quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Shakespeare, I love you!


Ao contrário da indicação shakespiriana anterior, o envolvente suspense quase paranormal Macbeth, As alegres matronas de Windsor apresenta um enredo bem mais leve, divertido e até açucarado deste inglês pelo qual eu me apaixonei irremediavelmente.

Em 1597, William Shakespeare recebeu a incumbência de escrever “para ontem” uma peça, encomendada pela Rainha Elisabeth. 14 dias depois ele lhe apresentou essa comédia farsesca de costumes que aponta os gostos e desgostos dos relacionamentos, entre ciúmes, suspeitas, traições, artimanhas de sedução, entre outras passagens que fazem dessa obra uma de suas melhores peças e de Sir John Falstaff um de seus personagens mais queridos – ao lado do emblemático Hamlet.
Conforme o nome sugere, o caso todo se dá na cidade inglesa de Windsor e Falstaff, um gorducho azarado e falido tenta achar um meio de voltar a ter uma boa vida sem fazer esforço. Acreditando piamente que é irresistível, ele vê nas senhoras Ford e Page a saída para a sua maré de má sorte.

Ensaiando um discurso de conquista e mandando bilhetinhos através das criadas, ele pretende seduzir as duas (sem que uma saiba da outra) para depois desfrutar do dinheiro de seus maridos, dois dos homens mais ricos das redondezas. Shakespeare faz das duas amigas, mulheres espertas, e esse é um dos pontos mais bacanas da obra. As senhoras Ford e Page logo percebem as intenções interesseiras de Falstaff, que usa o mesmo texto manjado nas cartas para ambas. Assim que elas notam o embuste, partem juntas para um engraçado plano de vingança. O que se dá na sequência é uma série de cenas ótimas em que Falstaff se torna – merecidamente – vítima do cinismo das matronas, que inventam várias formas divertidas de humilhar o golpista. Ele, mesmo se vendo em situações ridículas (como na hora em que se mete num cesto de roupas sujas para se esconder do marido de uma delas), ainda acredita em seu poder de sedução.
As confusões aumentam quando o Sr. Ford, não sabendo ainda da combinação das amigas, crê que sua esposa realmente pretende traí-lo com o luxuriento mentiroso e “convida” o Sr. Page para aplicar-lhes um flagrante.
Paralela às agruras do conquistador feioso, há ainda a história da senhorita Ana Page, cantada por três rapazes, Slender, Dr. Caius e Fenton, que com suas virtudes e “senões”, disputam a atenção da moça.
 
Apesar de todas as judiações que as matronas aplicam no embusteiro, há também um certo toque fraternal mantido por Shakespeare. Mas o diferencial está sem dúvida na movimentação das cenas – talvez uma de suas obras mais “agitadas” – com diálogos afiados e situações cômicas. É uma prova de que trabalhar sob pressão funciona e Shakespeare deu, não somente à Rainha Elisabeth, mas a todos os apaixonados por literatura, um grande presente.

As alegres matronas de Windsor
Autor: William Shakespeare
Editora: L & PM Pocket
Páginas: 136



"Miau" livrinho da semana:


Em resposta àqueles que dizem que gatos não têm serventia, que só se apegam a casa e não ao dono, que são oblíquos, dúbios, traidores ou até amaldiçoados (a ignorância desconhece limites), o escritor norte-americano Sam Stall fez a delicadeza de mostrar que os felinos, ao contrário de todos esses grandes absurdos, deram sua contribuição para a História, participando de importantes episódios das ciências, artes, política, literatura e religião.

Só quem convive, adota, cria, salva e ama os gatos entende como eles gostam de seus donos e que nem por isso deixam de ser eles mesmos. Eles são a pura tradução do amor autêntico, sem amarras: o gato é livre, vai onde quer e quando quer, mas nem por isso deixa seu dono para trás. Quem estiver disposto a ter um felino deve aprender a praticar o desapego e a compreensão. Grandes lições, sem pronunciar uma palavra.
Os gatos estão na vida dos humanos desde tempos imemoriais, evoluindo também, mas alheios aos avanços do homem – seus companheiros bípedes podem tomar o rumo que quiserem desde que para eles, felinos, não lhes falte comida, areia e um lugarzinho ao sol, de preferência no alto, de onde ele pode observar o mundo. Entretanto o relacionamento entre nós e eles passou por altos e baixos: os gatos já tiveram os postos de divindades – como Bastet, a deusa gata do Egito que também habita meu quarto – até os gatos cúmplices das bruxas na Idade Média, que eram, junto com as injustiçadas mulheres, caçados e queimados. De caçadores de ratos em silos, navios e porões até amáveis companheiros de cientistas e escritores.

Ofuscados pelos feitos dos cães, os gatos se mostram mais astutos e inteligentes – convivendo com dezenas deles há tanto tempo, já notei as diferenças e sei bem do que eu e Stall falamos.
100 gatos traz uma lista de bigodudos que deram uma forcinha em várias áreas do conhecimento humano como Snowball, o gato que prendeu um assassino; Macek, o gato que brilhou no escuro; o irritante felino de Sir Isaac Newton que o inspirou a criar as portinhas para gatos; Tee Cee, o gato que previa convulsões; Muezza, a gata favorita de Maomé; Cattarina, a gatinha que tocou o coração negro de Edgar Allan Poe; Mrs. Chippy, o gato que explorou a Antártica; Félix, o primeiro gato a visitar o espaço ou até um bichano que ligou para a polícia para salvar seu dono.

Alguns, é certo, criaram algumas confusões, mas com as melhores intenções, como o gato “fornecedor” que levava pombos para matar a fome de um preso; Oscar, o gato que afundou o Bismark, navio alemão no auge da 2ª Guerra Mundial ou Cobby, o gato que roubou o coração do seu dono – literalmente.
Além dos gatos de carne e osso, cujas histórias são verídicas e belamente contadas, há ainda alguns felinos cuja origem quase se perde no tempo, mas que fizeram surgir lendas, costumes e até ícones famosos, como o maneki neko. Hoje comumente encontrado em estabelecimentos comerciais orientais como lojas, restaurantes e mercadinhos, esse bichano que segura uma moeda com uma pata e acena com a outra é símbolo de prosperidade e boa sorte. A origem da figura, embora tenha características mitológicas, também parece ser bem real e nos remete ao período Edo no Japão (1603 – 1867). Mas atualmente a cultura pop se apoderou desse símbolo transformando-o inclusive em desenhos e produtos, capturando seus traços nos dando personagens como o pokémon Meowth e a gatinha Hello Kitty.

Selvagens, deuses, bruxos, caçadores, presentes na ciência, na literatura ou no espaço, abrandando ou roubando corações, não há como não amar esse delicioso mistério da natureza, ou como define Stall: “Os gatos são um tipo misterioso de criaturas. Há mais coisas na mente deles do que nós imaginamos”.

100 gatos que mudaram a civilização – Os gatos mais influentes da História
Autor: Sam Stall
Editora: Prumo
Páginas: 248

Mulheres no Brasil Colonial


Antes que se pense o contrário, não se trata de um discurso feminista. Mas de um levantamento no mínimo justo sobre o papel das mulheres no período colonial brasileiro, tanto dentro das casas e das famílias, quanto nas ruas, nas sarjetas, nos campos e nas senzalas.
É um breve relato, sucinto e valioso que descortina o mito de que a mulher era um mero enfeite, peça de troca entre famílias, parideira ou burro de carga de seus maridos e senhores. Até eram. Mas não unicamente isso. Dentro de um contexto desfavorável, nossas mulheres coloniais fizeram muito, foram além do que imaginamos ou aprendemos nos comuns livros de História. Nossas ancestrais também tinham suas armas, seus meios, seus métodos persuasivos, essenciais para sua sobrevivência.

A obra, da historiadora, doutora e escritora Mary Del Priore, analisa, com base nos hábitos, costumes e privações as origens do machismo no Brasil, ainda tão presente em nossa realidade, e mostra que aquela máxima de mau gosto que diz que lugar de mulher é na cozinha não passa de um pensamento paupérrimo. Lugar de mulher é na História.
As mulheres escravas, negras ou índias, “estudando” o modo de agir e pensar de seus senhores, tinham seus métodos para conseguir alguma condição de vida um pouco melhor, ou um pouco menos sofrida, uma vez que a Igreja não permitia os casamentos inter-raciais. Elas eram mais diplomáticas que os homens nas relações pessoais com seus donos e tinham algum poder de convencimento sobre eles para conseguir sua liberdade ou a de seus filhos – bastardos – lhes prestando bons serviços ou suprindo certas carências que o casamento por vezes não proporcionava ao senhor de engenho. A miscigenação do povo brasileiro se deve muito a essa prática.
Assim, temos as mulheres que se mostraram grandes mães, geralmente as mais pobres, cujos companheiros eram negligentes ou inexistentes, o que aumentava ainda mais a sua luta pela vida. Isso ajuda a combater de algum modo, a imagem negativa que se tem dessas mulheres pobres e marginalizadas, tidas como mães ruins que apelavam para o infanticídio ou aborto, que eram vistas desgarradas e promíscuas. Entretanto, seu modo de sobrevivência era resultado de uma sociedade opressora e de instituições omissas. Algumas até chegavam a esses extremos, de matar seus próprios filhos, tomadas de profundo desespero, no auge do abandono.

 
Já as senhoras brancas, as esposas oficiais, eram obrigadas a tolerar a ideia de dividir seus maridos com suas escravas e suportar dentro de sua casa os rebentos, frutos dessas traições, tão constantes e até normais, naqueles tempos.
As relações de afetividade eram discretíssimas, mas havia perseguições por parte das senhoras para com as escravas preferidas de seu senhor, mas nada que fosse tão escandaloso que pudesse macular sua imagem perante os familiares e a sociedade. Mas elas tinham que engolir a seco certos “desaforos”: quando a esposa não podia dar um filho ao marido, o bastardo (negro ou índio) era então reconhecido como legítimo e passava a ser herdeiro dos bens da família.
Naqueles tempos as mães solteiras já se viam na missão de assumir uma dupla jornada de trabalho, a fim de prover o sustento e a liberdade dos filhos: quando não estavam na lida da casa grande, estavam nas ruas com seus tabuleiros de frutas e quitutes. As solteiras, viúvas e “mulheres do mundo” que tinham que assumir o papel de esteio da família e que possuíam algum bem, como gado, se embrenhavam pelas estradas em lombo de burro para negociar seus produtos. Elas eram comumente encontradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

As que iam para as cidades também precisavam se virar e algumas conseguiam escapar da prostituição. As imigrantes portuguesas podiam viver de suas costuras, da venda de doces ou sendo donas de seu próprio estabelecimento – as mais “ousadas” tinham seu comércio e ganharam certo respeito, como foi o caso da taberneira lusitana Maria Mena. As índias eram peça fundamental para a manutenção das tribos, cuidavam da alimentação e das crianças, carregavam os mantimentos e serviam como “presentes” para os portugueses e franceses. Nas cidades ou nos campos, as mulheres que possuíam conhecimento ancestral fitoterápico e que cultivavam ervas em seus quintais, sabiam de suas propriedades e as manipulavam, eram consideradas renomadas curandeiras.
Ainda que a maioria esmagadora não fosse vista como ser pensante na sociedade, fosse analfabeta, politicamente nula e praticamente invisível, sem elas nenhuma dessas estruturas – tribo, colônia, cidade – não teria vingado.
É evidente que a obra é bem mais rica do que essa descrição. É leitura obrigatória para quem, como eu, ama a História do Brasil ou para quem ainda acredita que o país foi feito apenas por grandes homens. O curso da criação da sociedade brasileira foi traçado por grandes mulheres anônimas.

Mulheres no Brasil Colonial – A mulher no imaginário social. Mãe e mulher, honra e desordem. Religiosidade e sexualidade.
Autores: Mary Del Priore
Editora: Contexto
Páginas: 95



TOCA RAUL!

“Eu sempre quis ser cantor, de rock. Foi a única música que me influenciou. Antes disso minha inclinação era a literatura. Estudava muito filosofia, literatura, e não tinha tempo para cantar profissionalmente; nunca havia pensado que a música poderia ser um veículo importantíssimo para dizer o que eu queria. Quando tomei consciência disso foi ótimo. Gosto de falar de mim. Sou individualista. O rock é o melhor ritmo para gente dizer uma porção de coisas.” (Raul Seixas)

Ainda celebrando (sempre) o Dia Mundial do Rock, faço questão de lembrar o nosso rei Raul. Bom, rei talvez não seja um título que agradaria a Raul, creio, pois genioso, era avesso a esse tipo de rapapés. O fato é que Raul é o maior e mais emblemático roqueiro do Brasil. Foi ao exterior e bebeu na fonte de músicos como Elvis (um de seus ídolos maiores) e deu um tempero nordestino a tudo o que absorveu.

Raul Santos Seixas, aparecido em Salvador em 28/6/45 e desaparecido em São Paulo em 21/8/89, acumulou, além do apelido de “Maluco Beleza”, o de “Pai do rock brasileiro”. Ao longo de seus 26 anos de carreira, Raul foi pioneiro quando misturou o rock com o baião. Let me sing, let me sing é a maior referência dessa ousada mistura.



A sua vida foi até relativamente curta, porém intensa, lotada de histórias, trabalhos, desafios e desaforos, criatividade e provocações. Muitos autores tentaram e tentam ainda hoje sintetizar tanta vivência em um livro, mas o trabalho não é fácil. Entretanto, as duas obras que li – até agora – trazem, na medida do possível um apanhado interessante sobre a vida e obra de Raulzito, o canceriano sem lar.

Organizado e ao mesmo tempo solto, Verdade Absoluta é feito de retalhos de depoimentos de pessoas (afortunadas) que conviveram com Raul e que com ele dividiram situações – ora inusitadas, ora comuns, mas que renderam citações, citações que renderam letras, que renderam músicas, que renderam algumas verdades.

Um das (várias) passagens diz que “Inspirado no anarquista francês Proudhon (1809 – 1865), depois que leu ‘Filosofia da Miséria’ e ‘Resistência ao Exército’, decidiu que não iria servir ao Exército. Também não queria prosperar. Proudhon dizia: a prosperidade é um roubo. Iria usar a música para meter a boca, reclamar: ‘Vamos ver agora quem é que vai aguentar!’”.

E um dos pontos mais bacanas do livro, além do óbvio, está nas últimas páginas, com referências organizadas de cada citação, de onde ela saiu e onde ela foi parar. Por exemplo: “Vamos ver quem é que agora vai aguentar”:
Página: 119
Origem: Disco 8 (Há 10 mil anos atrás – 1976)
Consta na música/texto: Eu também vou reclamar
Autores: Raul Seixas e Paulo Coelho

E isso acontece com todas as centenas e centenas de frases de Raul. Ou seja, aqui ele aparece destrinchado, esmiuçado, mastigado – e deliciosamente digerido.

Raul Seixas por ele mesmo foi escrito a partir de entrevistas, frases, declarações, palavras soltas, pensamentos, papéis avulsos, porém reveladores, produzidos durante sua estada por aqui, até o dia em que “o moço do disco voador” o levou. As histórias foram reunidas e organizadas pelo escritor e amigo de Seixas, Sylvio Passos, fundador do Raul Rock Club/Raul Seixas Oficial Fã-Clube. Não é exatamente uma obra autobiográfica, mas por muitas vezes a impressão que temos é que Raul fala diretamente conosco. É como se ele puxasse uma cadeira e se sentasse diante da gente e nos explicasse suas mais simples verdades: “Daí eu juntei Luiz Gonzaga com Elvis. Eu não fiz um ritmo ‘rock-baião’. Isso foi informação musical. Aconteceu! (...) O som de Let me sing, let me sing é de 56; apesar de parecer uma gozação, eu acho esta música seríssima, é apenas o início de um trabalho muito grande que eu pretendo desenvolver degrau por degrau (...) Não tenho estilo, eu tenho é muita coisa pra dizer. E digo (...) Eu creio na abertura mental que vem por aí. Até então as portas estiveram fechadas. Devagar elas vão se abrindo e nunca mais, nunca mais se fecharão”.



Raul por ele mesmo é o nome mais justo que se pode dar a essa obra, pois entre uma declaração e outra é como se ele baixasse um pouco a guarda e fizesse as vezes de um amigo mais velho e experiente que tenta nos levar à luz, ao conhecimento, à liberdade, à pedra do Gênesis, “ao segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores”, a uma verdade que está bem diante dos nossos olhos, que até podemos tocar.

Raul Seixas – A verdade absoluta – Filosofias, políticas e lutas
Autor: Mário Lucena
Editora: Mac Bel – Oficina de Letras
Páginas: 225
(acompanha CD inédito, com letras feitas para Raul, de Roberto Seixas – amigo e cover de Raulzito)

Raul Seixas por ele mesmo
Autor: Sylvio Passos
Editora: Martin Claret
Páginas: 176



quinta-feira, 7 de julho de 2011

RENATO.

Indicação de leitura
Renato Russo – o trovador solitário


Julho é o mês internacional do rock. 13 é o dia. A data comemorativa remete à primeira edição do Live Aid, em 1985, um show gigantesco que ocorreu simultaneamente em Londres (Inglaterra) e Filadélfia (Estados Unidos) e foi transmitido ao vivo pela BBC para vários países, com o intuito de chamar a atenção do mundo para o problema da fome na Etiópia. O evento contou com a participação de gênios do rock como The Who, Status Quo, Led Zeppelin, Dire Straits, Madonna, Queen, Joan Baez, David Bowie, BB King, Mick Jagger, Sting, Scorpions, U2, Paul McCartney, Phil Collins (que tocou nos dois lugares), Eric Clapton e Black Sabbath.
O rock ´n´roll, ao contrário do que muita gente (desinformada) imagina, não é feito por gente desocupada e com coisa alguma na cabeça. Os roqueiros de verdade, os autênticos, os que definitivamente nasceram para isso, são inteligentes, cultos, sensíveis, um pouco excêntricos é verdade, mas colocam sua alma naquilo que fazem e por isso o rock não morre nunca.
E em virturde desta data, nada mais óbvio do que recomendar a biografia desse “bom que morreu jovem”, e que no entanto é um dos meus imortais favoritos. A minha grande paixão da adolescência e da vida toda. Renato.
O livro vale muito a pena não só porque trata da vida do roqueiro, mas porque menciona o surgimento da Legião Urbana, seus bastidores, o processo de concepção de algumas músicas, a rotina das turnês - destaque para a turnê do álbum V, que acabou antes da hora e provavelmente foi a mais sofrida para Renato Russo em decorrência do ritmo das viagens, de ele já ter conhecimento de estar infectado pelo vírus HIV, pela sensação de solidão e abandono e pelas bebedeiras.
O jornalista Artur Dapieve, um profundo conhecedor do universo musical, pesquisador, excelente contador de histórias e dono de um texto delicioso - cita o nascimento de outras bandas, principalmente as de Brasília, que esquentaram o rock nacional com sua influência punk. O texto flui como uma onda: em alguns momentos é leve, delicado e até humorado (sobretudo quando fala da infância e adolescência de Renato), e em outros, é mais denso e tocante. O autor já começa “noticiando” a morte do líder da Legião, como se fosse num filme que começa pelo fim, e depois nos reporta ao poeta criança. Além disso, o livro conta com ótimas fotos, alguns rascunhos e discografia da banda e de Renato, que ainda teve tempo de lançar discos em inglês e italiano - Equilibrio Distante, de 1996: qualquer elogio ainda soa como algo muito pequeno para este trabalho. Capolavoro! Um dos trechos que chama a atenção, no capítulo “Eles não têm respostas”, conta uma cena perturbadora do pai de Renato entrando em seu quarto e dando de cara com o filho transtornado, atirando seus vários livros no chão (muitos, aliás, de filosofia). Ele, perguntando o motivo de tanta ira, ouviu: “Não adianta isso tudo aí, pai, eles não têm respostas para as minhas perguntas”.

Autor: Artur Dapieve
Páginas: 188
Editora: Ediouro

(Indicação requentada, mas é de coração)

Renato Russo - O trovador solitário

quinta-feira, 16 de junho de 2011

 
                   O Japão é pop!  

Com a proximidade da Festa da Cerejeira, essa página não poderia ficar alheia à cultura japonesa. Sobretudo à cultura pop, que abrange filmes, tokusatsu ou live actions (aqueles seriados de super heróis que são famosos há tempos), animes (desenhos), música (j-rock, j-pop), danças, mangás (os quadrinhos), vestimentas e vocabulário próprios e tão peculiares. Enfim, tudo o que os otakus (fãs desse universo) e saudosistas adoram e consomem (e eu me ponho no meio disso). De algumas décadas para cá o Japão passou de importador à exportador de moda e costumes, influenciando o cinema, literatura, artes e culinária. E mesmo se mostrando hoje uma nação moderna, produtiva, ágil, jovem, industrializada, urbana e globalizada, o Japão ainda mantém suas tradições, crenças, lendas, raízes e reverência por seus antepassados – um sinal de sabedoria que poucas nações cultivam.
As indicações, nesta semana e na próxima, serão dedicadas a um pouco dessa cultura contemporânea que tem tomado cada vez mais espaço nos sites, revistas e outras mídias especializadas e que é fonte de fascínio e curiosidade. Uns amam, outros nem tanto, mas com certeza é impossível ficarmos indiferentes a ela.



Indicação de filme
Neko no ongaeshi - O Reino dos Gatos

Duas razões básicas me levaram a indicar essa linda animação: minha paixão por esse universo oriental e minha adoração pelos felinos. O Reino dos Gatos é uma criação de Hayao Miyazaki, um dos mais reconhecidos e respeitados profissionais do cinema de animação japonesa, cujo trabalho ganhou projeção internacional a partir do premiado “A viagem de Chihiro”, em 2003.
O Reino dos Gatos singelamente conta a história de Haru, uma estudante preguiçosa que um dia salva um gato de atropelamento. Na mesma noite ela recebe a visita do misterioso rei dos gatos, que a convida a conhecer seu reino – um lugar mágico onde todos os animais falam e se comportam como gente. O que ela não imagina é que ela será forçada a se casar com o príncipe e assim se transformar em uma gata.
Visualmente agradável e leve – pelos tons pastéis – a animação ainda conta com uma bela trilha sonora e é o tipo de filme que chama a atenção dos públicos adulto e infantil, pois trabalha de modo lúdico uma narrativa simples com um bom ritmo e piadinhas, tudo com um toque de fábula.
Um dos pontos mais encantadores da animação é o fato de os gatos andarem sobre duas patas e elegantemente vestidos – coisa que na vida real seria impossível e desnecessário, além de absurdamente estranho, mas que no filme chega a se tornar engraçado. Outra passagem divertida é quando Haru ganha alguns presentes do rei, agradecido pela garota tê-lo salvado. Um dia ela acorda e se depara com a casa cheia de catnip (a famosa erva dos gatos), deixando os felinos da vizinhança doidões. Numa outra vez Haru abre seu armário da escola e dá de cara com centenas de ratinhos correndo embrulhados com lacinhos. Presentes típicos dos gatos que querem agradar seus benfeitores. Porém, quando Haru fica sabendo dos planos do rei de casá-la com o príncipe, a estudante procura ajuda do Barão Von Gikkingen – um autêntico gentleman, e seu companheiro Muta, um bichano gorducho. Quando este encontro se dá muitas aventuras se seguem e Haru, ao adentrar o reino, vira uma linda gatinha.
É claro que sou altamente suspeita por recomendar esta obra, mas o filme vale muito pela qualidade visual, pela bela história e por representar o melhor do cinema de animação japonesa.


Indicação de leitura
Samurai X - Rurouni Kenshin -
Crônicas de um samurai na Era Meiji

Imagino que quem não curte animês ou mangás, não vai dar importância a essa obra, mas poderia. Mais do que tratar das aventuras de um dos samurais mais famosos e queridos dos otakus, o livro ainda traz passagens importantes e verídicas a respeito da História do Japão - sobretudo durante o período em que os monarquistas tomaram a ilha, dando início à Era Meiji (lá pelos idos de 1867).
Graças à parceria entre Nobuhiro Watsuki (criador do Samurai X) e Kaoru Shizuka (historiador), o leitor pode saber um pouco mais sobre algumas tradições, fatos marcantes e hábitos do povo japonês da época. Por exemplo: foi só no começo da Era Meiji que surgiram os primeiros gyunabe-ya (restaurantes de comida ocidental), em Edo (atual Tóquio) e foi aí que eles finalmente conheceram a carne bovina. O livro explica até como ela era preparada.
Mas além das curiosidades a cerca da sociedade, economia e política japonesas, como não podia deixar de ser, o que prende mesmo é o velho dilema do samurai Kenshin Himura: o de não voltar a usar sua Sakabatou (espada com lâmina invertida) para matar as pessoas - ainda que a tentação seja grande.


No mangá original, Kenshin Himura, aos 14 anos, passou a integrar o exército monarquista, opondo-se ao xogunato (uma ditadura militar feudal), numa das épocas mais conturbadas da história do Japão. Por causa de sua frieza e habilidade com a espada, ele ganhou o apelido de “Battousai, o Retalhador”. Com o fim do conflito, Kenshin torna-se um andarilho disposto a não mais matar as pessoas. Numa dessas andanças ele conhece a jovem mestra Kaoru, que administra com dificuldades o dojo (uma espécie de academia de luta) da família. Depois conhece o “aborrecente” Yahiko e Sanosuke Sagara, um adorável vagabundo e lutador de rua. Eles acabam se tornando a sua família e é por causa deles que Kenshin decide abandonar seu lado Battousai e levar uma vida normal.
Essa novela romanceada traz duas histórias: uma é inédita, em que o livro "Viagem à Lua", de Júlio Verne, gera pequenas discussões entre os personagens - uns acham impossível que um dia o homem pise na Lua, outros preferem acreditar que sim - mas isso é só um pano de fundo para acontecimentos bem maiores, pois o livro é misteriosamente roubado e depois disso Kenshin se depara com forças remanescentes do antigo xogunato. A segunda passagem é tirada do mangá e do anime, só que contada com maior riqueza de detalhes. É sobre uma parte do passado de Sanosuke que volta para assombrá-lo e Kenshin tenta impedir o amigo de se aliar a uma tropa que pretende atacar o governo.
Samurai X tem sido um sucesso em todo o mundo, tanto o anime e os filmes quanto o mangá são instrumentos bem interessantes para conhecermos um pouco sobre o Japão antigo. Além disso, as animações têm uma das melhores trilhas sonoras dos animes com músicas impecavelmente cantada por todos os otakus – e algumas destas provavelmente serão ouvidas na Festa da Cerejeira, como Sobakasu (Judy and Mary), Tactics (The yellow monkey), Heart of sword (T.M. Revolution), It´s gonna rain (Bonnie Pink) e a minha favorita, 1/3 Junjō na Kanjō (Siam Shade).

Samurai X - Rurouni Kenshin - Crônicas de um samurai na Era Meiji
Autor(es): Nobuhiko Watsuki e Kaoru Shizuka
Editora: JBC
Páginas: 174

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Indicação de leitura
Zadig, ou o Destino – História Oriental



Voltaire, ou François-Marie Arouet (1694-1778) é um dos maiores representantes do Iluminismo, e só por isso já o adoro e o recomendo. Entretanto, é ainda um filósofo altamente irônico e sarcástico, apontando as falácias da sociedade através do riso, mostrando quão ridículos são os conservadores e intolerantes.
Suas obras de tão ácidas chegam a ser destrutivas, com o objetivo de atacar os poderosos, os invejosos, os orgulhosos, os fanáticos religiosos, enfim, os mal-amados que, envoltos em sua atmosfera antiquada, pregam o falso moralismo que lhes é tão característico.
E Voltaire, através de sua ironia “gentil” rompe com este cenário e busca novas formas de pensamento, livre, equilibrado, sensato e até bem humorado. É o tipo de pensador que me ganhou como sua fiel seguidora, logo na primeira obra sua que li. Na verdade Zadig foi a segunda. A primeira foi “Tratado sobre a Tolerância”, igualmente apaixonante e bem provocativa para quem tem a mente ainda um tanto fechada, sobretudo quanto às questões da Igreja. Por isso desta vez escolhi Zadig, a fim de evitar maiores confrontos filosóficos.

Zadig, ou o Destino não é um tratado, mas uma novela sobre um filósofo da antiga Babilônia – meio perdido no tempo e no espaço, já que Voltaire não se apega muito a detalhes de datas e mapas. O que ele quer é retratar, através de Zadig e de suas desventuras, as mazelas presentes em seu próprio cotidiano, cutucar as feridas sociais e políticas de seu tempo.
Nesta obra, em que tudo parece estar sempre perdido para Zadig, temos a impressão de que o homem não é e nunca será senhor de seu próprio destino. É como se fossemos marionetes controladas por algo bem maior, por um Destino sacana e sádico que nos leva para onde bem entende, sempre nos testando e rindo de nós. O livro é descrito por alguns estudiosos como uma “história de ortodoxia religiosa e metafísica”, ambas provocadas pela revolução moral que Voltaire plantou em Zadig – personagem com toques orientais, uma vez que o Oriente estava em pauta desde a segunda metade do século XVII. Voltaire, em 1747, “inaugurou” o gênero de contos filosóficos com esta obra, inspirando posteriormente outros gênios, como Edgar Allan Poe.

Zadig tem a noiva raptada e, ao tentar resgatá-la, tem um olho gravemente ferido. O grande médico Hermes tenta lhe dizer que ele não ficará curado, mas Zadig não dá atenção e indo ao encontro da noiva Samira, ele desafortunadamente descobre que ela detesta caolhos e que acabou se casando com o bandido que a havia sequestrado.
A partir daí a vida de Zadig passa por altos e baixos. Muitos mais baixos do que altos, aparecendo em seu caminho pessoas invejosas, dilemas morais e indivíduos ambiciosos.
Através disso, Voltaire fez uma alusão às pessoas de sua época, às arbitrariedades, à intolerância. Com isso, claro, ele colecionou ao longo de toda a sua produtiva vida literária, tanto admiradores quanto inimigos, chegando a passar duas temporadas preso na Bastilha. Ele gostava e sabia viver bem, mas tratava a todos como iguais. Não se prendeu somente à filosofia, mas produziu tragédias, romances, contos, poesias, ensaios e sátiras. Deixou também mais de 10 mil cartas, um verdadeiro baú de documentos jornalísticos.
Zadig é apenas uma das várias evidências da beleza do espírito voltaireano, despido de preconceitos, engenhoso, um pouco maligno às vezes, mas rebelde e repleto de todo o frescor do Iluminismo.

Zadig, ou o Destino pode ser lido em
www.ebooksbrasil.com.br ou www.livrosgratis.net

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MIL ANOS DE ARTE


Adriano Colangelo, italiano que vive há bastante tempo em São Paulo, tem algumas das ocupações dos meus sonhos, mas que nas quais, provavelmente nessa vida, eu não terei muito tempo de arriscar a me meter: artista plástico, músico, ensaísta, escritor, pesquisador e estudioso da obra artística de Leonardo Da Vinci e da História das civilizações orientais e ocidentais.
Passou anos viajando por grandes e pequenos lugares conhecendo e se encantando com paisagens, pessoas e culturas da América Latina, trocando ideias com antropólogos e xamans, formando dentro de si um mosaico riquíssimo de informações, percepções, mistérios e belezas.
Tomei conhecimento dele por acaso. Passeando por Campos do Jordão, parei para comprar um livro. Peguei-o, passei pelo caixa, meti-o na bolsa. Quase não o folheei, não foi preciso. O título já me bastou para saber que eu ia adorar a leitura. Já fiz muitas escolhas bobas na minha vida, mas quando a livros eu raramente me equivoco. Sem falsa modéstia, tenho um faro apurado para isso e com Mil anos de arte vi que acertei mais uma vez.
A obra trata basicamente de um resumo sobre a história da arte ocidental, levantando-se os períodos e movimentos, de acordo com os séculos, enquanto traça-se um paralelo com o nascimento e consolidação da música clássica. Diria que nesse Colangelo convida o leitor a conhecer, em rápidas pinceladas e em alguns poucos acordes, o encantador mundo das artes.
Ele não se aprofunda, não fica páginas e páginas num mesmo tema. Como eu disse, mais parece um convite ou uma degustação, é como alguém que nos mostra um lindo cartão postal e com isso aguça a nossa vontade de conhecer aquele lugar estampado ali. Afinal foi a partir de Mil anos de arte que eu passei a devorar livros sobre esse universo. E inevitavelmente caí de amores por vários de seus conterrâneos: Da Vinci, Michalangelo, Caravaggio, Rafael, Botticelli, Mantegna, Tintoretto, Cimabue, Buoninsegna, Canaletto, Bellini, Piero Della Francesca, Titian, Uccello, Veronese e até o extravagante Arcimboldo.
Isso só contanto os italianos! E homens. Pois entre os franceses, alemães, holandeses, britânicos, norte-americanos, espanhóis, hispano-americanos e brasileiros também há várias mulheres brilhantes.
O livro traz noções sobre a pintura na Idade Média, no Renascimento (meu período favorito), Barroco (inclusive o latino-americano, com destaque para as igrejas brasileiras), Rococó, Romantismo, Impressionismo, Art Nouveau, Expressionismo, Cubismo, Arte Abstrata, Futurismo, Surrealismo, Escola Bauhaus e Modernismo. Ao mesmo tempo fala sobre a música medieval, renascentista, barroca, ópera lírica, óperas francesa e russa, Beethoven, o cinema na década de 20 e o advento da música moderna.
Parece assunto demais para um livro só? Pois o delicioso mundo das artes não é nem um décimo disso. Adriano nos mostra o cartão postal. A viagem é por nossa conta.

Mil anos de arte
Autor: Adrinano Colangelo
Editora: Cultrix
Páginas: 117

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FLORBELA ESPANCA

Sonetos



- Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 21/04/11 -

Uma vez eu disse a uns amigos: “Eu queria ser como Florbela Espanca, menos na parte em que ela se mata no dia do aniversário”. Isso porque Florbela é um dos maiores nomes da literatura portuguesa, uma sonetista perfeita. E uma mulher muito apaixonada, passional, dramática, visceral – percebe-se pela escolha mórbida de se encher barbitúricos na madrugada de seu 36° aniversário, em 8 de dezembro de 1930, após outras duas tentativas de suicídio. Por isso que fique bem claro que eu queria ser Florbela só sob o aspecto literário!
Sua vida repleta de inquietude, tumultos, paixões e dilemas íntimos, reflete-se em suas obras nitidamente feminilizadas, erotizadas e panteístas. Casou-se e descasou-se várias vezes, ainda jovem perdeu a mãe, sofreu um aborto, teve complicações nos ovários e pulmões, apresentou crises de neurose, seu adorado irmão morreu em um trágico acidente de avião, agrava-se sua doença mental e, em meio a esse turbilhão de eventos, Florbela jamais interrompe seus estudos e sua produção.
Este compêndio resume suas mais afamadas obras, separadas em 4 livros e todas, de algum modo, revelam os sofrimentos de Florbela, suas paixões, a solidão, seu saudosismo. Mas ao contrário do que possa parecer, seus escritos não nos contaminam com suas angústias, mexem conosco de outro modo, eles nos encantam de tal modo que acabamos por devorar esse livro na mesma hora. É claro que esse é um testemunho muito pessoal de quem admira a arte do soneto e que ao ler Florbela, chega a imaginar e ouvir sua voz com o doce e inconfundível sotaque lusitano. Elegi, com muito custo, meus sonetos favoritos: Eu, Amiga e Tédio (Livro de Mágoas – 1919), O nosso livro, Fumo e Horas rubras (Livro de Sóror Saudade – 1923), Rústica, Se tu viesses ver-me..., Ser poeta, In Memoriam (uma homenagem ao irmão, a seu “morto querido”), Árvores do Alentejo e Teus olhos (do livro Charneca em Flor – 1930), À morte e O meu soneto (Reliquiae – 1931).
Alguns críticos apontam o fato de Florbela nunca ter abordado temas humanistas ou sociais em seus escritos (que não se resumem apenas em sonetos, mas contos, epístolas, diários e textos diversos), que giravam muito em torno de si e de seu mundinho pequeno burguês. Mas o que poderia fazer uma moça, no começo do século passado, em Portugal em meio a uma sociedade ainda tão patriarcal? Ela assumia-se conservadora e até um pouco egocêntrica, e creio que, mesmo com tantos “eus” e com tantos rompantes de paixão, que até podem beirar à pieguice, nada consegue tirar a beleza e a singularidade da obra de Florbela Espanca.

Sonetos – Florbela Espanca
Coleção A obra-prima de cada autor
Editora: Martin Claret
Páginas: 128
Brás, Bexiga e Barra Funda



 - Página de Cultura do Jornal Comarca de Garça, de 15/04/11 -

A obra de Antônio Alcântara Machado, escrita em 1928, assemelha-se muito a um jornal; seus contos soam, aos olhos e ouvidos mais sensíveis e saudosos, como crônicas “fanfullescas”, como se alguma nonna ou zia estivesse nos contando histórias de nossa família ou conhecidos. 
Em Brás, Bexiga e Barra Funda, o autor resgata a São Paulo do século retrasado, quando a cidade recebia os imigrantes italianos que vinham fazer a América e suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras. Alguns permaneceram nos campos, mas os que foram para a cidade marcaram indelevelmente a história da capital paulista.
Tenho um profundo carinho por esse livro por três motivos óbvios: a ascendência, a paixão por História e o fascínio por São Paulo.
Durante os meses em que vivi no Brás, em 2008, procurei por resquícios do que um dia foi um bairro genuinamente italiano. Mas o tempo passa, as coisas mudam e o que restou da italianice de outras décadas encontramos apenas nas festas paroquianas de São Vito, Nossa Senhora Achiropita e Nossa Senhora Casaluce, ou no que sobrou das fachadas do antigo casario e corticinhos que ainda resistem a tanta transformação em torno de si.
Alguns dizem que Alcântara Machado fez quase uma “homenagem ao contrário” à comunidade ítalo-brasileira ao retratar os imigrantes como gente grosseira, briguenta e ambiciosa. Mas não consegui enxergar isso. O que vi foi gente embrutecida pelos desafios da sobrevivência em uma cidade já muito competitiva, que entrava num acelerado processo de industrialização e que abrigava povos de várias partes do velho continente – e até do Oriente.
A gente retratada por Alcântara Machado é debochada sim, é grosseira, ambiciosa, escandalosa. Mas é provável que isso se deva ao sangue fervilhante dos italianos, que explodem a todo momento mas que adoram uma confraternização; gente passional e corajosa que transformou São Paulo nos dando gerações de literatos, políticos, esportistas, artistas e industriais.
Rua Oriente, Rua Barão de Itapetininga, Praça da República, Rua do Arouche, Santa Cecília, Jardim América, Rua Dona Veridiana, Praça do Patriarca, Rua da Liberdade, Avenida Paulista, Parque Antártica, Praça Buenos Aires, Rua do Gasômetro, Largo de São Francisco. Alguns desses lugares citados pelo autor eu cheguei a conhecer e eles me deixaram com uma espécie de saudosismo que eu nem sei que nome tem. Não vivi nesses lugares, meus ancestrais oriundi tampouco, mas é como se alguma coisa no DNA da gente se sentisse provocado, apaixonado, instigado. Personagens como a interesseira Carmela ou o menino (teimoso) Gaetaninho nos lembram aqueles parentes que, vez ou outra nos pegamos criticando, mas dos quais não conseguimos desgrudar.
Brás, Bexiga e Barra Funda nos envolve com uma linguagem diferente dos demais clássicos da literatura brasileira. É, ao mesmo tempo, simplória, moderna, criativa, rica, simpática, algo deliciosamente macarrônico. Enfim, fez com que eu me sentisse em casa. Na casa da nonna!

“Italiano grita.
Brasileiro fala.
Viva o Brasil.
E a bandeira da Itália!”
Brás, Bexiga e Barra Funda
Autor: Antônio Alcântara Machado
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 78

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Correspondência entre amigos – Parte 4
UMA PAUSA PARA OS RECLAMES


Já é sabido que a Internet, entre outras coisas, é um poço interminável de bobagens, sacanagens e afins. Mas também é uma ferramenta indispensável para os saudosistas oitentistas como Fagner e eu. Primeiro porque, mais uma vez, trocamos mensagens orkutianas sobre essa “charrete que perdeu o condutor”, como diria Raul Seixas. Segundo porque reviramos o YouTube em busca de propagandas, clipes e programas dos quais guardamos ótimas lembranças. Mensagem de lá, mensagem de cá, convenientemente, mais uma vez, eu noto que isso poderia render outro texto. Então, para quem é da época do creme rinse, dos tênis Iate e dos batons Boka-Loka, creio que essa nossa conversa vai fazer algum sentido:
[Fagner] - Viu os vídeos que eu adicionei sobre a década de 80? Ia colocar alguns de comerciais que eu estava vendo no YouTube que é da nossa época... Tinha até achado um que eu nem me lembrava mais que era dos Trapalhões fazendo a propaganda do Chester Perdigão... Lembra daquela do "Habemus Chester"? (...) Achei umas que parecem com aquelas que passam no Pica Pau, lembra? O episódio chama-se "Propaganda Super", aquele que tem a do "Dentifrício Alegria... quatro cores diferentes combinando com a pele!". (...) Na época devia ser uma sensação, o cara fala no final que "Toddy fortifica!" Tá? Nem tinham preocupação com calorias naquela época...

[Eu] - Essa do Toddy "é gostoso, fortifica e é econômico" tem de tudo! Até cara bombado! Hahaha. Mas você reparou numa das moças da propaganda? Era a Norma Bengell! Ela era linda né? Mas gostei mesmo da latinha do Toddy, que bonitinha. E sim, tem mesmo cara das propagandas que passavam naquele episódio do Pica-Pau em que ele assistia a um programa cheio de merchans! Além do Dentifrício Alegria, eu me lembro das "Pastilhas Fininho - tome uma e fique fininho mesmo!" – Agora essa propaganda dos cotonetes com esse homenzinho azul saindo do banho é clássica!
Quer outra? Camisas Pool "Bonita camisa, Fernandinho!" - eu achava esse tal Fernandinho um nerd, com cara de que era super explorado naquela empresa.


[Fagner] – (sobre uma propaganda secular da Coca Cola em que se falavam – demoradamente - nomes de vários instrumentos musicais) Agora diz se você compraria esse produto por causa dessa propaganda... “Este é o reco-reco!”... aiaiaiaiai Isso é bem parecido com o que é a do guaraná Dolly hoje... Levou tempo até chegarem no "Pipoca na panela...". Pior é que não inventaram outra melhor do que a do Guaraná Antártica.

[Eu] – O que é essa propaganda? Como a TV tinha tempo para jogar fora! Como as propagandas eram demoradas e nada objetivas! Nossa, que sossego! Para se chegar à Coca-Cola o cara apresentou tudo que era instrumento musical - tocados, aliás, por uns tiozinhos vestidos de “malandros”, mas com uma cara de canseira... sinal que a Coca-Cola não deixava as pessoas tão ligadonas naquela época haha (...) Vixe, as propagandas do Guaraná Antáctica eram ótimas mesmo. Pizza com guaraná, pipoca com guaraná... até banana com guaraná tinha, você lembra? Mostrava um mocinho lindo de rabo de cavalo na beira da estrada pedindo carona e ninguém dava. Aí ele fazia uma "banana" para as pessoas. Eu achava aquele mocinho lindo de morrer! Daí o tempo passou, passou... hoje esse "mocinho" é conhecido por Rodrigo Santoro! Acho que foi o primeiro trabalho dele na TV. Ai ai... isso me lembra demais a minha 6ª série (...) Agora quero ver se você se lembra dessa musiquinha: "Estrela brasileira no céu azul / Iluminando de norte a sul / Mensagem de amor e paz/ Nasceu Jesus, chegou o Natal / Papai Noel voando a jato pelo céu / trazendo um Natal de felicidade / E um Ano Novo cheio de prosperidade / Varig! Varig! Varig!" Será que é do seu tempo? Eu já estou com idade para admitir que voei de Varig. Vasp e Transbrasil também! Só não voei de Pan Am porque aí já ia ser demais!

[Passei para o Fagner um vídeo do YouTube, um dos inúmeros sobre a programação da TV na década de 80] Vê só essa seqüência de propagandas, de “um sábado à noite de 1987 na Globo”, na hora do Supercine. Um monte de coisas me chamou a atenção nisso:
1) A vinheta do Supercine não mudou desde 1987!
2) Na chamada do Fantástico, uma das reportagens era os cuidados com a proliferação da dengue. Outra coisa que também não mudou.
3) E os musicais do Fantástico? Ivan Lins e João Bosco. Quando que hoje isso acontece?
4) Você se lembra daquela motinho italiana, Vespa? Muito mais charmosinha que essas motos de hoje e já era vista como uma alternativa para fugir do tráfego intenso!
5) Propaganda da Pepsi com Tina Turner e Blitz! Que máximo isso! Adorei!
6) Taffman-E! Chegou a tomar isso? Eu tomei porque via essa propaganda no programa dos Trapalhões, mas nem sabia do que essa bebida se tratava direito. Mas se os Trapalhões recomendavam... Era bom, mas tinha um gostinho de remédio.
7) Essa é pra acabar: propaganda de livro! Tá certo que era um daqueles romances ultra comerciais, mas mesmo assim... LIVRO!

[Fagner] - Nossa, esse vídeo foi longe, hein?
Quando passou esse Supercine eu tinha 4 ou 5 anos... A vinheta não mudou mesmo. É, não mudou nada, ainda há dengue... Ô tempo em que a TV tinha programas que passavam os mestres da MPB... A Vespa é parte da alma italiana! Ainda tomo TaffMan-E, tem gosto de remédio mas tudo bem... Agora, propaganda de livro hoje só se for de auto-ajuda e olhe lá que tranqueira que estarão vendendo. Lembro de uma vez que falaram que fizeram propaganda nos ônibus franceses do livro do Paulo Coelho, o pessoal de lá achou tão deselegante (...) Pior é que eu gostei da propaganda antiga do Toddy... Viu só a latinha, que diferente, nada a ver com a de hoje. Estava mais para lata da manteiga Aviação do que para achocolatado Toddy...E no final quando o cara fala que Toddy é o único, impossível de se copiar... Agora qualquer fabriquinha tá fazendo chocolate em pó... Não igual ao Toddy, mas já quebra o galho...

O mais curioso é que quando éramos crianças, tudo o que nós menos queríamos era ver propagandas, porque aquilo interrompia os nossos programas favoritos. E, no entanto, hoje, ficamos caçando essas mesmas propagandas, cheios de nostalgia. E é bom deixar claro que não ganhamos um centavo sequer para mencionar os produtos que apareceram neste texto! Não nos venderíamos tão barato e nossas saudades não têm preço.

terça-feira, 6 de julho de 2010

DAS e Fagner!
Mais uma vez obrigada!
Esqueci de mencionar que eu serei uma dessas velhas loucas e solitárias que criam muitos gatos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

OS CLICHÊS QUE A GENTE ADORA

Quem é que nunca se deleitou com um desses filmes bem açucarados ou previsíveis de Sessão da Tarde? Quem é que não se lembra de, durante as férias, ter passado algumas horas na frente da TV assistindo a filmes nada dignos de Oscar, mas que independentes de serem uma obra-prima da sétima arte, nos prendiam e ficaram gravados na nossa memória?

[1] Ônibus escolar amarelo, que geralmente nunca espera pelo aluno retardatário.
[2] Acampamentos com marshmallow na fogueira e histórias de terror.
[3] Festa no ginásio da escola com ponche “batizado” e eleição de Rei e Rainha do Baile.
[4] Tirar fotocópias da bunda – que vão, acidentalmente, parar na mesa do chefe.
[5] Casa na árvore, onde “meninas não entram”.
[6] Xingamentos como “loser” e “ass hole”.
[7] Guerra de comida.
[8] Cachorros que falam, chimpanzés que solucionam crimes e bebês que são gênios.
[9] Trabalhadores que se humilham para ser promovidos.
[10] Crianças que vendem limonada .
[11] Liquidação de garagem.
[12] Perseguição que destrói metade da cidade.
[13] Bater em hidrantes .
[14] Pessoas que se engasgam e são salvas pela Manobra Heimlich.
[15] A tímida do colégio se apaixonar pelo capitão do time de futebol e o nerd gostar da líder de torcida.
[16] Clube de Xadrez, Clube de Espanhol, aulas de Economia do Lar, Marcenaria, Artes e demais atividades extracurriculares que os alunos usam só para conversar sobre seus dilemas adolescentes.
[17] Alunos de intercâmbio que causam o maior frisson na escola.
[18] Personagens hispânicos com sobrenome Gomez, Rodriguez, Sanchez.
[19] Todo japonês é geek, toda loira é idiota, todo mexicano tem subemprego, todo italiano é briguento.
[20] Receber os novos vizinhos com uma torta e xeretar a vida deles através da cerca do quintal.
[21] Ninguém nunca diz “tchau” ao terminar um conversa telefônica. Simplesmente desligam.
[22] Valentões da escola que trancam os nerds no armário.
[23] Treinadores estúpidos que pregam que o que importa é vencer.
[24] Adolescentes que querem ser “os mais populares”.
[25] Gente deprimida que assiste TV com um pote de sorvete no colo.
[26] Viagem em família num trailer.
[27] Algo “mágico” acontecendo numa noite de Natal.
[28] Cortar a grama da vizinhança para ganhar uns trocos.
[29] Máquina de guloseimas sempre enguiçada.
[30] Taxistas indianos.
[31] Enterro em dia de chuva.
[32] Xerifes gordinhos e/ou coroas que nunca concordam com os métodos dos jovens agentes do FBI
[33] Pescadores com chapéu cheio de iscas e caçadores com coletes vermelhos acolchoados.
[34] Livro do Ano.
[35] Baile da Primavera.
[36] Velha louca e solitária que cria muitos gatos.
[37] Catástrofes que só acontecem em Nova Iorque. Às vezes em Paris.
[38] Toda turma adolescente em filme de horror tem que ter um cara fortão, uma menina bonita, um sujeito inteligente e o rapaz piadista. Geralmente o engraçadinho morre primeiro.
[39] Discursos motivadores com a bandeira americana agitando ao fundo.
[40] Apostas para ver quem vai ficar com a feinha da escola.
[41] Baderneiros que arrebentam caixas de correio com taco de baseball.
[42] Cenas de dança em que rumba, salsa, samba e tchá-tchá-tchá são a mesma coisa.
continua...

sábado, 22 de maio de 2010

MOMENTO RETRÔ - PARTE 3
30 ANOS DE PAC MAN! \o/


Só não comemoro jogando porque meu Atari quebrou :(
Junto com Enduro, River Raid, Megamania e Super Dave, o Pac Man foi paixão à primeira vista. Que TV LCD que nada! Eu jogava numa Telefunken toda zuada e era ótimo! Puts, que saudades! :~)


quarta-feira, 7 de abril de 2010

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR

MEU GRANDE QUARTO DE BRINCAR


“São mitos do calendário / Tanto o ontem como o agora / E o teu aniversário / É um nascer toda hora” (Carlos Drummond de Andrade)Esses dias ouvi uma expressão, também drummondiana, que me chamou muito a atenção: Fixação sentimental. Acredito que isso resume perfeitamente todo esse oitentismo e saudosismo que eu sempre sinto. Imagino que quem convive comigo deve estar farto dessa minha mania de ficar remexendo o que já foi, mas dessa vez vou tentar não aborrecer ninguém, mas sim fazer uma pequena homenagem a um lugar que marcou bastante um bom pedaço dessa minha curta vida de 30 anos: a loja A Eletrônica, que um dia foi do meu avô Antônio Sganzela (e também, por um tempo, do seu amigo e sócio Nelson Kerges), e depois do meu tio Carlão. Um pouco diferente das recordações precisas e históricas da minha mãe, o que eu tenho são lembranças de criança, são momentos que me remetem ás tais fixações sentimentais.Eu nunca levei aquela loja a sério. No bom sentido. Quando criança, eu nunca a vi como uma casa de comércio, muito menos como um local de trabalho. Eu a via realmente como um grande quarto de brincar, com suas prateleiras lotadas de bonecas, bibelôs, panelas, potes, potinhos, potões, ferramentas, talheres, vasos, jarras, porta-isso, porta-aquilo... Para mim tudo era brinquedo. Talvez as coisas com as quais eu nunca tenha brincado foram com os violões, porque eu era pequena demais para segura-los, porque eles ficavam pendurados lá no alto ou porque meu tio sabia que violão em mão de criança arteira não prestava. Mas confesso que “testei” muita coisa daquela loja – desde aqueles jipinhos com pedais até aquela pistolinha de acender o fogão, o Magiclick. Aliás, era só botar um Magiclick na minha mão e eu tinha diversão garantida durante boa parte da tarde. Como aquilo tinha mesmo forma de pistola, eu me sentia “a justiceira” atirando nos homens maus.E antes que a minha prima Evelyn diga que eu me esqueci dela, não tinha como esquecer, pois bastava a gente se encontrar na casa da minha avó para que ela viesse com essa: “Vamos brincar de lojinha?”. Aí as duas pirralhas ficavam transitando pela Eletrônica fingindo que uma era a atendente e outra era a “madame” que comprava. Mexíamos na caixa registradora para darmos nossos trocos imaginários, usávamos retalhos de papel de presente para fazermos as notinhas e acabávamos com as fitas, daquela quase secular, máquina de escrever (Remington? Royal? Não tenho certeza). E tudo isso em meio ao entra e sai dos fregueses de verdade. Eu não sei como o meu tio tinha paciência. Eu não teria! Mas o meu nonno já não era tão tolerante, porém até das suas broncas achávamos graça.
A gente só dava um tempo de atazanar na loja quando era hora de tomar café na casa da dona Valentina – a loja e a casa da minha avó eram literalmente grudadas, o que aumentava ainda mais as possibilidades para inventar brincadeiras. Creio que eu só não bagunçava com as imagens dos santos, talvez por medo de ser castigada, porque de resto, em tudo eu mexia, em tudo eu fuçava. Eu me sentia dentro de um outro mundinho, tudo eu queria ver, em tudo eu queria botar a mão. E cada brincadeira, cada tilintar daquela velha e bela caixa registradora, cada vez que a loja funcionava à noite nas semanas que antecediam o Natal, cada passa-fora do meu avô, cada piadinha do meu tio, cada reencontro com os primos, tudo isso traz à minha memória, não apenas a imagem empreendedora de uma família, um estabelecimento respeitado ou um nome que foi se consolidando através dos anos, mas especialmente me leva de volta à minha “Disneylândia” – a melhor e única que eu poderia querer.