazer nenhum trocadilho, mas isso me parece mais um problema de auto-afirmação). Não precisamos de gente egoísta e de má vontade que lava calçadas e carros usando mangueira, de comerciantes que sempre nos “tungam” um ou dois centavos, de alunos vândalos que ofendem professores e arrebentam carteiras e ainda dizem que a escola é que é uma porcaria. Garça não precisa de quem diga que aqui não tem nada. O lugar onde não tem nada é na cabeça de gente desse tipo, onde nem noção de Língua Portuguesa existe.

Ontem li um texto belíssimo do Fagner (amigo e membro da APEG) falando sobre um animal morto que ele encontrou em um local público – e não se trata de qualquer lugar. Não vou entrar em detalhes porque gostaria que ele publicasse o texto e eu não quero estragar a surpresa, mas só posso dizer que Garça também não precisa de pessoas que negligenciem os animais, tanto os vivos quanto os que foram mortos. Quem puder ler o texto do Fagner antes, eis o endereço: http://asasdeanjotorto.blogspot.com/.

Eu não pretendia parecer agressiva nesse texto, mas também não me importo se eu tenha sido – despretensiosamente pode ser que isso sirva para dar um toque em alguém – se bem que eu acho que pessoas tão agourentas e azedas nem devam ler jornal. Mas caso leiam, deixo-lhes uma frase ótima do escritor francês Vitor Hugo: “Os infelizes são ingratos, isso faz parte da infelicidade deles”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

ESTADO DE SÍTIO”:
NOSSAS RAÍZES E NOSSA REALIDADE

Será que alguém já teve saudades de um tempo que não viveu? Alguém já sentiu aquele tipo de melancolia gostosa ao ouvir histórias de uma época ou de um lugar não conhecidos? Falando desse jeito, fica difícil explicar, mas quando se passa por uma experiência de assistir a uma peça de teatro, cujo texto é tão sensível e verdadeiro, as coisas ficam muito claras e se explicam não com palavras, mas com sensações.

Desde a última quarta-feira, dia 01, estava para escrever alguma coisa sobre a peça “Estado de Sítio”, mas – falando num bom e descarado português – fiquei enrolando, porque temia não achar as palavras certas para definir as impressões tão boas que o espetáculo me causou. Mas aí percebi que não são necessárias tantas pompas. Basta falar com a mesma simplicidade e sensibilidade com que o texto da peça foi concebido.

Quando digo que tenho saudades de um tempo não vivido, é porque os relatos das pessoas, transformados nos diálogos das personagens, foram executados com tanta delicadeza e graça, que, por alguns instantes, foi possível que nos sentíssemos inseridos naquele cenário de roça e pés de café. Ainda que algumas passagens do texto exprimissem as mazelas e os desgostos de se viver no campo, creio que todos ali se sentiram um pouco Toninho, Flor, Valdo, Amaral, Vô e Elza. Todos têm um pouco de cada um: meio românticos, meio realistas, meio sonhadores, meio sofredores, meio esperançosos. Nossos pais, avós e bisavós foram um pouco de cada uma dessas personagens. Viram no café a esperança de uma vida melhor, sofreram com os estragos das geadas, já se depararam com o desânimo por estar sob o jugo de um patrão, já quiseram cruzar a porteira para não mais voltar, já se deslumbraram com a vida na cidade. Sei de passagens assim pelos dois lados da minha família, e mesmo eu não tendo vivido essa realidade, pude, por alguns minutos, me enxergar na época dos meus avós, parar para pensar com maior profundidade nesses galhos tão fortes da minha árvore genealógica. Através dos dilemas, alegrias e tristezas das personagens, consegui me desligar do mundo lá fora e enxergar somente a história que deu origem à região, a Garça e a tantas famílias que ainda vivem aqui.

Uma deliciosa viagem no tempo, uma compreensão maior do que é a vida num “estado de sítio”, pitadas de sonhos e realidade e algumas doses de um romantismo inocente, tudo dentro de uma peça, passados em alguns minutos, mas ingredientes que só fizeram bem aos olhos e a alma. Venho através desse texto agradecer e congratular a Escola Municipal de Cultura Artística (EMCA), o grupo teatral “Evoé ou não é”, ao amigo (e ator) Bruno Antiqueira e as diretoras Susy Mey e Katya Magaly – e ao prefeito, pela intenção de se fazer real a finalização do nosso teatro. São iniciativas e trabalhos dessa natureza que mostram que Garça finalmente está voltando a ter aquela mentalidade que parecia perdida, de apreciar a arte.

Creio que desde a minha infância, a cidade não tinha grupos de teatro tão atuantes, tantas exposições, tantos novos músicos, tantos poetas e escritores tirando seus textos da gaveta. Eu, que já cheguei a presenciar cenas de gente caçoando de teatro, depreciando poesias e zombando de pinturas, fico aliviada por ver e saber que nem tudo está perdido, que ainda há quem pense que não é só porque Garça é uma cidade relativamente pequena, que tem que ficar alheia a movimentos culturais. Claro que há mentes pequenas e pobres que acreditam que cultura é coisa “das elites”. Eu só lamento por esse tipo de pensamento, mas torço para que essa caminhada em prol da disseminação da cultura não acabe nunca. Vida longa ao teatro, à poesia, às artes plásticas e à música. Bom trabalho e boa sorte aos que semeiam a cultura em Garça e sobre Garça. Como disse, certa vez, o general Tchekhov: “Canta a tua aldeia e cantarás ao mundo”.

terça-feira, 10 de julho de 2007

LIVRO DE JULHO


+ ROCK N' ROLL!


E falando em Dia do Rock e em Renato Russo, nada mais óbvio do que recomendar a biografia desse "bom que morreu jovem". O livro vale muito a pena não só porque trata da vida do roqueiro, mas porque menciona o surgimento da Legião Urbana, seus bastidores, o processo de concepção de algumas músicas, a rotina das turnês - destaque para a turnê do álbum V, que acabou antes da hora e provavelmente a mais sofrida para Renato em decorrência do ritmo das viagens, de já ter conhecimento de estar infectado pelo vírus HIV, pela sensação de solidão e pelas bebedeiras. Além disso, o autor - o jornalista Artur Dapieve - cita o nascimento de outras bandas, principalmente as de Brasília, que esquentaram o rock nacional com sua influência punk. O texto flui como uma onda: em alguns momentos é leve, delicado e até humorado (sobretudo quando fala da infância e adolescência de Renato), e em outros, é mais denso e tocante. O autor já começa "noticiando" a morte do líder da Legião, como se fosse num filme que começa pelo fim, e depois nos reporta ao poeta criança.

Um dos trechos que chama a atenção, no capítulo "Eles não têm respostas", conta uma cena perturbadora do pai de Renato entrando em seu quarto e dando de cara com o filho transtornado, atirando seus vários livros no chão (muitos, aliás, de filosofia). Ele, perguntando o motivo de tanta ira, ouviu: "Não adianta isso tudo aí, pai, eles não têm respostas para as minhas perguntas".

Além disso, o livro conta com ótimas fotos, alguns rascunhos e discografia da banda e de Renato.




Renato Russo - O trovador solitário
Autor: Artur Dapieve
Páginas: 188
Editora: Ediouro

segunda-feira, 9 de julho de 2007

UMA BREVE E DESPRETENSIOSA AVALIAÇÃO SOBRE O ROCK NACIONAL

Antes de qualquer coisa só quero reforçar: vou falar sobre rock nacional mesmo! É porque toda vez que se fala de rock, logo se pensa nas bandas americanas e inglesas. Hoje não. Aproveitando que em 13/7 comemora-se o Dia do Rock, gostaria de colocar na balança a fase roqueira dos anos 80 e até um pedaço dos 90 e de hoje, no Brasil. Evidentemente que escolhi essa fase porque vi, em tempo real, o surgimento e consolidação de bandas que marcaram nosso cenário musical.

Saudosismos à parte, quem teve a sorte de crescer nos “anos das trevas”, deve se lembrar bem de como o rock estourou (sobretudo com as bandas de Brasília) e moldou – no bom sentido – toda uma geração. As letras eram mais bem trabalhadas, camufladas com um ar de inocência e irreverência, mas recheadas de mensagens de protestos, ironias, zombarias e referências à política e aos costumes.

Indo na contra-mão da maioria das meninas da minha época, eu nunca fui com a cara da Xuxa, então nunca perdi tempo com aquilo que ela chamava de música. Tive a sorte de conhecer, cedo, o que o rock nacional produzia. O primeiro contato que tive foi com Raul Seixas, no clássico Pluct Plact Zum (e ainda hoje deve ter gente que acha que isso se trata de uma musiquinha bobinha para crianças) e, depois com Legião Urbana e seu casal Eduardo e Mônica, a saga de João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo e o hino Que País é esse?. Não vou ser mentirosa e dizer que eu entendia 100% daquilo que eles falavam, mas ainda assim, o rock já havia me tocado.

Com uns 6 anos, acho, ganhei um K7 com os maiores sucessos das novas bandas: Tédio e Timidez (Biquíni Cavadão), Sonífera Ilha e Homem Primata (Titãs), Ciúme e Nós vamos invadir sua praia (Ultraje a Rigor), Louras Geladas e Rádio Pirata (RPM – aliás, qual mocinha dessa época nunca sonhou em namorar o Paulo Ricardo?), Dias de Luta e Flores em Você (IRA!), Eu não matei Joana D’Arc (Camisa de Vênus), Uma barata chamada Kafka (Inimigos do Rei). Ouvia essa fita até gastar. E ainda marcaram nossos ouvidos o Você não soube me amar (Blitz); Camila, Camila e o Astronauta de Mármore (versão malhada pela crítica, de Starman, do David Bowie, feita pelo Nenhum de Nós), Óculos e Vital e sua moto (Paralamas do Sucesso), Até quando esperar? (Plebe Rube), o açucarado Conquistador Barato (Léo Jaime), Rádio Blá e Me chama (Lobão) e até a banda trash Tokyo, do Supla, com sua Garota de Berlim.

A maior parte das músicas refletia bem a situação corrente do país, especialmente no que dizia respeito à política, às Diretas Já, a nova identidade da juventude, ao resgate dos valores da cultura nacional, esperanças de um Brasil melhor e a certas mazelas do famoso “sistema”. Isso porque o nosso rock contava com jovens engajados, que tinham um bom nível cultural (independente do nível financeiro), e que liam. Liam muito. E ouviam o que a música do resto do mundo tinha a oferecer, ensinar e agregar.

Ao meu ver, parece que havia uma preocupação com o modo de como as mensagens seriam propagadas sem ser apelativos, mas com poesia, com boas referências, com jogos de palavras, fazendo com que os jovens pensassem de fato, dessem asas à subjetividade e enriquecessem seu dicionário de sinônimos. Além disso, são músicas atemporais. Um exemplo disso é Veraneio Vascaína, do Aborto Elétrico (com Renato Russo e Dinho Ouro Preto). Veraneio Vascaína nada mais era do que o camburão da polícia , e a letra menciona a truculência de alguns policiais e a realidade na qual estavam inseridos. Aliás, quem se lembra de Capital Inicial executando Veraneio, Fátima ou Música Urbana e vê o que restou da banda hoje, dificilmente aceita que se tratem das mesmas pessoas. Dinho, que apesar de ainda ser carismático, enxuto e bonitão, parece que se esqueceu de como fazer boas músicas e incorporou o espírito de “banda de moleque”, com mensagens pobres e decepcionantes. Não é preconceito, é só um lamento, mas “bandas de moleques” é o que não falta, é o que mais o mercado tem produzido, como se fosse numa linha de montagem. Músicas muito iguais, melodias simplíssimas, letras bobas dignas de redação de 6º série, um pseudo-engajamento, alienação total. Muita manchete para pouca notícia.

Quando Renato Russo e seus contemporâneos começaram, eles também eram moleques, mas a mentalidade e o cuidado com a música eram muito diferentes. Renato punha em suas letras tudo o que via e sentia de forma poética, aberta a mil interpretações, usava elementos da literatura e filosofia com uma naturalidade ímpar, devorava livros e assim fazia com que a juventude refletisse. No álbum V, por exemplo, 2 faixas ilustram sua riqueza de vocabulário e suas metáforas. Em Metal contra as nuvens, Renato trata de seu eterno problema com as drogas e suas tentativas de reabilitação com um misto de tristeza e delicadeza: “Eu vejo tudo o que se foi e o que não existe mais / Tenho os sentidos já dormentes / O corpo quer, a alma entende / Esta é a terra-de-ninguém / Eu sei que devo resistir / Eu quero a espada em minhas mãos / ... / Não me entrego sem lutar / Tenho ainda coração / Não aprendi a me render / Que caia o inimigo então”. E em Teatro dos Vampiros, ele registra o que se passava na Era Collor: “Vamos sair / Mas estamos sem dinheiro / Os meus amigos todos estão procurando emprego / Voltamos a viver como há dez anos atrás / E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. Resumindo: Renato fez uma geração pensar e garanto que deve ter feito muita gente procurar saber quem foram Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Marx, Engels, Rousseau, Jung, Nietzsche e Pascal.

E o que as bandas novas têm a oferecer? Historinhas manjadas de namoricos mal-sucedidos e uns protestos explícitos e mequetrefes que deixam muitos adolescentes sofrendo de preguiça mental. Certa vez, uma menina disse que não gostava de Legião Urbana porque não entendia nada do que as letras diziam. Bom, ninguém é obrigado a gostar de Legião, mas é lamentável que a juventude, em grande parte, vá atrás do caminho mais fácil que os faz pensar que estão pensando.

Não sei se hoje há o que comemorar, ou se nosso Dia do Rock não deva ser trocado pelo Dia do Pop Rock. Sinto que a pureza, a legitimidade, ousadia, experimentação e filosofia do rock brasileiro se perderam; só ficaram nos corações e nas cabeças de quem viveu naquele tempo bom; de quem, além de Renato Russo, pensou com as poesias cantadas de Cazuza, Humberto Gessinger, Herbert Viana, Bruno Gouveia, Raul Seixas... O rock era, aparentemente, inofensivo, mas essa era a intenção, e quando queriam, nossos roqueiros sabiam ser agressivos, mas sem parecer uns robozinhos imitando os americanos ou se imitando entre si. Eram autênticos e pronto.

O que me conforta é que alguns expoentes dos anos 80 ainda resistem e não perderam sua essência, contrariando essa triste tendência do mercado fonográfico: Engenheiros do Hawaii, Barão Vermelho, Paralamas, Biquíni, Lobão (apesar de ele ter voltado à cena graças ao Acústico MTV), Lulu Santos (mesmo que muitos torçam o nariz para ele, Lulu ainda é um excelente profissional e um dos maiores hitmakers do país sem precisar aparecer nas mídias) e Ultraje a Rigor – irônicos e debochados, são a “pimenta” que dá graça ao nosso rock. Falando nisso, até hoje me lembro de quando o Ultraje se apresentou em Garça, em 2001 (na Tulha); sujeitos simpáticos, simples e divertidos. O oposto desses “estrelinhas” dessa nova geração.

Diante disso e de tantos outros fatores ainda não mencionados por uma questão de tempo e espaço, me resta celebrar o Dia do Rock com aquele gostinho de saudades no fundo da garganta e torcer para que esses “heróis da resistência” continuem firmes e fortes, sem se contaminar com modismos e tendências. Se bem que, como canta Gessinger: “o pop não poupa ninguém”.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

UMA LISTA DE IMORTAIS EM UM SITE À BEIRA DA MORTE

"Uma biblioteca digital é onde o passado encontra o presente e cria o futuro"
(Dr. Avil Pakir Abdul Kalam - Presidente da Índia - 09/09/03)

Em meio a tantas bobagens que se recebe por e-mail, um aviso, no mínimo interessante, chamou-me a atenção pelo apelo inicial: "Precisamos impedir um desastre", referindo-se a sobrevida de um site. Quando recebi pela primeira vez, ignorei por achar que se tratasse de mais um daqueles tantos vírus que não cansam de nos mandar. Só que recebi essa mesma mensagem outras vezes, e já que um vírus a mais ou a menos no meu computador não ia fazer diferença, entrei no link. Num primeiro momento parece exagero que a extinção de um site seja qualificada de desastre, mas, no entanto, a palavra cabe bem já que se refere a um apanhado importante de grandes obras da pintura, filosofia, literatura (inclusive a de cordel) e outras ciências dos campos de Humanas, Exatas e Biológicas (abrangendo teses e dissertações).

Trata-se do site www.dominiopublico.gov.br, criado pelo Ministério da Educação e que está correndo o risco de sair do ar por falta de acesso - o que seria um desperdício. São vários arquivos de texto, som, imagem e vídeo, destinados a consulta de alunos, professores, pesquisadores e, porque não, curiosos e adeptos da apreciação despretensiosa de quadros, fotografias (de cunho histórico e com os principais pontos do Brasil e do mundo), ou da leitura de poemas, contos, crônicas, teorias e discursos filosóficos. Diversos profissionais podem encontrar textos relacionados desde Arquitetura, Agronomia, Veterinária e Economia, até Direito, Sociologia, Teologia, Informática.

O desastre implica justamente na iminência de se perder a chance de agregar outros conhecimentos ou de enriquecer os estudos – isso sem falar em melhorar vocabulário, cultura, articulação, repertório, escrita e tantas outras vantagens que só a leitura proporciona e que a maioria faz questão de ignorar. Parte do desastre já acontece quando tantos alunos jogam fora seu tempo na internet repassando piadas, copiando arquivos "suspeitos", criando perfis esdrúxulos no orkut, criando comunidades sem serventia alguma e desaprendendo a Língua Portuguesa. Sabe-se que inúmeros alunos – e até aqueles que já saíram da escola – lêem muito menos do que deveriam e vários deles ainda reconhecem isso sem um pingo de vergonha na cara. Pensam que com o advento do computador, os livros ficaram obsoletos. Se pensam assim, o que é um equívoco, então que ao menos, usem o computador para pôr algo nessas mentes vazias e preguiçosas que acham que cabeça só serve para levar boné e decorar letras de funk. (Os leitores que me perdoem, mas tudo tem limite e eu já me enchi de ouvir dessa nova geração que livro é chato e ler é perda de tempo). Peço aos professores que divulguem e usem – na medida do possível – com seus alunos, esse site. São obras maravilhosas, consagradas e atemporais, que podem virar temas de debates, seminários e desenvolvimento de textos.

Saliento especialmente as áreas de arte, filosofia e literatura, onde a lista dos grandes imortais é vasta. São quadros de Da Vinci, Michelangelo, Botticelli, Van Gogh e Pissarro. Discursos importantes e passíveis de discussões de Rousseau, Diderot, Schopenhauer, Descartes, Bacon, Kant, Cícero, Voltaire, Platão, Nietzsche, Marx, Sêneca, Comte, Aristóteles, Engels. Confesso que essa é a minha segunda parte favorita do site, já que a primeira é a de Literatura, onde se destacam Mark Twain, Julio Verne, Artur Azevedo, José Alencar, Pero Vaz de Caminha, Charles Dickens, Aluísio de Azevedo, Alexandre Dumas, Honoré de Balzac, Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Bernardo Guimarães, Dante Alighieri, Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Frederico Garcia Lorca, Sófocles, Goethe, Euclides da Cunha, O. Henry, Esopo, Shakespeare, Francisco de Quevedo, Eça de Queirós, Victor Hugo, Olavo Bilac, Miguel de Cervantes, Florbela Espanca, Franz Kafka, Leo Tolstoy... E a lista não pára. São, só aí, 13.396 obras. São nomes que não me canso de conhecer, pesquisar e ler.

Desde que saí do colegial – e nisso já se vão dez anos – eu não tinha mais tido tanto contato com obras da literatura, já que na faculdade a maior parte dos livros era técnica. Voltei a redescobrir e me “reapaixonar” por Machado, Florbela, Lima Barreto, Eça, Drummond, Fernando Pessoa. Quase utopicamente gostaria que um dia algum cabeça de vento passasse pela experiência de conhecer esses imortais e que alguém lhes mostrasse que computador não foi feito para passar vírus, escrever mensagens sacanas, ver fotos indecentes, ofender-se mutuamente em comunidades, assistir a Cicarelli na praia e uma infinidades de baboseiras. No caso desse site que pede socorro, o computador pode funcionar como uma imensa prateleira de livros incríveis. Penso que não há nada que supere o livro de verdade em mãos, mas não custa nada colaborar para que tantas obras não passem despercebidas.
E todos esses artistas e pensadores estão à disposição gratuita para qualquer um baixar, salvar e curtir. Fica, portanto, o recado e o apelo (inclusive para os professores): gaste alguns minutos do seu dia entre essas obras e divulgue-as. É mais do que um favor aos mantenedores do site: é um favor a si mesmo.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

MEU LIVRO DE JUNHO

O mês já está no final e eu ainda não havia postado nenhum comentário sobre livros. Cometi o pecado da preguiça, mas como hoje é dia de um santo, espero que ele me perdoe. Afinal, hoje o dia é de São Pedro - se bem que ele vai ter que me perdoar de novo, já que hoje vim falar de um colega seu: São Francisco de Assis. Ou como chamo carinhosamente: São Chico.

Tenho mencionado seu nome algumas vezes em certos textos meus e hoje, boa parte do que eu sei sobre ele, tirei do livro de Inácio Larrañaga. O autor conta a vida de São Chico, desde quando ele era ainda simplesmente Francisco Bernardone, um moço comum, rodeado de amigos tão boêmios quanto ele. É muito gostoso poder acompanhar as transformações pelas quais Francisco passou até se tornar o Homem do Milênio - o texto passeia pela sua juventude, suas diferenças com o pai, suas dúvidas, seus momentos de reflexão e conversas com Deus, seu amor pela natureza e pelos pobres, seus medos e sua imensa sabedoria e bondade. Há também algumas passagens sobre (Santa) Clara, uma amiga muito especial de Francisco.

Acredito que a história de São Francisco é recomendável até mesmo para quem não é devoto, nem religioso. Mais do que religião, sua história tem a ver com o lado mais bonito da alma humana.

O Irmão de Assis
Autor: Inácio Larrañaga
Páginas: 400
Edições Paulinas

segunda-feira, 25 de junho de 2007

DIVAGANDO SOBRE ÁRVORES

Para compor uma nova crônica, peguei um livro de Lima Barreto, porque tinha a certeza de que ele me inspiraria. Feito. O livro é uma coletânea de textos desse nosso “mulato de todos os tempos”, e uma de suas crônicas, “O cedro de Teresópolis”, é uma das provas de que as letras e a natureza casam perfeitamente. Não estou julgando ou desmerecendo os demais, mas todos os amantes das letras e poesias têm uma ligação maior e diferente com a natureza – provavelmente pela sua já sabida sensibilidade, que muitos confundem com frescura e falta do que pensar.

Enfim, “O cedro de Teresópolis” me encantou e me fez, automaticamente, tecer um paralelo com algumas árvores de Garça. Lima Barreto conta que um amigo seu ficara indignado quando soube que um comerciante pretendia cortar um cedro centenário, que já estava lá, adulto, antes mesmo do nascimento de Teresópolis. O cedro estava na propriedade desse comerciante, ele, portanto, até que teria o direito de corta-lo, mas a árvore era uma das poucas que restavam naquela rua, era um cedro histórico, não incomodava ninguém. Afeiçoado ao cedro, o amigo de Lima propôs ao sujeito, a compra de seu terreno. Mas, infelizmente, suas posses modestas – já que ele também era um poeta – estavam aquém do que o homem pedia como pagamento.

Não se sabe o que se deu, mas certamente o cedro veio abaixo. Lima Barreto lamenta e, já naquela época, 1920, destaca o mau gosto de certas pessoas pela cara totalmente urbana que se estava dando à paisagem, e seu desprezo pela natureza. Como é sabido, Lima viveu no Rio de Janeiro, lugar onde, antigamente, era comum haver casas com aspecto de chácaras, mesmo dentro da cidade, com grandes jardins, pomares, palmeiras e bambuais. Porém, o que ele notava e desgostava, era o pouco caso com a população passou a tratar suas árvores, independente da classe social: “Os nossos arrebaldes e subúrbios são uma desolação. As casas de gente abastarda têm, quando muito, um jardinzito liliputiano de polegada e meia, e as da gente pobre não têm coisa alguma”. Ele lembra que as ruas eram repletas de jasmineiros em cercas, laranjeiras, mangueiras, jaqueiras e até a esquisita fruta-pão: “Os subúrbios e arredores do Rio guardam dessas belas coisas roceiras, destroços como recordações”.

Que diria Lima Barreto, hoje? Nossas áreas verdes ficam cada vez menores e houve um atraso enorme para que grande parte das pessoas se tocasse da importância que as árvores têm. Não apenas agrupadas em florestas e reservas, mas em nossos próprios quintais. Não vou passar um sermão ecologicamente correto nesse texto – pelo menos não hoje. Mas assim como Lima Barreto, apelo para o bom senso estético. O Rio, em sua época, já era uma cidade muito grande e era até compreensível a mudança rápida na paisagem, mas aqui mesmo em Garça percebo a falta de árvores em jardins (nem todos os públicos, mas em muitos particulares) e calçadas. Em algumas ruas, são metros e metros de calçada sem árvores alguma. Convenhamos que toda essa nudez dá um aspecto triste a qualquer lugar.

Lembro-me de ter visto fotos antigas da Praça Pedro de Toledo, onde as copas das árvores, que de tão vastas e juntas, pareciam uma coisa só (não que as quaresmeiras de hoje não agradem). Por que elas foram tiradas de lá, por uma questão de segurança? Afinal, conta-se que a sombra que elas faziam era realmente escura e densa. Seja como for, é uma pena que tenham saído de lá. Lamento também não ter tido tempo de conhecer a famosa aldrava da Praça Tancredo Neves, cantada e lembrada por alguns amigos da APEG e do teatro.

Com algumas exceções (como tudo na vida), alguns jardins de Garça me remetem aos jardins do Rio de Lima Barreto. Algumas poucas polegadas de verde e uma carência óbvia da beleza que as árvores têm. Seria uma questão de praticidade ou puro mau gosto? Já ouvi gente dizer que não quer nem saber de árvores ou qualquer planta em casa porque não quer ver sujeira de folhas. Nesse caso reina a preguiça. Temo só em pensar se todos tivessem essa mentalidade. Hoje vejo que plantas e flores dão lugar a grades de todos os tipos – umas até parecem gaiolas e fazem questão de enfear a rua. Segurança é uma coisa, falta de sensibilidade é outra. Será que tanta grade e quase nada de verde, não causa depressão? Eu não sei, já que afortunadamente sempre vivi cercada de plantas. De algumas poucas até sei o nome, reconheço folhas, flores e aromas, mas o que mais gosto nelas é sua presença, é simplesmente o fato de elas estarem ali.

Quando nasci, meus pais providenciaram uma arvorezinha que crescesse junto comigo. Era tão magrinha quanto eu, mas viveu saudável e graciosa até meus 25 anos. Mas esse gesto foi muito bonito. Ainda hoje existe esse costume, de fazer com que os filhos cresçam junto com uma árvore? Ainda há tempo e preocupação com isso? A resposta é tão rápida quanto conveniente: “sabem como é, a vida hoje anda tão corrida... ninguém tem tempo para plantar nada”. Nem de plantar, nem de contemplar.

Quando eu era criança, existia na rua Coronel Joaquim Piza, uma pizzaria chamada Flamboyant. Em seu terreno havia uma árvore enorme, linda, cheia de vagens carregadas e flores vermelhas – daí o nome da pizzaria. Muitas famílias freqüentavam o lugar, só que os adultos esperavam pelas pizzas e as crianças não queriam saber de descer do flamboyant. Ir àquele lugar, para mim, não era sinônimo de comer, mas sim de brincar naquela árvore. Vinte e tantos anos depois, tenho curiosidade de saber que fim levou aquele gigante varal de flores vermelhas.

Hoje tenho um carinho em particular por uma arvorezinha do lago. Sei que o lago é o lar dos ipês amarelos e, sobretudo das cerejeiras, mas falarei delas com gosto numa outra ocasião. Agora é a vez da tímida pitangueira que vive no terreno onde um dia foi um brejo repleto de taboas. De tanto caminhar por ali, vi aquela pitangueira crescer, florescer e dar frutos – muito gostosos, aliás; vi sua troca de folhagem e já temi algumas vezes que ela sumisse por conta de vandalismo. Sempre que passo por lá, dou uma conferida para ver se há uma ou outra pitanguinha “temporão” disponível, e isso já virou um hábito. Vejo essa pitangueira como se fosse também um pouco minha, não que eu a tenha posto lá, mas porque a vi crescer e por gostar de parar para olha-la, nem que seja por alguns segundos.
Plantar, colher, preservar, observar, contemplar e cantar em versos uma árvore poderia ser algo inerente a todas as pessoas, já que isso – sem querer fazer nenhum trocadilho – semeia em nossas almas apenas idéias e sentimentos positivos. Mas a preguiça, o descaso e o mais puro mau gosto ainda imperam em muitas cabeças. Há uma frase que diz que temos que passar pela vida e ter filhos, escrever um livro e plantar uma árvore. Só sei de gente fazendo gente. Onde estão os livros e as árvores?

terça-feira, 19 de junho de 2007

SOMOS PROFETAS A PREGAR NO DESERTO

“Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal e neste dia, todo crime contra um animal será crime contra a humanidade”
(Leonardo da Vinci)

Pensei inúmeras vezes em como começar esse texto. Já ensaiei muito para escreve-lo. Tenho pensado nele há tempo demais. Não que meus escritos sejam a coisa mais aguardada do mundo e que eu precise fazer um certo mistério a cerca deles. Mas é que eu temia ser agressiva ou amarga além da conta ao tocar nesse assunto. Por isso – nessa espécie de desabafo – vou tentar ser direta.

A cerca de dois anos assisti a um documentário que me chocou muito: os maus tratos aos animais em rodeios. Já sabia que isso existia, mas até então nunca havia visto tais cenas. Vi, muda, a reportagem toda. Desde a época do governo Fernando Henrique, quando rodeio passou a ser considerado oficialmente um esporte, que existe uma polêmica crescente sobre como os animais são tratados nesses eventos. Já li e vi muitas entrevistas, debates, gente atacando e gente defendendo tal atividade. Evidentemente que nessas alturas eu já havia pendido para um lado bem definido nessa questão. E não tenho um pingo de vergonha em assumir que chorei ao ver o espancamento de bezerros, cavalos com a boca sangrando, touros levando choque, animais sendo cutucados com lanças por pessoas que riam ao fazer isso. Riam e diziam ao repórter, com a maior calma do mundo, que aquilo era só uma “cosquinha” para que os animais pulassem. Cada vez que me vêem tais imagens à cabeça, sinto um desprezo ainda maior pela raça humana. Ou como diria Mark Twain, adorador dos gatos: pela maldita raça humana.

Como eu disse, temia fazer esse texto, porque eu sabia que em algum momento eu soaria agressiva. Também não quero criar inimizades e nem provocar pessoas com visões diferentes das minhas. Não se esqueçam que a maldita raça humana é feita de diversidades. Sei que ao ser contra rodeios, eu vou bater de frente com muita gente. Não sou contra a festa em sua totalidade, só não concordo que se explorem animais para o divertimento – bem como em circos e parques aquáticos. Também não vou ser cínica e assumo que como carne. Tenho consciência de como os animais são abatidos, isso é extremamente conflitante para quem não é vegetariano, mas creio que alguns animais são sim para alimentar o homem, outros servem de companhia, outros nem deveriam ter contato com seres humanos e JAMAIS nenhum deles deveria ser usado para simples entretenimento. E entendo que no Brasil, pedir para que se pare com rodeios é inútil. A existência de rodeios é um caminho sem volta, já está incorporado na cultura do brasileiro, é uma indústria que movimenta muito dinheiro e gera muitos empregos.

Para que esse texto fosse concebido, pedi a opinião de algumas pessoas, e como manda a lei primeira dos jornalistas, ouvi os dois lados. O de quem defende e o de quem condena. Refleti bastante e parece besteira perder tempo e energia pensando tanto num simples texto sobre animais. Para mim não é besteira porque amo os animais tanto ou até mais do que a muita gente, mas por outro lado, não quero criar divergências nem ser apedrejada por expressar o que penso. Quem me lê agora não imagina o cuidado que estou tendo ao escolher as palavras. Cuidado e esforço, já que fica difícil não ser amarga quando penso não somente em animais pulando de dor em uma arena ou sendo usados na “brincadeira” do laço, mas sendo chicoteados em circos, sendo abandonados em estradas, usados em experiências, contrabandeados, caçados, separados de suas crias, torturados por prazer. Quando eu era criança, era muito comum ouvir histórias de gente que amarrava bombinhas nas caudas de cães e gatos, matava formigas queimadas com uma lupa, atirava pedras em passarinhos e punha sal nas costas dos sapos. Só que depois que cresci, continuei a ter notícias dessas mesmas cretinices. Não tem muito tempo, um conhecido me contou, às gargalhadas, que explodiu o rabo de um gato com bombinhas. Óbvio que nunca mais conversei com essa pessoa e fiz questão de esquecer seu nome. Aprendi que ter raiva do próximo é pecado. Mas eu não sou santa e nem pretendo ser. Tenho raiva sim. Tenho pena também, pois acredito que quem judia de animais para se divertir, deve ter alguma deficiência mental, espiritual, afetiva.

Sou uma apaixonada incurável por gatos. Tenho nesses bichos grandes amigos, companheiros, ouvintes. Atrevo-me a dizer que os gatos despertaram o que há de melhor e o que há de pior em mim. Transmitem-me calma, me despertam curiosidade, me ensinam a ser mais serena, me fazem rir quando brincam; me mostram que independência, liberdade e amor podem conviver juntos sem que um implique na extinção do outro. Como os antigos egípcios, vejo nos gatos, pequenos deuses que nos mostram todos os dias como ainda temos muito que aprender. Já meu lado pior vem à tona quando me lembro de casos de gatos que foram mortos por envenenamento e espancamento. Na verdade não são os gatos que me despertam o lado mau, mas a ignorância das pessoas que acreditam que só porque animais não falam, também não sentem dor. Animais sentem dor no corpo e na alma. Têm depressão, têm traumas, têm medo. Do mesmo modo que uma criança que é espancada, se torna um adulto cheio de complexos, um animal mal tratado e rejeitado vive permanentemente assustado.

O que me abrandou um pouco e me fez pensar muito bem no que escrever foram algumas palavras de São Francisco de Assis. Vejo São Chico muito mais do que um simples padroeiro da Ecologia. Deveria ser padroeiro de tudo o que é avesso às maldades humanas. Ele amava todas as coisas da natureza: sol, árvores, frutas, arbustos, aves, insetos. Chamava o fogo de irmão, as raposas de irmãs. Parava para admirar teias de aranhas, as luzes dos vaga-lumes, os saltos dos gafanhotos e o barulho das cigarras. Tinha nos pássaros uma fiel platéia. Tinha um carinho especial pelas criaturas mais indefesas e de aparência mais feia. No livro “O Irmão de Assis”, de Inácio Larrañaga, existem alguns trechos a esse respeito, sobretudo no capítulo “O bosque e seus habitantes”. Conta-se que certa vez, caminhando pelo bosque, Francisco se deparou com uma teia, onde a aranha lançava-se sobre a mosca, “O Irmão ficou admirado com a destreza da aranha. Poucos segundos depois, invadiu-o uma grande tristeza e não sabia dizer por quê. Sentiu uma aversão profunda pela aranha, levantou a mão para destruir aquela teia maravilhosa, tecida com tanta simetria e beleza. Mas deteve-se e disse em voz alta: ‘Não destruir nada! Não desprezar nada!’. Reprimiu seus sentimentos de aversão e não quis continuar a pensar. Foi embora depressa e com a alma em silêncio, pensando em voz alta: ‘Está tudo bem!’”. Do mesmo modo o Irmão Francisco repudiava as aves de rapina por seus hábitos e os batráquios pelo seu aspecto, mas parava para refletir e observa-los. Via neles a sabedoria com que Deus as havia criado, a partir daí, as tinha em grande conta.

Até mesmo São Francisco, em algum momento, sentiu aversão por alguns animais, mas instantes depois, olhando para eles com ternura e com a consciência de que sua criação era obra divina, passou a ter-lhes carinho e a chamar-lhes de irmãos. Custa-me a entender por que é que tanta gente não consegue fazer o mesmo. Pessoas matam sapos e lagartixas simplesmente porque os acham feios.

Existem algumas correntes religiosas e filosóficas no oriente que dizem que uma pessoa que judia de um animal tem seu castigo na Terra, mais cedo ou mais tarde. Não sei se castigo é exatamente a palavra, mas de alguma forma, a pessoa paga pelo mal que fez. Ao contrário dos ocidentais, os orientais vêem os animais com respeito e reverência. Por isso, ser cruel com um animal tem seu preço; geralmente uma morte lenta, uma doença sem cura, um sofrimento prolongado. Independente de religião, eu creio nisso e já soube de casos dessa natureza, bem próximos a conhecidos meus. Não sou vingativa e nem jogo praga em ninguém, mas poder acreditar nessa compensação é uma das coisas que me confortam. Eu não tenho muito, mas que Deus ou alguém tenha piedade dessas pessoas diminutas e ignorantes, que ainda têm muitas vidas a viver até que aprendam que nada no mundo vale a agonia de um animal.

Outra coisa que me consola é saber que não sou a única a pensar dessa forma. Uma das razões que me levou a escrever esse texto foi a mensagem que recebi de um colega da internet. Disse-me ele que gostaria de formar em Garça um grupo que se envolvesse com assuntos ligados ao meio ambiente e a defesa dos animais. Ainda que leve tempo para juntar pessoas realmente interessadas, não gostaríamos que esse ideal morresse antes mesmo de começar. Esse texto, por enquanto, é o mínimo que eu podia fazer para chamar a atenção de algumas pessoas para a intenção desse grupo, e caso alguém queira – e tomara que queira – ajudar a levar adiante essa idéia, agregar outras propostas e fazer o grupo crescer, o idealizador desse projeto, Zezinho Honório, autorizou-me a divulgar seu e-mail: josehonoriofilho@yahoo.com.br
Por enquanto somos profetas a pregar no deserto – assim como tantos ambientalistas têm sido ao longo desses anos. Individualmente não podemos fazer muita coisa, mas como diz certa música de (mais uma vez) Raul Seixas: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

DEVAGAR SE VAI AO LONGE.
OU, DEVAGAR SE VAI ATÉ 2010?

Já fazia um bom tempo que eu não escrevia sobre o Lula. Em parte porque acho que perdi o jeito – se é que algum dia eu o tive – e em parte porque já não acompanho mais política com o mesmo entusiasmo de antes. Meus dias mais produtivos foram na época das eleições – evento do qual gosto bastante. Dá um gostinho especial escrever perto, durante e após as votações, especular sobre resultados, duvidar de pesquisas, participar de rodinhas de discussões, ouvir “sem querer” conversas alheias a respeito dos candidatos, analisar debates, resenhar sobre campanhas, rir dos mesmos discursos e, vez ou outra, se deparar com alguma proposta diferente, curtir a expectativa das apurações e, nesse nosso atual caso, se frustrar com os resultados.

Depois do dia da posse, não me lembro de haver escrito alguma coisa sobre nosso etílico presidente. E há quem tenha me cobrado isso: “E aí, o que você vai escrever sobre o Lula agora?”. E noto que decepciono quando respondo: “Dessa vez eu escrevi sobre o Palmeiras”, ou “Agora vou falar sobre os anos 80”. Afinal, escrevo mais sobre aquilo que gosto. Aos que ainda esperavam um texto meu a respeito do nosso ex-agitador-grevista que hoje condena greves, sinto muito, mas não foi dessa vez... Como disse, já não acompanho política com o mesmo afã. Talvez seja um tipo de protesto solitário e silencioso, ou uma maneira de boicotar notícias sobre um governo moroso que só não tem preguiça para inventar ministérios.

Já faz algum tempo que troquei as colunas de política por livros de Sêneca, Lúlio, Maquiavel e filósofos pré-socráticos. Já que é para eu me desligar, então que pelo menos eu não me aliene. Tem horas em que é bem mais vantajoso passear em paisagens gregas e pela Europa Medieval do que saber a quantas anda Brasília. E fico feliz por não estar sozinha. Guardadas as devidas proporções, já que nem de longe posso me comparar a ele, quem também anda sendo cobrado a escrever sobre o “metamorfose ambulante” é João Ubaldo Ribeiro. Seus leitores lhe perguntam quando é que ele vai voltar a malhar o governo, e tomo a liberdade de fazer minha a resposta dele: “Como malhar algo que ainda não existe?”. Pois é, o governo Lula-2007 ainda parece não ter começado. Os seus 1001 ministérios só acabaram de ser escalados em abril. O caos na aviação civil ainda é figurinha fácil nas mídias. E, ao contrário do que Lula diz, temos mais desemprego hoje do que nas décadas de 80 e 90. O Brasil ainda está no ranking dos países onde se paga mais impostos. A biopirataria corre solta e não se vêem autoridades (essa palavra me incomoda) mexendo uma palha – acreditam que o Canadá patenteou o pau-brasil? Uma porção de espertinhos continua mamando nos programas assistencialistas Fome-Zero, Bolsa-Família, Vale-Gás, Vale-Isso, Vale-Aquilo. Muitos até precisam, é verdade, mas tantos outros acham mais interessante parar de trabalhar e contar com tais mesadas. Afinal, para que ganhar 300 e poucos por mês, madrugar, enfrentar conduções lotadas, pegar chuva e correr o risco de ser assaltado, quando se pode ficar coçando o dia inteiro e fazendo uma penca de filhos? Ao meu ver é isso o que as mesadas de Lula têm criado: uma legião de acomodados com uma escadinha de crianças. Mas, claro, cada caso é um caso, e antes que pensem que eu tenho um coração de pedra, vou parar com esse discurso. Lembram-se? Não estou aqui para falar do Lula, do que ele fez ou deixou de fazer. Como boa brasileira que sou, vou me sentar e fingir que nada está acontecendo. Na verdade, e sem querer ser derrotista, mas adianta alguma coisa falarmos tanto? Nada do que dissermos vai mudar o que já foi feito – ou desfeito. Arnaldo Jabor, que tanto já disse e que já foi censurado por Lula, ele sendo quem é, também já se cansou de dar murro em ponta de faca. Ficou patético falar de Lula. Tão chato quanto ladainha de mãe. Tão emocionante quanto aula de cálculos. Lula faz a alegria dos mais pobres (não que haja algum pecado nisso), mas conseguiu deixar o restante paralisado. O mesmo restante que, creio, ainda espera por reformas nesse país. Mas parece que, por enquanto, estamos de mãos atadas. Isso me lembra uma frase do eterno Raul Seixas (já que Lula o citou, também cito eu): “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Acredito que todos nós, o resto para quem Lula está se lixando, até podemos estar sentados num trono de um apartamento com a boca escancarada, mas antes que a morte chegue, esperamos ainda por mais ação e menos falatório.

Só que o tempo está voando. E o Brasil está chato. A oposição, que também não é mais a mesma, está chata. Até o texto está chato! Então, quando Lula de fato se metamorfosear, talvez eu escreva algo mais decente sobre ele.
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23 / 05 / 07 (Dia Mundial da Tartaruga)